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domingo, agosto 30, 2015

Anna e Bárbara

Anna:

Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor, vem me buscar"

Chico Buarque e Ruy Guerra

Bárbara :

Anna, Anna,
Ando perdida
Sem tua visão
Sem tua carícia
Sem tua ilusão
amiga


Sem teu olhar ando apenas
Pelas ruas nuas
Sabendo que minhas horas são tuas
Ando apenas
Longe de mim


Anna:
Me protege do mal
Me mostra, me decifra
Me beija, me aviva
Me cria com tuas palavras
Assim


Bárbara:
Acariciar os teus sonhos insanos
Teus beijos crus
Teus desenganos


A noite toda te trazer no peito
Te descobrir os caminhos estritos
estreitos
Te dizer versos sem nenhum alento
Enquanto chove.

Anna (murmura)
( ...Por onde vou sou apenas tua
Vago pela noite em procissão imunda
- Pelos espelhos cai a chuva
insana -
Sabendo que me esperas
doce e nua
Na tua cama ...)

"Onde estou, onde estás, meu amor
Vem me buscar..."


Afonso Lima

segunda-feira, agosto 24, 2015

O dia em que meu irmão foi preso

No dia em  que meu irmão foi preso eu estava fora do país, numa bolsa de pesquisa dada pela pós-graduação da Universidade.
Eles foram fazer uma manifestação contra um supermercado de uma rede multinacional. A polícia chegou dando porrada em todo mundo. Os caras do carro de som foram ameaçados de serem atirados lá de cima, algemados, ouviram que podiam ter "provas" plantadas para incriminá-los. Até a advogada com carteirinha da OAB foi algemada. Muitos anos depois um amigo contou que a polícia do Maluf também dava porrada nos punks e skatistas "para ensinar desde cedo a ser conservador".

Minha mãe, filha de militar e criada para falar baixo na época da ditadura porque qualquer coisa poderia prejudicar seu pai, em estado de choque. Meu pai chorou como uma criança.

Na época um amigo de meu irmão escreveu um email: "Quero salientar o teu pai, eu nunca tinha conversado com ele, mas hoje tive essa honra. Teu pai não é mais um o machão galdério. Me pareceu mais um senhor maduro, porém muito frágil quando o assunto são seus filhos. Quando ele soube que tu seria preso definitivamente no presídio central, o olho dele tava cheio de lágrima, não se aguentou e saiu para o banheiro. Tem um amor muito profundo e sincero por vocês, porém, guarda a culpa de não conseguir nunca expressá-lo como realmente gostaria. Este pai nunca aprendeu a expressar tamanho amor pelos filhos, perdoa esse pai que sofre tanto com a distância dos filhos, porém não sabe agir diferente."

Minha irmã estava na faculdade e recebeu a notícia da prisão primeiro. Como contar? (Minha avó era o tipo de mulher que pagava as contas muito antes de vencerem). O pai - sempre otimista - não ia acreditar que o menino que só estudava era caso de polícia. Aqueles presídios imundos com 1400 presos, quando o máximo era 500. No Pará, serviam até uma gororoba em saco plástico, curte de custos... No país onde de 2000 a 2015 a população carcerária subiu sei lá o que, e os pobres vão em cana por um pino de maconha, revezamento de excluídos. (Os traficantes, esses pagam.)
Será que haveria algum assassino na cela? E estuprador? Minha irmã liga para um advogado que diz que "só vão passar a noite lá", "é só um susto". A mãe tinha tido um padrinho, rico, mas informado, que levara uns choques na ditadura, não podia ouvir em polícia. Até hoje minha irmã diz que foi um dos piores dias de sua vida.

Eu sonhei naquela noite que ele e outras pessoas estavam numa espécie de salão de vidro, como um navio, e ondas gigantes passavam por cima deles. Meu irmãozinho era uma criança alegre, contava histórias homéricas, dançava, jogamos muito futebol nos fundos do prédio, nessa época nosso pai trabalhava viajando no interior do Rio Grande do Sul. Quando brigava muito com minha irmã, ganhava como castigo, provavelmente contra toda a lógica, ler livros, e reclamou para meu pai aos 11 anos ter de ouvir uma palestra sobre física quântica.  Minha pedagogia...
Durante anos essa criança havia suportado minha retórica enquanto tentava se concentrar em algum livro de Érico Veríssimo ou José de Alencar. Uma vez, abri um livro de Kant e comentei: "Que bom, esse texto está sublinhado, nem lembrava que tinha lido". "Fui eu", ele disse cabisbaixo.

Meu irmão dormiu com outros vinte presos, homens sofridos, homens "marcados pela sua situação social", como narrou depois. Ele disse que só sentiu uma grande tristeza. Um bando de universitários idealistas, esses rapazes sentiam de repente que não podiam se manifestar, que qualquer irrupção de rebeldia podia colocá-los no mesmo nível em que viviam os brasileiros muito pobres, uma sub-cidadania controlada e reprimida.
Ele escreveu depois:
"As  celas  eram cubículos  gradeados,  escuros,  úmidos  e  muito  frios. Misturavam-se  restos  de  pães,  banana,  urina  e  fezes,  onde,  por  vezes,  passavam ratazanas em busca de alimentos. Ali, sentados, os presos políticos passaram boa parte da noite. Fantasmas começavam a rondar suas mentes. Eles foram ainda trocados  de cela  uma três  vezes durante  a  noite,  passando também por identificações,  fotografias, etc. O mais duro durante a noite, porém, foi suportar o frio lancinante, que congelava seus corpos permanentemente tiritantes, sentados em uma bancada gelada, durante toda a noite. Dormir um pouco era um sonho impossível." Quando eu li isso, lembrei-me dos manuais que durante anos a CIA fomentou na América Latina...

De Buenos Aires, eu apenas acompanhava tudo pelo skype e pensava que minha avó estava certa. "Vocês pensam que as coisas mudaram, não mudaram nada".

Afonso Lima

Sapatos

Num dia de chuva, cheguei à escola onde trabalhava como estagiário durante a faculdade para descobrir que a aula seria num outro endereço, uma espécie de show-room, junto com uma professora, que, então, me ofereceu carona.
Ela sempre me tratara bem, mas todos comentavam que era arrogante e chegava a humilhar alunos e estagiários. Existe esse tipo de pessoa madura, bem educada, profissionalmente bem sucedida, mas no fundo autoritária e intolerante, acostumada a saber e a explicar. São elegantes, falam com cortesia, mas você percebe o tempo todo que não passa "de um simples..."

Começamos amontar as coisas (meu apoio era mais psicológico), até que solucionei um problema numa placa com uma simples fita dupla-face.  "Você já sabe como eu sou", ela diz com frieza educada. Sai de mim uma ironia fora de hora, como tantas vezes: "Para o bem e para o mal".
A manhã segue seu curso com os alunos cosmopolitas falando seu vocabulário de seita até que uma aluna próxima a mim responde: "Eu não sei o que você está falando!" E eu completo: "Até o dia em que nenhum de vocês fale em português!".
Ela dá uma risada simpática. Nesse momento meu sapato molhado por algum motivo sai do meu pé e fico vermelho porque aparece o papel que eu colocara para fugir das poças de água, revelando que eu não vinha de carro. Não posso dizer que lembro do rosto dessa moça, se foi de pena ou de desprendida compreensão.

O dia acabou com a professora quase sorrindo pelo trabalho realizado, o que significava que todos tinham feito "como ela queria".
Como isso não é uma história, mas uma espécie de crônica, não tem moral da história, nem clímax. Eu apenas carrego a grande humilhação daquele momento e a lembrança dessa professora serena, com seu ar superior, mas que guardava tanta frieza e desprezo dentro de si.

Afonso Lima

domingo, agosto 23, 2015

Aprendendo a andar na Paulista

Um homem adulto tira uma selfie. De quê? "Eu de byke na Paulista". Festival de byfie.
É a Holanda? "Não é que as pessoas vão comprar bicicletas. Elas já têm. Só não tinham onde andar" - alguém me diz.
Lembro-me de Porto Alegre, quando o PT fez uma ciclovia na beira do lago Guaíba, mudando a vida da cidade.
A coisa mais legal que vi na avenida foi um menino aprendendo a andar. O pai orgulhoso parecia dizer: "Caminhando na Paulista!"
As crianças roubaram o show: jogando bola com os pais,  em cima do ombro, na bicicleta. "Cuidado com as pessoas", a mãe diz. "Oi, pessoa", o menino passa por mim.
Muita música. Bob Dylan e sax. Comidinhas em food bykes. As pessoas sentadas no meio-fio. Bolinha de sabão.
Alguém teve a ideia de colocar uma bandeira-sinal na ciclovia mesmo sem carros. Os ciclistas educadamente esperam o verde.
"É isso que ele quer", diz o PM, "as pessoas convivendo".
Lembro que no cinema tem sido muito comum gente mandando mensagens, ou seja, competindo luz com a telona. Um rapaz, esses tempos, mandou uma, na segunda eu reclamei, na terceira quase apanhou de um cinéfilo. Uma vez um cara me olhou com uma cara de susto: ele nem percebia que estava em público?
"Na Dinamarca, a lei regula os proprietários", me diz um amigo estrangeiro. Numa cidade onde só é importante o que defende o proprietário individual (até o MP fez o favor de ser contra - "Ele passa o fim-de-semana em NYC", me dizem) e é o tombamento é "ilegal", como disse alguém do CONPRESP para o secretário da Cultura, é surpreendente um prefeito comprar essa briga. Baumann definiu certa vez o neoliberalismo como "um jardim sem jardineiro". A direita, como disse um amigo, está simplesmente fora da realidade. "Defender a ciclovia é ser PT".
São essas viradas que São Paulo dá. Do meio do caos e do fundamentalismo, quando tudo parece perdido, avançamos. Quem dera o Brasil não vivesse de espasmos de melhorias, mas de um poder público disposto a fazer o melhor.

Afonso Lima

quinta-feira, agosto 13, 2015

A peste

ao poeta nada de alma
nada de canto, lua ou amor em pranto
ao poeta a rocha e a onda sedenta
que haja outra lei da que se ensina

gerente da vida
em nome dos seres em séculos vindouros
ao poeta o rude não
o tempo é numérico, o carbono serpenteia
o vento é amplo, o plano ordena
que haja outra lei, da pedra antiga

outra razão, que essa fulmina
fogo e o mar que traga a cidade
multidões em delírio, correm pela noite
onda que abraça, bela luz da manhã
que haja outra lei que regenera


Afonso Lima

quarta-feira, agosto 12, 2015

metafísica

no seu tempo novidade
era não pensar em nada
não saber, não ter mensagem
fechar os olhos, viver a viagem
sentido não quer dizer nada!

pensar é claridade
mas, poeta, eu vivo em tempos crus
sentido não quer dizer nada
nem árvores, nem flores
ritmo de passagem
imagem, metafísica
ansiedade

sim, viagem de luar e sol
sim, um tempo para o não sabido
sim passagem em labirinto
para que o nada não se organize
sim, mensagem talvez e abismo
depois de ter um mistério
passagem por sol e luar

Afonso Lima

quinta-feira, agosto 06, 2015

Brasil

Brasil o aço e o vidro Brasil a escuridão da qual algo emerge Brasil cordial perseguição Brasil um não sem freio Brasil um cão medonho Brasil um muro sem furo Brasil a lei implacável Brasil o preço do atraso Brasil o mato que cresce Brasil o mofo do trono Brasil a teia da aranha Brasil o choro e a cana Brasil um tapa da lei Brasil prata herdada do rei Brasil a senzala da casa Brasil o duro domingo Brasil o parque de pedra Brasil o trem que não vem Brasil o crime perfeito Brasil floresta de vultos Brasil branco no preto Brasil o mato apressado Brasil capitão do ato Brasil a mão não estendida Brasil a vida de mágoa Brasil a guerra na garganta Brasil a lança afiada Brasil a luta manchada Brasil a faca enterrada Brasil é a lama é a lama 

Afonso Lima

dancemos

o monge trovador da Galiza
vendo as três amigas
já grita: bonitas as três
libres e iguais en dignidade
nada fazer
sob as frolidas irmãs
se ao deus bom sabem amar
venham dançar, dançar

as três belas amigas
ao monge trovador da Galiza
já cantam: poeta do rei
razón e conciencia temos
sob as frolidas irmãs fiquemos
se ao deus bom sabes amar
sem nada fazer nos faça
cantar, cantar

o monge trovador da Galiza
amando as três amigas
já grita: embaixo dos ramos frolidos
riqueza nos cerca
se souberem amar amigo
venham dançar
à alegria da natureza
amar, amar, amar

Afonso Lima

palintonos harmoniê

O frio inverno se aproxima
uma ninfa à beira do lago
a alma congela, nuvens cinzentas
somente batalhas, gritos e metal implacável

Eu venho em nome das sibilas
da Senhora das Serpentes
da raposa da China, terra negra
de dentro da matéria brota um espaço
um novo começo, o líquido

Os astros que a Necessidade ordena
os humanos que em fogo se unem
sabemos e não sabemos, sombras do que ordena
investiguemos as opiniões primeiras
espíritos ancestrais, da mata o movimento
a casca dura e a alma do enigma

Afonso Lima

terça-feira, agosto 04, 2015

eu te amo sp

Um ser livre no mundo reprimido
Folhas verdes balançam no alto da árvore
Respirar
Pensamentos nunca pensados
Abrir um buraco
Achados e perdidos de palavras
neste espelho mostro
como você parece em meu pensamento
E tudo volta ao primitivo silêncio múltiplo

A música nos salva
em são paulo
alguém toca o bandolim que toca tanto em mim
é maroto caminhar no MASP e acreditar que aqui é lindo
um raio de luz, batuque, amar o mosaico aquarelado
fitas coloridas
metamorfoses
em silêncio, no escuro outro som
adormecer e acordar no sonho

porque nasce ao lado do muro um futuro
dança africana acordar com bentivis
cores russas resiste recebe e transmite
cabeça na grama e metas de beleza
caem flores e um pensar verde-vida

silêncio

o meu pai nasceu livre e fundei um império
o seu pai nasceu escravo e você observa meu café
eles acham que a vida é uma mercadoria
como qualquer outra todos contra todos
são paulo é festa e renasce e transforma
pastel de feira encontros sushis

o céu

O som sem sentido nos salva
em são paulo
e os seres se unem no último minuto e a vida vence
deitar na escuridão leve pluma estrelas
lógica outra impossível desbunde mergulhar
procurar o poema eu que sou tantos
em são paulo o cômico o concreto vermelho

silêncio

malandragem paulistana eu sinto
na palmeira selvagem são joão
os industriais apoiavam o fascismo pense nisso
mas as moedas fenícias que criaram as línguas
até a Guerra Fria tinha uma magia (acordo) o coro nos consola
under o rio que corre a ninfa trans
lirismo barroco no mar agitado e raios

o céu

eu quero parar um pouco e lembrar e saber por quê
moda de viola ver por tua linguagem
sim são paulo oculta de zen e mãe terra índios
desfazer os destruidores palavras-flechas

o corpo

ninja no nada alma em trovoada navio desgovernado
florescer a lei que seja seiva e afeto tão lúcido
controlar a máquina de caos e mais e mais
recuar refletir voltar pelo outro caminho
a flauta nos salva em são paulo
polifonia um lago sereno um sol que esteve no começo

a música

caminhar lentamente serenidade ar: vazio
árvores em frenesi no livro um país longínquo
nada é eterno certo nada tinha de ser assim
o ser humano erra só o que dá prazer é bem
rimas de resistência na bela são paulo
poetas do punk com maracas discos de vinil
em são paulo a bela a pólis das plumagens coloridas
a música nos salva em negra primavera
eu escrevo brasileiro olho e seu olho me olha
estamos na terra a terra germina
e tudo volta ao primitivo barulho único

Afonso Lima