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terça-feira, agosto 02, 2016

Manufatura

A fábrica tinha máquinas pequenas adequadas às crianças.
O dono passava por elas com dificuldade, levando a comissão da prefeitura.
- Essas crianças poderiam estar na rua mendigando. Sujeitas à crimes.
O ar era abafado e pouca luz entrava pelas janelas sujas.
- Ouvimos falar em casos de meninas feridas ao colocar o fio na lançadeira - disse a professora que acompanhava a comitiva.
- Sabe, nossa proposta é limitar a idade de trabalho para acima de onze anos. A verdade é que, mesmo em trabalhos artesanais, algumas crianças são tão subnutridas que dormem ou desmaiam.
- A educação pública ainda não chegou para a maioria das crianças pobres - senhora Lourdes Maria falou ajustando os óculos. Mas o senhor tem de convir que uma criança de sete anos não poderia trabalhar doze horas por dia.
- A senhora se esquece que os pais deles são miseráveis. Não é culpa nossa que exista essa massa de famintos.
- Os pais ganham muito pouco - a professora disse. E o povo chama esses lugares de "manufatura de tuberculose".
- A senhora imagina os custos de uma fábrica de vidro? De uma fábrica de chapéu? No Rio as fábricas fecham porque não conseguiram capital suficiente. Vamos ser pra sempre um país de roceiros?
- Mas o senhor com certeza prefere mulheres e crianças, que custam menos - ela disse.
Um menino carregava um pesado saco de carretéis. Levava uma marca de queimadura no rosto.
- Como foi isso meu querido - perguntou Loudes Maria.
- Ele trabalhava com fósforos, colocava na caixinha. Vamos, senhores, vou mostrar o projeto da obra para aumentar o tamanho das janelas.
E a comissão seguiu para o escritório no andar de cima.

Afonso Lima

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