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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

looking for an out

- Nunca te vi nessa balada. Primeira vez?
- Sim. Jonas.
- Luana.
- Legal o lugar. Pena que minha amiga não pode entrar.
- Como assim?
- Sabe, um amigo me ligou e disse: "Tenho dois convites para uma balada da hora". Perguntou se eu tinha camisa pólo. Lá fui eu mandar o figurino pelo watts. Pediu foto dela. "Acho que pra ela não vai rolar..."
- É assim. Sabe um dia vinha com uma amiga negra. Entrei e ela ficou se enrolando uma meia hora no bar. Quando foi entrar disseram: "Acabou a cota de R$60,00, agora só tem cota de R$100,00. Ela não entendeu nada e me ligou. Eu fui na recepção e disse: "Olha nem tá tão cheio aqui - acabei de entrar e ninguém disse esse lance de cotas". O cara me fala bem de boa: "Olha o público que está aqui não quer gente feia. Periferia não". Ameacei chamar a polícia. O cara riu na minha cara. Fui embora.
- Fiquei chateado porque ela trabalha comigo.
- Né?
- Eu devia ter ficado com ela.
- Vem, vamos dançar.

Afonso Lima


quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Trecho da peça "Sphinx"

J - Seu pai está um pouco profundamente abalado nervoso cansado
A -  Lembro do dia que conheci sua mãe. Estávamos numa reunião do Partido Comunista e alguém entrou pela porta gritando: “Stalin era um nazista!” De repente, Kruschev, esse camponês bêbado, tinha destruído os sonhos de fazermos revoluções por todo mundo, salvando o mundo do fascismo e salvando a Mãe Rússia do bloqueio capitalista. Sua mãe era a mensageira e ela decidiu ir para a China entender o que estava acontecendo. Aqui, Prestes queria uma mudança pacífica, dizia que não tínhamos armas e um exército. Os cubanos ficaram putos. O Comandante chegou. Eu devia tentar embebedar e acalmar Fidel, mas a coisa não melhorou. A classe alta brasileira não era contra o imperialismo. Eram aliados, e desprezavam a massa ignorante. Sua mãe voltou com uma mensagem do Pentágono obtida pela espionagem chinesa que dizia que o Brasil devia ser ocupado por tropas norte-americanas, que instalariam uma rígida ditadura de direita” por estar “comunizado e com a maioria da população disposta à pegar em armas”. Pura ficção, mas sua mãe decidiu defender a via das urnas, entrando em choque com líderes de diversas frentes.

J - Cale a boca. 
(...)

Afonso Lima

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Um brinde

Quando a amiga Carla observou Julio com sua casaca nova (e justa) de casamento, disse:
- Você rejuvenesceu 10 anos.
- Por que as pessoas continuam fazendo isso, se tudo agora dura 2 anos?
- Qual o motivo que teriam para trabalhar 12 horas por dia se não gastassem com alguma bobagem?

Lucas e Mauro estava cumprindo à risca o protocolo: a banda ruim tocando clássicos, mulheres em dourado e brilho em pleno dia, damas de honra em formato de bolo - exceto pelo padre. Ele fora suspenso há um mês por casar duas drag queens.

Sentara ao lado de um jovem atraente, Roberto, que estudava Economia. Então era isso que acontecia quando não se tinha Ciências Humanas.
Klim, klin, klin. 
- Eu sei que ninguém faz discursos em casamento no Brasil. Mas nós vimos séries americanas demais - disse o padrinho.
E decidiu ler um longo poema que ele mesmo escreveu sobre Vênus e Adônis. 
- Sobre que é seu romance - Roberto perguntou.
- Bem, talvez seja apenas um conto. Um escritor que, sempre que volta pra casa percebe na sua máquina de escrever um texto pronto. Por fim ele pensa que o texto é escrito pela máquina quando ele não está. 
- Ele é pobre? Quer dizer, por que não usa um computador. Ah, entendi, é tipo uma viagem no tempo para uma era antiga...
Crepúsculo, o bolo, as pessoas já bêbadas e a despedida dos noivos.
- Eu acho o Gandalf muito mais interessante que Dumbledore - disse Roberto.
- Você pegaria uma outra bebida só pra eu poder ir embora?

Carla disse no carro:
- Assim você jamais vai casar. É simplesmente injusto que vocês homens não tenham tido a oportunidade histórica de casar com babacas e morrer de tédio a vida toda. 
- Quem sabe nós nos encontraremos um dia, de surpresa, numa galeria de arte. Ele me convida para passar uns dias na casa de praia dos pais, eu vou, nos conhecemos melhor e descubro que ele não é um fascista em formação, mas um sujeito complexo, cheio de vida e boas intenções. Depois disso fazemos amor sem parar e compramos uma casa. Decidimos pagar uma festa e chamamos o padre das drag queens, e você pode fazer um discurso ainda pior do que o que ouvimos. 
- É melhor voltar à máquina de escrever que escreve sozinha.

A lua cheia parecia pequena em meio às luzes da cidade. 

Afonso Lima


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Alianças (trecho da peça "O Túmulo")

Como um Chefe do Estado Maior podia estar passando segredos militares aos russos? Ele descarregou a pistola em si mesmo, pressionado pelo chefe, o Barão. As relações entre este e o arquiduque degringolaram. Como o Barão foi incapaz de perceber a fragilidade de um homossexual indiscreto frente a espiões russos. Mostrava a displicência do temperamental Chefe do Estado, que, por outro lado, defendia guerras "preventivas". 

Mas o pior ainda estava por vir. A Inteligência do Império começou a desconfiar de um amigo do filho do Barão, e, depois, do próprio filho. Será que ele entrava no escritório do pai à noite e copiava os planos de guerra para entregá-los aos italianos, que os entregariam aos russos (ele tinha uma amante italiana). Perturbado, o Barão mandou que aplicassem a pena máxima ao filho. 

Havia muito medo no ar. "Um estado de menor importância pode arrastar todas as grandes nações à guerra", dizia o herdeiro do trono. A ambição imperialista, o conflito entre desejos expansionistas (no continente europeu) e coloniais pareciam prontos a explodir. Um movimento imperialista surge na Alemanha unida, disposto a rever a política de contenção de conflitos que gerara um sistema de alianças. 

O Barão e o arquiduque já não escondiam a hostilidade mútua, o Imperador tinha dificuldade em harmonizar diversos níveis e focos de poder. Nesta situação o arquiduque repreende em público o Barão por alterar manobras sem consultá-lo. Por fim, o Barão é demitido e tudo parece se encaminhar para mais meio século de equilíbrio precário baseado em tratados e diplomacia. 

O assassino do arquiduque diria: "Como herdeiro, ele teria impedido a união dos oprimidos, teria feito reformas". 

Afonso Lima

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

na rua

hoje os anjos abriram suas asas
se consolam uns aos outros
a cidade não tem tempo para crises metafísicas
nós estávamos nas ruas
batuque

meu preto hoje não vai trabalhar
gravata, sapato marrom
é o dia de ser pornográfico
como drummond
inteligente meu preto
sabe da minha fome
hoje, minha pele mastiga
seu prêmio no meu seio
a palavra secreta

molhados pelo cordão
meu preto de chapéu
mãe oxum mandou chover
a cidade despertou

dia de nada luz
preguiça na cama macia
meu preto deixa o livro
é na pele que se sabe o coração

Afonso Lima


No topo

eu estou na piscina.
essa é a prova de que eu estou certo.
no fundo, vocês não importam nem um pouco, antes de poderem entender, já sentamos na mesa com quem manda e obrigamos que faça o que queremos.
não precisamos ser humildes.
eu sei quatro línguas, não vou ser governado por um sindicalista analfabeto.
gosto de ver as montanhas do meu café da manhã, gosto do que é bom, ouro, vinho e mulheres caras.
eu compro, sou um vencedor.
eu sou útil e é por isso que me pagam bem.
outros como eu só comem, bebem e fodem, eu trabalho.
não vivo num mundo de sonho, vencem os piores.
o lobo é o lobo do homem, eu sou o lobo com sangue na boca.
eu sei que esse preto com uma 38 vai me matar se puder; repressão preventiva é meu lema.
eu jogo tênis, meu carro brilha, tenho uma mulher magra e loira (também criada nos melhores colégios e que sabe comprar roupas, ter filhos e contratar babás) para andar comigo de capota aberta.
para mim só há uma forma de lidar com essa gentinha: eu falo de empilhar seus ossos.
se a luta é inevitável, e os melhores sobreviverão, eu bebo desse cálice amargo.
eles são maus, são burros e a agressão é a melhor defesa.
sou um gentleman inglês, um gangster, eu amo minha empresa e sonegar impostos. Paraísos fiscais é meu segundo nome.
um anel de diamantes, um relógio de ouro branco, praia privativa, eu sou feliz.
eu sei que vocês gostariam de influenciar o poder. eu sei que gostariam de falar, de ter mais "visibilidade".
vocês apresentam dados, fazem passeatas, vocês até têm sua mídia "alternativa" para mil pessoas. coitados.
não será o caso.


Afonso Lima







apropriação

- essa joia é da minha mãe.
- e esse colar?
- não estou entendendo, você sabe por que estou aqui?
- sei, sua cidade não existe mais.
- então?
- eu sou um funcionário...
-  e meu celular? vai levar meu dinheiro?
- se não gosta, fale com um deputado.
- eu devia ter ido para outro país. minha cidade inteira...
- não venham...
- agora, é um monte de pedras... bombas, bombas terríveis.
- não pensem num futuro aqui -
- não existe, está silenciosa como um cadáver.
- essa é a mensagem. somos um país pequeno. se você trouxer sua família...
- os soldados dizem que se não mandar dinheiro eles serão sequestrados.
- você vai receber uma bolsa. houve cortes.
- então?
- e esse colar?

Afonso Lima


domingo, fevereiro 07, 2016

à maneira de maupassant

"Conto à maneira de Maupassant" - diz o russo no subtítulo de seu conto "O assassinato", acrescentando - "Uma história real".
Tolstói fez, em 1892, uma versão do conto "O condenado à vida", do francês Guy de Maupassant, de 1883. Temos algumas linhas escritas nas margens, que parecem situações imaginadas para serem inseridas, mas nenhuma delas está na publicação. 

Assim, frases como "Os juízes eram elegantes, houve jurados, procuradores, discursos e, com toda a pompa se decidiu pela guilhotina" ou "Na Alemanha, depois do duelo entre um barão e um burguês por causa de jogo, os principados desistiram de ganhar com o azar" (cuja inserção é assinalada com *) - não parecem encaixar no todo. 

Vejamos as duas versões:


"A ilha não possuía muito de onde tirar sua fortuna. O monarca vivia com relativa modéstia, em comparação com seus parentes do continente. Quando o juiz condenou o réu à morte*, não imaginava como seria custoso trazer da França uma guilhotina. Pensou-se em várias formas de matar. A forca: não haviam homens treinados e o espetáculo poderia degenerar em miserável tortura. O veneno: os especialistas moravam longe e queriam hospedagem para a família. A morte por afogamento: uma lenda de um assassino de séculos passados, que teria voltado, ainda deixava as pessoas arrepiadas. O que fazer? O jogo era a única fonte de renda do pequeno reino*, e o monarca se viu forçado a prender o homem numa cela, mas a troca de guardas era constante. Feitos os cálculos, uma pensão vitalícia soava muito mais razoável. Foi assim que o reino de Mônaco acabou trocando a pena de morte por equilíbrio nas contas". 

-

"Era deprimente ver o rei assim abatido. Ninguém queria fuzilar um homem por tão pouco. Ele mesmo chegou a ir ao cárcere de pistola na mão, disposto a dar fim no caso. Mas... E se errasse o tiro? A fidalguia não acobertaria um vexame assim na Europa. Já não basta chamarem o reino de "aldeia"? Já não basta dizerem que alimenta sua corte e exército com a roleta? Que fazer, se entre o imposto pouco e a briga do jogo, vale mais a segunda? Mas não havia como matar um sujeito sem importar coisas, pessoas, importar até essa coragem. As técnicas haviam avançado. Estávamos num século da lei e da ordem. Ninguém ia enfiar uma faca no homem sem uma certa formação. Ainda, muita gente achava que a liberdade era incompatível com um "estado". Tudo era dívidas e, com tanto luxo a ser vendido e comprado, os ricos desgostavam de obrigações. Na última montagem, a Ópera parecia bem pobre. Pensaram, pensaram. O criminoso foi solto na montanha. Voltou em uma hora, não tinha como viver escondido em reino tão pequeno. Tentaram colocá-lo num navio. O capitão avisou que a imprensa queria embarcar junto, o que tornava o caso impossível. Já se falava em revolta por medo de novo imposto. A corte começou a fazer doações para que se conseguisse um carrasco. Nesse momento, alguém fez as contas e percebeu que uma pensão e uma terrinha no cafundó ficava bem mais em cota. Assim, assinaram o contrato e acabou-se a pena de morte." 


Afonso Lima

sábado, fevereiro 06, 2016

Bem nascidos

- Os ricos são aqueles que venceram a luta, são os melhores - assim disse o Doutor - Mas com a guerra, os inferiores querem entrar e dominar nossa raça, fazendo involuir a nossa sociedade. 
Estávamos sendo treinados para o maior projeto de esterilização que o país já conhecera. Grandes corporações industriais financiavam o projeto. 
Algumas experiências mais ousadas eram conduzidas pelos institutos  alemães, mas a Fundação pagava. 
Nosso Teste Comparativo de Inteligências (um sucesso com os deputados republicanos) podia detectar os indivíduos dependentes e improdutivos. 
- Os operários têm mentalidade comparável a um menino de 10 anos, os universitários a uma pessoa normal. Não se poderia querer um diploma para eles, como os de vocês, e uma casa como a de vocês, porque a natureza mostra uma diversidade incrível de capacidades. 
Eu fui treinado para levar a "boa nova" a grupos de intelectuais, empresários e cientistas na França, na Suécia e na Alemanha. 
Depois disso, voltei à Europa como secretário do governo. Aprovamos no Congresso leis de controle de natalidade, imigração e esterilização. 
Infelizmente, enquanto o Doutor recebia medalhas do Consulado Alemão, e verbas do petróleo, chegaram notícias ao serviço secreto sobre perseguições aos judeus. A lei impedia que alguns deles ficassem, e muitos foram mandados de volta à Alemanha. 
Amigos nos avisaram que, se fosse declarada uma guerra, seríamos vistos como inimigos pela opinião pública. Trocamos de nome e fomos viver no interior. 
Hoje eu crio animais (recebi um cheque da Fundação) e sou casado, ironicamente, com uma judia. O Doutor desenvolveu uma forma estranha de catalepsia, misturada a episódios de epilepsia.
Ela recebeu até a morte uma pensão do governo. 

Afonso Lima




quinta-feira, fevereiro 04, 2016

porto alegre


Eu vejo na frente do mercado público, no largo ao encontro de duas avenidas, bandeiras, grupos, são sindicalistas, movimento afro, ecologistas, professores, feministas e estudantes.

Por algum motivo lembro de Dyonelio Machado, que fala no mercado, o café, o escritório.
A porto alegre de Dyonelio tem um traço fresco, leve, com sobrados azuis e bondes que soltam homens alinhados de chapéu.

Nada mais terrível que o processo de viver dentro do limite, mas há poesia na mente que voa, que luta, no olho da mente. É "outro estado de consciência", como se diz do texto de Henry James, mas reto e firme. 

É uma cidade cheia de prédios antigos, cheia de parques, com comércio em pequenos prédios na rua, também melancólica, falta a saída rápida das megalópolis, mas cria espaços, tem momentos de generosidade, conversa folgada e relações livres do combate. Anota.

“A tia coloca chocolates e aveia na mala, não vai ficar sem comer. Cuidado com o carregador do celular, não vai esquecer, tão desligado esse menino.“

Uma cidade barroca, com amplos passeios, grandes árvores, na qual o sonho parece uma névoa que confunde realidade e imaginação, associações e passos. Onde o cais e os navios são ao lado do exército e dos longos degraus da Nossa Senhora das Dores. O sol se põe na água.

“Na casa do pai fica uma semana. Precisa de coisas novas, aprender, se não fica triste. Quer ajudar na fabricação da mesa, não faz certo, ouve o pai pensar 'se ao menos ganhasse bem'. Quer dizer que ganhou algum dinheiro alguma vez com seu trabalho, fica mudo.”

Dyonelio era criança quando seu pai foi assassinato. Trabalhou desde cedo e, para poder estudar, dava aula para os colegas. Veio estudar medicina em Porto Alegre e divulgou a psicanálise no estado. Foi preso, como membro do Partido Comunista, por ajudar a organizar uma greve. Tornou-se deputado em 1947. 

Sente-se confortável, boas instalações, um auditório lotado, caminha até o fim da rua central, sobe a lomba, observa a movimentação que tem algo de calma. Os arcos do viaduto, o dia está claro, vê-se o lago. Você não verá o homem velho de chapéu e bombacha olhando o horizonte na praça central, nem a galinha no quintal em casa do centro, o atendente de supermercado suíço. Aqui, os ambulantes sorriem, a pintura de rua faz companhia aos cafés, um filme cult fica ao lado de Stars Wars.

"Anda de carro com o pai, vão à orla, gosta de ver o 'braço de mar' com as pessoas correndo, flores, caminhos de pinheiros, crianças, 'aqui a prefeitura trabalhou', o sol se esconde, chove". 

Então não era mentira, toda aquela coisa de geleiras derretendo e neves eternas evaporando, o branco brotando e a “economia baseada em destruição”.

Depois da tempestade, que devia ter nome mais medonho, copas e galhos cobrem o chão do parque, os troncos quebrados mostram que a poda foi violenta, algumas árvores bem grossas exibem as raízes e as pessoas tiram fotos. Há três dias se junta destroços.
Escrevo. 

“Aquele dinheiro todo no banco. Metade custa esse Hesíodo. Mas é a tradução nova, fundador do Ocidente. Ou será Homero? A verdade é que tem dinheiro prometido, na nuvem, para precipitar. Tem duas moedas, entrega uma no café.”

Vamos, é preciso fechar a mala, lembro do dia que decidi poupar dinheiro, o ônibus com os personagens – o zelador, a senhora japonesa, a baiana que vinha conhecer Gramado, o operário de sessenta anos que ganhou uma miséria para ir até Manaus servir o banco, poupava nos lanches. Depois de doze horas usa a mente para o cimento encolher. 

"Ele sonha: são trinta e seis degraus na escadaria das Dores, vê uma criança cair, não sua tia é que conta o sonho, põe uma mão para a cabeça não bater no degrau. Andam pela cidade à procura das pessoas desaparecidas. Chegam a um local de cerimônia, um homem desenha com tinta preta em um papel, o símbolo parece um círculo". 

No aeroporto, as pessoas sérias, frias, tenta um sorriso na porta do banheiro, improvável. Pelo menos um amigo no banco 12 A.

“Vai na praia, ônibus, a ilha, passa as pedras, uma vida toda em uma tarde, fez um job. Depois de tantos apertos, um dia de rei. Sua.” 

Pensando bem, não viu um policial na rua. Uma notícia de que um centro cultural em homenagem a um poeta está fechado, o governo não pagou a segurança. Agora está na avenida, luzes brancas, o vermelho do carro da polícia, uma faixa negra, eu não roubo merenda, não sou deputado, trabalho todo dia, não roubo meu estado, um homem grita "esses vagabundos", enquanto venda balas. Um morador de rua coloca seu papelão num degrau. Ciclistas se preparam para uma ronda. Um torre com jatos de neon azul. 

"a revolução, disse senhor Adams/ ocorreu na cabeça do povo" (Pound)

Afonso Lima

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Ela

ela me conta assim:
eu nasci numa favela, um cômodo de madeira, sete pessoas, pia, fogão e camas.
ela fala da mãe com emoção:
ela me disse aos seis anos você é um menino, não pode querer presente de menina, você tem tico.
essa imagem, eu tento pensar no edredom, eu respiro fundo, um cachorro late, o silêncio da noite, a luz dos postes na parede:
depois o pastor me trancou num quarto escuro. ele dizia que eu tinha que ser diferente, eu tinha que honrar o que tinha no meio das pernas, se não eu ia sofrer, eu viveria carregando uma cruz que é a cruz dos que querem ser diferentes, iam me apedrejar na rua e pedra machuca.
eu aceito, ela é loira, ela me conta assim na escuridão:
eu apanhei feito bicho com dezesseis anos, diziam que eu era um arrombado, viado, eu percebi que queriam me obrigar, me forçar a ter vergonha, me forçar a ter medo a violência da palavra.
amanhã, aguarde, a cama é quente, ela é mais forte:
o centro é violento, eu ia tirar minha vida, eu ia me dar fim não era por causa de mim, não por me achar errado, era que eu não podia pensar que minha mãe pensava que eu era ruim, mau-caráter, que a culpa não era de deus, da natureza, de quem fez ovo virar gente.
aceito a luz, olho pela janela, a rua está deserta:
eu sigo meu caminho.

Afonso Lima

Passeio na livraria

A atendente da livraria diz: "Aqui na cidade, vende muito literatura russa".
É um chalé de vários andares, madeira escura, janelas verdes, art-nouveau, construído para ser livraria. Várias estantes com "Literatura Russa", escrita em gótico. No último andar, fotos da Revolução de 1923 e a neve tomando conta dos campos - pessoas sob grossos palas. Lenço branco contra vermelho, o republicano autoritário e o acordo assinado no castelo do "liberal". A guerra começa com um longo poema em que o partido latifundiário chama o ditador pelo nome de um pássaro carniceiro. "O sangue manchava trincheiras, calçadas, portas e o salão da Intendência" - disse Flores da Cunha.
Lembro de uma professora comentando que o livro "Pais e Filhos", de Turgueniev, de 1862, foi acusado de criar um movimento niilista ao criar essa palavra. Um livro ("O que fazer?", de Tchernyshevsky), sugeriu, na época do czar, que patrões podiam ser esquecidos, inspirou Marx e Lênin e foi responsabilizado por iniciar a Revolução Russa de 1917.
A cidade é pequena, pinheiros, poucas lojas, um lago. Um sebo, há 50 anos as pessoas tinham Maeterlinck e Schinitzler. Muitos livros em alemão. E as pessoas gostam de Tolstói.
Mas, uma notícia, agora, me esclarece alguma coisa.
Em Sverdlovsk, dois amigos começaram a beber numa noite fria.
O que é a verdadeira literatura? "A única literatura verdadeira é a prosa".
Um deles é ex-professor. Poesia. Uma paixão, vira faca.
Um ano antes, quem ama mais Kant matou outro homem.
Observo a neve no campo. Eu desconheço essa gente. Os russos não brincam.
Meu amigo judeu também veio da Rússia.
A névoa desce sobre a cidade.
Um pouco impressionado com um mundo onde as ideias são levadas à sério.

Afonso Lima