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sábado, janeiro 28, 2012

Veja a entrevista concedida à Folha de São Paulo na edição de hoje sobre o Pinheirinho e a questão das remoções no Brasil.

Ação no Pinheirinho viola direitos, diz relatora da ONU

Eleonora de Lucena
São Paulo

(...)

Estamos numa situação em que um projeto urbanístico, que é o da Nova Luz, tem como principal instrumento a concessão dessa área integralmente para a iniciativa privada. A viabilização para a concessão dessa área é entregar essa área “limpinha”. “Limpinha” significa sem nenhuma população vulnerável, marginal, ambígua sobre ela. E, no máximo possível, com imóveis demolidos, para permitir que se faça um desenvolvimento imobiliário com coeficiente de aproveitamento muito maior, prédios mais altos etc. E, portanto, com muito mais potencial de valor no mercado. Isso está diretamente relacionado ao modelo da concessão urbanística.

No plano urbanístico da Nova Luz, um dos principais princípios é liberar áreas dos imóveis e das pessoas que ocupam hoje, para permitir que essas áreas sejam incorporadas pelo mercado imobiliário com potenciais de aproveitamento maiores.

Tenho uma crítica do ponto de vista dos direitos humanos, da forma como tem sido feito. Como no caso do Pinheirinho: uso da violência policial e incapacidade de diálogo com a população. Mas também como urbanista tenho uma enorme crítica a esse plano da Nova Luz, que desrespeita o patrimônio material e imaterial ali presente. O bairro da Santa Ifigênia é o bairro mais antigo de São Paulo. É o único que ainda tem uma morfologia do século 18. Uma parte dos imóveis que está sendo demolida, supostamente interditada, deveria ser restaurada e reocupada. A ação é duplamente equivocada –do ponto de vista urbanístico e dos diretos humanos.

Como a sra. resume toda essa situação? É um processo de expulsão dos mais pobres?

Exatamente. Eu me recuso a chamar aquele local de cracolândia, porque foi um termo forjado pela Prefeitura de São Paulo. O fato de essa área estar ocupada por pessoas viciadas, que estão no limite da inumanidade, foi produto da ação da prefeitura, que entrou nessa área demolindo, largando a área, não cuidando da área, deixando acumular lixo e transformando essa área em terra de ninguém.

Isso é fruto da ação da prefeitura e não da falta de ação da prefeitura. Para depois chamar de cracolândia e depois constituir um motivo para entrar dentro dessa área derrubando tudo, prendendo todo mundo e limpando aquela área como terra arrasada para que uma ação no mercado imobiliário possa acontecer.

Estamos caminhando perigosamente no sentido da hegemonia do valor econômico da terra como único valor, desconstituindo avanços importantes que a sociedade brasileira fez no reconhecimento do direito de cidadania. Isso é muito perigoso para o país. Espero sinceramente que a partir da comoção do debate gerado sobre o Pinheirinho se possa reverter esse caminho.

O Brasil tem a faca e queijo na mão para poder mudar radicalmente de atitude. O Brasil tem recursos econômicos. Tem um ordenamento jurídico que permite respeitar os direitos.

O Judiciário tem que acordar para aplicar não apenas o direito de propriedade nos processos que envolvam conflitos de propriedade, mas também o resto do ordenamento jurídico que temos.

Os Executivos municipais, estaduais e federais também têm que rever a sua ação no sentido de obedecer isso. Temos recursos e temos uma base jurídica para poder recuperar esse caminho.

O modelo hoje beneficia os mais ricos?

É muito genérico falar dos mais ricos. É preciso ver quais são os interesses beneficiados e que não estão sendo beneficiados. Qual é a coalizão de interesses que está promovendo esse tipo de ação.

Temos que entender que sempre existiram forças conservadoras no país. Por que hoje elas têm mais força, mais poder? As forças progressistas abandonaram essa pauta e essa agenda e precisam retomá-las. Existem forças progressistas no Brasil.

http://raquelrolnik.wordpress.com/


quinta-feira, janeiro 26, 2012



Manifesto em defesa do Cine Belas Artes - atualizado - 122 assinaturas!

(PS: tiraram o "Desde 1952 da fachada - parece algo que já foi visto?)

Manifesto em defesa do Cine Belas Artes, patrimônio cultural, artístico e afetivo de São Paulo e do Brasil

Amparados na Constituição Federal, que inclui as “edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais” entre os bens que “constituem o patrimônio cultural brasileiro” (inciso IV do Artigo 126), defendemos o imediato tombamento do prédio da Rua da Consolação, 2.423, esquina com a avenida Paulista, onde funcionava o mítico Cine Belas Artes. Também demandamos das autoridades que lancem mão de todos os instrumentos necessários para reabrir o cinema, inaugurado em 1967 pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) e Companhia Serrador no mesmo prédio que antes abrigara o Cine Trianon, aberto em 1952.

Desde sua inauguração, o Cine Belas Artes manteve as características que demarcaram sua singularidade no circuito exibidor e tornaram-no fundamental para a cultura cinematográfica no Brasil. Ao longo de 44 anos, operou mais como um centro cultural formador de público do que mera sala exibidora, como atestam dois de seus aclamados projetos, o Cineclube e o Noitão, que, diferentemente das salas de shopping, promoviam uma atmosfera propícia à interação. Contou para isso com a preciosa contribuição de Ancona López, reconhecido internacionalmente como um dos melhores programadores de cinema e que teve Leon Cakoff como seu assistente.

Soube, também, adaptar-se à nova tendência de complexos com salas pequenas e médias ao transformar seu espaço no mais significativo multiplex de rua do país.

O Cine Belas Artes promovia a diversidade cultural e a reflexão sobre dramas humanos, história, política e arte por meio de uma programação com filmes de alto padrão, brasileiros e estrangeiros, inclusive com elevado número de obras-primas procedentes de países pouco presentes no nosso mercado exibidor. Desempenhava papel fundamental no circuito cultural das ruas da Consolação e Augusta e Avenida Paulista. Nos fins de semana e feriados, recebia, em média, 1.800 frequentadores por dia.

As filas se repetiam e lotavam suas salas também às segundas e quartas-feiras nas tradicionais promoções com ingressos mais baratos. Esse sucesso era favorecido igualmente pela facilidade de acesso a pé e por transporte público.
Entretanto, pressões do mercado imobiliário provocaram a suspensão das atividades do cinema em março deste ano. O fato recebeu ampla divulgação na mídia.

Frequentadores realizaram protestos na internet e na rua contra o fechamento e organizaram o Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA). Centenas de depoimentos pró-Belas Artes, um abaixo-assinado com cerca de 20 mil assinaturas e adesões de quase 90 mil pessoas no aplicativo Causes no Facebook são apenas alguns exemplos do que é visto como uma das maiores mobilizações em defesa de um patrimônio cultural no Brasil.

Destacamos que este uníssono de vozes em São Paulo coincide com o movimento de resgate histórico dos cinemas de rua em curso no Rio de Janeiro, que contempla a reabertura do igualmente mítico Cine Paissandú (tombado em 2008), anunciada para julho de 2012.

Garantir o cinema de rua é valorizar um modo de vivenciar a cidade com seus bares, restaurantes, livrarias, as pipocas e as pizzas e os encontros com amores, amigos e conhecidos. É, acima de tudo, um exercício de cidadania – lugar de comunhão entre memória, cultura e afeto – que deve ser protegido e fomentado pelo Poder Público.

Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA)

LISTA PRELIMINAR DE ADESÕES AO MANIFESTO PELO CINE BELAS ARTES



Alberto Bandone - cineasta 
Alexandre Stockler - cineasta
Aline Elisabeth Bronkhorst - estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU/USP 
André F.G. Neves - cineasta 
André Fischer – jornalista
André Luís Kakuta – estudante de Engenharia e Arquitetura
Ângela Beatriz de Oliveira Roman - jornalista
Anna Marcondes - presidente do Via Cultural - Instituto de Pesquisa e Ação pela Cultura  
Antônio Moura Reis - jornalista
Antônio de Souza Neto - síndico da Galeria do Rock (São Paulo capital)
Antunes Filho - diretor do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc
Benjamin Seroussi - curador e produtor 
Caio Plessmann - cineasta e diretor da seção paulista da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD)
Cândido Malta Campos Filho - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Cao Hamburger - cineasta 
Carlos Guilherme Mota - historiador e professor emérito da FFLCH/USP
Carlos Reichenbach - cineasta
Caru Alves de Souza - cineasta
Celso Antonio Bandeira de Mello - jurista
Celso Gonçalves - cineasta e vice-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD)
Célia Marcondes - presidente da Sociedade Amigos e Moradores do Bairro
Celso Luiz Lasarim - jornalista
Clarice Bagrichevsky - professora universitária
Cláudia Leal - diretora da Cia Daqui “Teatro para Todos na Capital Federal”
Cláudia Mogadouro - coordenadora do Grupo Cinema Paradiso e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE)  
Cleo de Paris - atriz do grupo “Os Satyros”
Cunha Júnior - jornalista e apresentador de TV
Dalberto Adulis - coordenador da Associação Brasileira de Desenvolvimento de Liderança (ABDL)
Daniela Thomas - cenógrafa e cineasta
Danilo Miranda - diretor do Sesc/SP
Débora Castro - socióloga
Debora Duboc - atriz 
Denise Carreira - coordenadora de educação da Ação Educativa e Relatora Nacional para o Direito Humano à Educação
Edgard Carvalho - professor titular do departamento de antropologia da PUC/SP, representante no Brasil da cátedra itinerante Unesco “Edgard Morin” e ex-presidente do Condephaat
Eduardo Suplicy - senador (PT/SP)
Eduardo Tolentino - diretor do Grupo Tapa de teatro
Eleonora Figueiredo de Souza - consultora ambiental
Eliseu Gabriel - vereador (PSB/São Paulo capital)
Evaldo Mocarzel - cineasta e dramaturgo 
Eva Wilma - atriz
Fábio César Delmório - publicitário
Fábio Yamaji - diretor de animação
Fernanda Pereira de Souza - arquiteta e urbanista
Fernando Alves Pinto - ator
Fernando Henrique Cardoso - ex-presidente da República e professor emérito da FFLCH/USP
Fred Ghedini - ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e diretor da Associação de Proteção dos Direitos Autorais dos Jornalistas Brasileiros (Apijor) 
Gerardo Fontenelle - cineasta 
Gero Camilo - ator e dramaturgo 
Gina Rizpah Besen - psicóloga, consultoria ambiental e doutora em saúde pública
Hélio Goldstejn - diretor de TV 
Henrique Costa – jornalista
Ivan Valente - deputado federal e presidente nacional do PSOL
Jane Casella - assistente social
Jeferson De - cineasta 
João Federici - produtor
João Signorelli - ator 
Jorge Rubies - presidente da Associação Preserva São Paulo
Jorge Mautner - cantor e compositor
José Osório de Azevedo - desembargador
José Otávio Lotufo - arquiteto e urbanista, doutorando na FAU/USP
Juliano de Fiore - sociólogo
Junia Sirqueira Soares - assistente de audio-visual 
Kiko Goifman - cineasta 
Laerte - cartunista
Laerte Késsimos - ator 
Laís Bodanzky - cineasta 
Laura Wie - apresentadora de TV 
Leandro Marques - radialista e cineasta
Lee Taylor - ator
Leonardo Castriota - arquiteto e urbanista, professor titular da UFMG
Lia Acona de Faria - arquiteta e urbanista, filha de Dante Ancona Lopez, lendário programador do Belas Artes
Lucia Helena Vitalli Rangel - diretora adjunta da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Lucila Lacreta - diretora do Movimento Defenda São Paulo  
Luiz Paulo Gerbassi Ramos - arquiteto
Luiz Carlos Merten - jornalista
Maisa Moura - guia de turismo
Márcio Debellian - documentarista 
Maria Margarida Cavalcanti Limena - diretora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Maria Zulmira de Souza (“Zuzu”) - jornalista, idealizadora do programa Repórter Eco da TV Cultura e diretora da Planetária Soluções Sustentáveis
Mario Monzoni - coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV
Maysa Blay - bióloga e ambientalista
Mouzar Benedito - escritor e jornalista
Nabil Bonduki - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Natália Santucci - designer
Newton Moreno - dramaturgo 
Olgária Matos - professora do Departamento de Filosofia da FFLCH/USP
Paula Arantes - consultora em turismo sustentável e fellow do programa Lead
Paul Heritage - produtor cultural e diretor de teatro
Paul Singer - economista, ex-professor titular da FEA/USP e Secretário Nacional de Economia Solidária
Paula C. Ferraz - assessora de imprensa
Paulo Cannabrava Filho - jornalista e presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas (Apijor)
Paulo de Tarso Chamon Schmidt - publicitário e jornalista 
Pedro Roberto Jacobi - sociólogo e presidente do Procam/USP
Rachel Biderman - consultora sênior no Brasil do World Resources Institute (WRI), de Washington D.C.
Raquel Rolnik - arquiteta e urbanista, professora da FAU/USP e relatora da ONU para o direito à moradia
Raul Teixeira - sonoplasta e coordenador do curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro
Regina Drummond - escritora
Regina Porto - compositora, designer de som, produtora e curadora de concerto 
Ricardo Ohtake - arquiteto e urbanista, diretor geral do Instituto Tomie Ohtake e ex-secretário de Estado da Cultura de São Paulo
Rodolfo Sant’Ana Gomes Álvares de Abreu - funcionário público
Rodrigo Faria - produtor cultural e cofundador do Movimento Ilha da Paulista (MIP)
Romeu Mizuguchi - estudante universitário
Rubem Barros - jornalista e diretor edtorial da Editora Segmento
Rubens Rewald - cineasta e vice-presidente da Associação Paulista de Cineastas (Apaci)
Sandra Maria Nunes - professora
Sandra Regina Cutar - socióloga e coordenadora cultural do Colégio Oswald de Andrade
Sara Silveira - produtora de cinema
Sebastião Milaré - escritor 
Sérgio Haddad - diretor-presidente do Fundo Brasil Direitos Humanos e socio-fundador da organização Ação Educativa
Sonia Barros - escritora infanto-juvenil 
Soninha Francine - apresentadora e ex-vereadora em São Paulo capital
Tania Ribeiro - jornalista
Tadeu Jungle - cineasta
Tatiana Theodoro Gasparini - estudante de Direito
Thunderbird - VJ, apresentador de TV, radialista e vocalista da banda Devotos de Nossa Senhora
Toni Venturi - cineasta
Vera Masagão - coordenadora geral da Ação Educativa e integrante da coordenação executiva da Abong - Associação Brasileira de ONGs
Vilmar Pellisson - designer e mestre em Desenvolvimento de Marcas
Vinícius Romanini - jornalista e professor de semiótica da ECA e FAU/USP 
Virgínia Murad - arquiteta e coordenadora da Fundação Centro de Defesa de Direitos Humanos bento Rubião 
Zé Celso Martinez Corrêa - ator, autor, diretor e líder do Teatro Oficina
Zuenir Ventura - jornalista 

terça-feira, janeiro 24, 2012

4.4.8
Para Raquel Rolnik, defensora da cidade viva.


Sampa você me espanta
Eu pulo aquela enxurrada
O pagode tá me enloucando
Um tiro contra o contrabando
A madrugada me chama

E tudo vibra, tudo inflama
Tem gente jogada na lama
Essa cidade se reconta
Nas barbas da ditadura
Nas dobras, muita gente ama

Nós somos daqui
Desse meio de tudo
A gente veio antes
(fugindo) da morte
A gente quer o mundo
Acreditamos na sorte

Querem te derrubar
Querem meter a mão em você
Entupir de cimento
Tem sempre uma boa conversa
Para a maldade construir
Para te esquecer

Mas que força esse canto
Do pássaro no verde e da Luz
Que deseja e nunca deixa
Esse ódio santo

Agora, ergue a cabeça
Multiplux_idade
Com noite, alegria, com passado
Derruba a tirania
Do fato acabado
Abre as asas e recria
O viver em igualdade


Afonso Lima, 2012

sexta-feira, janeiro 20, 2012

São Paulo, Cidade sem prefeito

Até o Augusto Nunes já sabe, meu Deus!



A Luíza está no Canadá- e quem mais?

O bizarro "novo endereço da sociedade paraibana" com "quatro suítes" apresentado por um colunista em um tom tão "familiar" que levou à mistura hilariante de "comentário" e "publicidade" diz algo sobre o Brasil, claro, e lembra outros "brizarros".

(Uma amiga diz no Facebook que ela cansou disso aqui, também quer ir pro Canadá - esse quase deboche da alta sociedade ajudou a bombar o tema :) O sucesso do bordão -até no Jornal Hoje - talvez se deva a essa sensação de que todo mundo ficou no Brasil - menos a Luíza. E os nobres. Vide Programa Brasil sem miséria.

Ainda: ouvi comentários sobre o programa Mulheres Ricas da Band. Uma delas quer ser a Barbie e leva a boneca na mão, numa cópia fiel da Bruxa Malvada da novela (o que era chamado de, antes de virar "barraco do dia"). Assisti cenas onde duas socialites querem ser alguma coisa sem fazer nada para isso. São também excluídas: elas também não chegaram lá!

Mas quem mais está com a cabeça no Canadá?
Todo mundo? Os políticos paulistanos limpando a St. Ifigênia e mandando os moradores de cortiços pra rua para entregar a área às construtoras? Resolvendo saúde pública com cavalos e agora fechando lojinhas e paredes?

Nosso Secretário da Cultura do estado (que iniciou o projeto "Nova Luz") e disse, no Estadão, sobre um cinema que recebia 1.800 pessoas por dia, "os cinemas de rua estão acabando em todo o mundo"?

Tem muita gente "no Canadá", talvez até com boas intenções, que acaba tendo péssimas decisões.
-
Melhores Imagens da Luíza!

http://www.paraiba.com.br/2012/01/13/20155-veja-as-imagens-mais-engracadas-falando-de-luiza-que-esta-no-canada-internautas-organizam-recepcao

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..." é preciso lembrar que a chamada “cracolândia” é produto da política municipal e estadual para o bairro da Luz. Onde existia um bairro, o poder público construiu uma terra de ninguém, demolindo uma parte e degradando a área. A Luz foi simplesmente abandonada pela prefeitura, que parou de recolher o lixo, de cuidar das ruas, da iluminação, fechou o shopping Fashion Luz, que gerava um grande movimento comercial, e com isso essa área, que ficou semi-abandonada, passou a atrair pessoas semi-abandonadas".
http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/11/28/depois-de-degradar-a-regiao-da-luz-governo-de-sao-paulo-quer-se-livrar-dos-viciados-em-crack-da-area/

OAB SP PROMOVE MESA REDONDA SOBRE A CRACOLÂNDIA
Ações do documento
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17/01/2012

No próximo dia 26 de janeiro, às 10 horas, em sua sede ( Praça da Sé, 385), a OAB SP realiza uma Mesa Redonda sobre o crack e a cracolândia, com representantes do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ministério Público, Governo do Estado, Prefeitura e Polícias Civil e Militar.


O evento é promovido pela Comissão de Estudos sobre Educação e Prevenção das Drogas e Afins da OAB SP e pretende analisar com profundidade as soluções e abordagens adotadas para vencer a preocupante e complexa questão da crack em São Paulo.

http://www.oabsp.org.br/noticias/2012/01/17/7606

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Interessante.
Há um tempo atrás, ouvi do presidente da ONG Valentes de Davi algo como: ele chegava com dez dependentes por mês e o órgão da Prefeitura dizia que só podia internar 2. Sendo em média 700 o números de pessoas na dita Cracolândia...
Agora o governo anuncia uma operação no local: logo depois que os desmandos da Nova Luz (a velha corrupção estrutural) foram definitivamente aprovados liberando espaço para empreendimentos privados (sem estudar-se as sugestões dos moradores).
Ou seja, agora que o mercado imobiliário ganhou o processo, não precisamos mais de viciados para degradar a área e "tornar urgente" a "revitalização", como disse a urbanista Raquel Rolnik em evento no ano passado na CDL da Santa Ifigênia.
Vide:
http://amsi.org.br/site/a-batalha-pelo-centro
http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/12/07/nova-luz-reflexoes-e-alternativas-ao-projeto-da-prefeitura/

- atualizando...

ESTADÃO ONLINE DE HOJE



Você está em Opinião

Fórum dos Leitores

19 de janeiro de 2012 | 3h 08
O Estado de S.Paulo


*
DEGRADAÇÃO URBANÍSTICA PLANEJADA

É muito suspeito o tal do adiantamento da operação policial contra os dependentes do crack, já que a data é a mesma em que a prefeitura espera licitar a concessão urbanística da Nova Luz para os agentes imobiliários lucrar com terrenos por valores irrisórios. Se haverá qualquer atendimento em março aos dependentes na amplitude necessária, veremos na data.

De fato, tal ação médica, assistencial e policial deveria ter sido feita desde que começou o problema de drogas no centro há uns 20 anos - e de forma continuada. Da mesma forma que existe a obsolescência planejada da vida útil de algumas linhas de produtos, nasce em São Paulo a nefasta Degradação Urbanística Planejada praticada pelos políticos em prol da especulação imobiliária e em detrimento aos direitos à propriedade e ao trabalho.

A dispersão dos dependentes de crack para a porta das casas e dos negócios nos bairros próximos significa a próxima etapa da degradação urbanística planejada que se desenvolve em São Paulo, através da omissão das administrações? Logo teremos novas concessões urbanísticas justificadas em sanar novas cracolândias – a exemplo do projeto Nova Luz? Logo teremos novas concessões urbanísticas para desapropriar outros bairros para os agentes imobiliários continuar a maximizar seus lucros?

O paulistano de outros bairros que equivocadamente festeja o projeto Nova Luz também terá, logo, logo, sua casa e seu trabalho desapropriados; e, aí, entenderá, talvez tarde demais, a necessidade de barrar as ações de Kassab e de Police Neto já. Paulistano, temos que clamar em uníssono os malfeitos deste executivo e deste Legislativo paulistanos que só agem em favor do mercado imobiliário, em detrimento dos direitos de toda a população da cidade.

Suely Mandelbaum, urbanista suely.m@terra.com.br
São Paulo

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Um conto Steam-punk - Afonso Jr. Lima

PARTE 1

A ira

Aqui eu criei uma fábula steam-punk, de um mundo onde os vampiros dominam. Eu tenho um sonho.
Lorde Kevin

Eles haviam me colocado no cargo de primeiro-ministro de Gondal. Era assim que chamavam agora o Império. (As pessoas votavam essas coisas insignificantes... Compras, máquinas, shows... é a liberdade!) Também me chamaram de Azazel, aquele que ensina a lutar.

Com certeza o mito do vampiro romântico nos ajudou a criar nossa identidade. O Conde, Vlad Tepes, foi morto por um de nós para evitar que continuasse sua linhagem mostruosa e algo selvagem: percebemos antes de todos, a importância da sedução.
Se nossa história começara a ser divulgada no século XVIII com os relatórios dos médicos enviados pelo imperador austríaco às vilas próximas ao Danúbio e ao Morava, que confirmavam a suposta onda de ataques vampíricos, e mais tarde pelo padre Calmet, que, tentando criar um método crítico para analisar o assunto, fez, na verdade, um best-seller detalhado, coube a mim a maravilhosa missão de manipular um jovem médico vaidoso, em disputa com seu famoso empregador, Lorde Byron, e fazer com que ele usasse o homem para criar um modelo aristocrático, lascivo, de acordo com o desejo oculto dessa sociedade hedonista em vias de abandonar a carolice. Eu criei minha lenda.

Agora um novo Azazel (porque este era também o nome do “bode expiatório” do Levítico) parecia estar surgindo. Era um rapaz inteligente, que adorava latim e grego e começava a reunir membros da sua comunidade. O governo havia decidido “revitalizar” uma área da cidade. Ficava fora do cinturão das ferrovias, que embelezavam o centro com colunas de bronze galvanizado e arcadas transversais. Mas era próxima o bastante para atiçar a cobiça. Na verdade, ela havia sido degradada (foram mesmo fechados alguns bares e festas) de modo que, deserta, se tornasse morada dos viciados. Assim o governo pretendia remover os moradores do local e dar direito a empresas amigas de ganhar com as novas construções.

Nosso Azazel foi procurado uma noite pela Condessa Z. Ela tinha a mesma idade de Vlad e havia se mantido afastada, considerada até mesmo louca pela nova geração de não-mortos. Ninguém poderia acabar com a Condessa sem levantar de suas tumbas Os Anciãos, que ficaram quietos até mesmo com o fim de Drácula. Eu enviara um espião obour para ouvi-los, através do qual eu via a cena.

- Não tema. Sou uma vampira decidida a ajudá-lo. Isso já foi longe demais. Eles o chamam de Azazel. Eu conheci o verdadeiro demônio Azazel e posso assegular-lhe: ele não é parecido com você.
O rapaz tremia na rua deserta.
- Você já deve ter ouvido falar da lendária cidade de Angria. Ela não é história para assustar crianças, nem, como dizem, uma cidade-manicômio. O povo está já insatisfeito, pois lá a dominação foi mais implacável.
O rapaz olhava para a bela vampira, que aparentava quarenta anos, com misto de pânico e atração.
- Ouça. Esse poder que eles defendem, a hegemonia da burguesia, o império, o patriarcado, está apodrecendo. Eles culpam os judeus, os artistas, os homossexuais e as mulheres liberadas por isso, mas o que eles não podem entender é que as pessoas estão cansadas da metafísica cientificista do universo mecânico. Que a magia quer ressurgir. Que, desde os gregos, a natureza é chamada “divina”. Como queria Plotino, um ser belo que se espalha por tudo, do qual participam todos os seres sensíveis. Eles insistem em dizer que a sífilis, a depravação sexual e a revolta política vêm dos estrangeiros...

Ele parecia estar imaginando que a vampira era realmente louca.
- O que a senhora quer de mim? - ele pode por fim dizer.
- Eles contratarão os maiores especialistas do país para justificar os projetos de demolição e as expulsões. Um informante me contou que eles pretendem iniciar uma onda de assassinatos misteriosos, de prostitutas, vagabundos, imigrantes, e acharão uma forma de incriminá-lo. Usarão a imaginação fervilhante das pessoas, reprimidas por uma vida de produtividade exaustiva, para falar do seu bairro como antro de homens-monstro e sugadores cheios de luxúria, seres das catacumbas a céu aberto, labirintos negros e canais putrefatos.
- Quem são “eles”?
- Plano antigo. Começou com alguns assassinatos. Em 1872, desapareceram, em circunstâncias desconhecidas, os dois censores do Estado russo, os quais haviam censurado "Ética" de Spinoza, o "Leviatã" de Hobbes, o "Ensaio sobre a história geral" de Voltaire, mas que pretendiam aprovar a publicação de um livro de 674 páginas, que consideravam inofensivo por ser difícil, falar do muito diverso “sistema capitalista inglês” e ser estritamente “científico”: O Capital. Os novos censores vetaram o livro. Logo em seguida foi assassinado, nas mesmas circunstâncias, o nobre de ideias liberais Ilia Ulyanov, que deixou um filho, o pequeno Lenin, o qual nunca ouviu suas histórias sobre a negra exploração dos servos nos campos. Sem um “terror demoníaco”, não haveria porque pensar em mudanças.

Tendo descoberto algumas das revoluções científicas em curso, assassinaram seus pesquisadores e decidiram restringir o conhecimento humano ao vapor, à "eletricidade animal", ao eletrofluído dos carros, aos balões e à transmissão sem fios, porque perceberam que a tecnologia, democratizada, faria ruir a sociedade aristocrática. Evitaram também grupos fascistas, percebendo que uma grande guerra, com a destruição dos antigos valores e falta de mão-de-obra, faria refluir o evolucionismo que dava legitimidade à competição desenfreada.
(...)

terça-feira, novembro 29, 2011

Belas Artes: dono pode usar espaço


MÁRCIO PINHO - O Estado de S.Paulo

A esperança de que o Cine Belas Artes continuasse existindo no edifício da esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista acabou. O cinema não será tombado, como pretendiam seus defensores, o que significa dizer que o proprietário poderá realizar as alterações que quiser no prédio e imediatamente alugar o imóvel para que ali seja construída uma loja, provavelmente.

O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) entendeu que o Cine Belas Artes, como bem imaterial, pode ser tema de um registro de memória, e não ser tombado. Em outras palavras, pode ganhar o registro em um livro, uma placa no local e um reconhecimento que incentive políticas públicas.*

"Podemos chegar à conclusão, por exemplo, que o cinema de arte impactou gerações, que criou uma riqueza grande para a cidade e deve ser incentivada como prática", afirma a presidente do Condephaat, Fernanda Bandeira de Mello. Ela afirma que o tombamento não garantiria a permanência do cinema e não há valor histórico em termos de arquitetura no prédio, que foi inaugurado em 1943 e desde 1967 abrigava o Belas Artes.

O tombamento era analisado pelo Condephaat desde 3 de outubro, após pressão do grupo interessado na permanência do Belas Artes. O processo também passou pelo órgão municipal de patrimônio, o Conpresp, que informou que não pode tombar o uso do imóvel.

Afonso Lima, um dos membros do movimento pró-Belas Artes, que tem 90 mil adeptos no Facebook e 20 mil assinaturas em abaixo-assinado, criticou a decisão. "Poderia ter havido um debate, um estudo e mais boa vontade de ver o imóvel como algo histórico. Em seus porões se viam filmes proibidos na ditadura. E a Constituição também considera patrimônio cultural os bens imateriais", diz Lima, que pede que o imóvel seja decretado de utilidade pública.

Sujeira. Fechado desde março, o Belas Artes está abandonado. O prédio foi grafitado e abriga mendigos. O cenário atual é de abandono.
/COLABOROU FELIPE FRAZÃO

* São, me parece, na realidade, três alternativas. Tombamento (por motivo histórico ou arquitetônico), registro como bem imaterial (que prevê "medidas de salvaguarda") ou (o que será aplicado no caso do Belas Artes) o novo "registro de memória", ainda sem instrumentos definidos (uma placa, possivelmente).

Parece que, no Reino Unido, as casas onde os Beatles moraram foram tombadas. O Rio está fazendo políticas para reabrir cinemas de rua, que são economia criativa e movimento, e SP vai para trás, já que há 20 anos foi tombado o terreiro Ilê Axé Obá. Descaso.

segunda-feira, novembro 28, 2011

O Condephaat abriu processo de registro de memória para o Cine Belas Artes.

O órgão municipal do patrimônio havia ignorado o parecer técnico do DPH.
O Condephaat não realizou o estudo exigido pela abertura do processo de tombamento. O registro de memória ainda não tem instrumentos definidos.

A discussão se resumiu a uma troca de emails dentro da comissão e quando o assunto voltou ao Conselho, acabou sendo votado não o objeto de tombamento em pauta -material ou imaterial - mas a aprovação ou não do tombamento.
Todo processo aberto exige um estudo técnico necessariamente.

Algumas opiniões demonstraram completa ignorância do assunto, desinformação. Nem mesmo foi avaliada a Constituição e casos anteriores, como o terreiro Ilê Axé Obá tombado sem o valor arquitetônico. Não houve a participação da sociedade.

Alguns conselheiros levantaram em privado novamente a questão da necessidade de posicionamento do governador no sentido de realizar a desapropriação do imóvel antes que ele seja demolido.

O Movimento pela reabertura do Cinema conta com mais de 100 mil apoiadores no Facebook e 20 mil assinaturas.


Decreto permite o reconhecimento de manifestações culturais do Estado

Com isso, Condephaat agora pode registrar bens imateriais

Além de proteger imóveis e bens importantes para a história de São Paulo, agora o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) também pode preservar o patrimônio imaterial do Estado. Por meio do decreto 57.439, publicado no Diário Oficial da última terça, 18, o governador Geraldo Alckmin instituiu o registro de bens imateriais. O objetivo é identificar e reconhecer conhecimentos, formas de expressão, modos de fazer e viver, rituais, festas e manifestações que façam parte da cultura paulista.


Poderão ser registrados como bens imateriais conhecimentos e modo de fazer enraizados no cotidiano das sociedades; rituais e festas; manifestações orais, literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, além de espaços onde são realizadas práticas culturais.


"A preservação desse tipo de memória cultural é uma das metas da Secretaria de Estado da Cultura, que investe em programas como o Revelando São Paulo e também direciona editais do ProAC para projetos de preservação do patrimônio cultural imaterial", explicou o secretário da Cultura, Andrea Matarazzo.


Para a presidente do Condephaat, Fernanda Bandeira de Mello, a decisão é mais uma conquista importante para o órgão. "A assinatura desse decreto é o coroamento do trabalho que vem sendo realizado na defesa do patrimônio histórico e cultural paulista em seu sentido amplo: material e imaterial".


Qualquer cidadão pode solicitar o registro de um patrimônio imaterial, que, a partir do pedido, será objeto de estudo dos antropólogos, sociólogos e historiadores do Condephaat. Não é necessário tempo mínimo de existência da manifestação para que seja feito seu registro. Sua importância será determinada pelo estudo.


O decreto permite o registro universal para reconhecimento de manifestações que possuem uma matriz comum - como os Reinados de Congo e a Festa do Divino - e o registro específico, para o reconhecimento de manifestações culturais de determinados grupos, realizadas em diversos locais do Estado. Além do registro, o Condephaat pode indicar ações que colaborem para a para salvaguardar a manifestação. A decisão também prevê a concessão do título de Mestre das Artes e Saberes da Cultura do Estado para personalidades consagradas pela comunidade ou que tenha conhecimento indispensável para perpetuação da prática cultural.


Da Secretaria da Cultura

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=216522&c=5006&q=Decreto+permite+o+reconhecimento+de+manifesta%E7%F5es+culturais+do+Estado

sábado, novembro 05, 2011

Filmes brasileiros na 35ª Mostra SP.

O Céu Sobre os Ombros - de Sérgio Borges

Antes de mais nada, reforço que não existe coisa pior do que o filme de Hollywood em português ou o de-novo "menino e menina se amam em São Paulo".
Por isso o filme de Sérgio Borges tem valor. São os desencontros, vazios, contradições que fazem os grandes filmes contemporâneos.

Agora, como espectador, acreditei que era ficção. Três vidas na metrópole. Talvez seja nosso hábito, talvez seja burrice, só que depois dos famosos 10 minutos de apresentação do personagem esperamos outra camada. Essa complexidade (até) surge das facetas caleidoscópias desses seres: acadêmic@ prostitut@, escritor perdido, torcedor religioso... Mas a apresentação dura 71 minutos.

De repente, o filme acaba. A primeira impressão é: e dai?
Se fosse Godard desde o início, ok. Só que a sensação é de uma fábula que começou mas não se conclui.
Mas e os peitos de verdade? E o choro falando da avó?
A coisa meio perdida (e a filosofia de boteco) do escritor perdido?
Ele chama a Greice de Greice?

Voei para o site: então era um documentário? Sim, tudo era de verdade! Você acreditou! Então... foi filmado o sexo ao vivo da trans com um cliente? Forte...

Um pouco conformado, comentei com um amigo que assistira ao debate após a primeira sessão.

- Há muita direção aqui. Ele criou situações, dirigiu atores e deu falas. Não é um documentário, o blog também é "fake".

Uma das delícias do documentário é ter o contexto: não temos o clímax, mas temos um universo rico, causalidades, memórias, uma teia social. Essa densidade nos conta um enredo que leva de um estado a outro.

Se essa confusão (num mundo onde a "escrita de si" floresce e as barreiras doc/real se diluem) não nos faz perder o interesse, deixa o leitor-modelo de Eco tão atrapalhado que pedimos a "intenção" de vidas que nada (disso) nos podem dar.

O filme ganhou o Festival de Brasília - o que mostra sua qualidade.
A trans, por exemplo, nos comove com seu jogo do dentro e do fora, seus muitos mundos.
Se ficamos um pouco com a sensação de arte contemporânea que precisa de placa explicativa do "processo", é bom, entretanto, ter novas ideias por aí.


Histórias que Só Existem Quando Lembradas - de Júlia Murat

Ok, a menina fotógrafa da cidade grande (e ela é só isso, do início ao fim!) encontra a cidade perdida no tempo.

Mas tudo está tão sublinhado... e tem um tempo lento para dizer a mesma coisa.
O tempo lento nos filmes russos e nos mais desconstruídos é camadas de não-saber, de sentimentos materializados, de novidade.

Sim, a velha senhora é quieta, esquisita, cheia de medos... (mas não são terrores e silêncios de gente humana, logo passa).

Sim, a(s) casa(s) é/são grande(s) - vemos lampiões, máquinas de datilografar (que antigo!), pão amassado - os matutos são matutos (não é realidade, é o olhar que os deixou assim), o padre é ortodoxo, etc.

Então percebemos que há uma leveza "latina", não, não é Tarkoviski. Mas o que é?

Exemplo de diálogo:

- Por que parou a música, estava tão boa.
- Vou virar o disco.
- Boa essa música.

Nesse momento eu penso que faltam bons roteiristas.

Depois de meia hora de eu-já-sabia, começa uma relação mais dinâmica, com mais humor (dos habitantes) e belas fotos...

Então elas ficam amigas - claro!
A protagonista é um ponto: não tem nada a dizer a não ser "ser da capital".
Um certo "estereótipo" paira sobre tudo: uma nostalgia do rural que é mais um fetiche (não há televisão nesse lugar e um aparelho que faz som dá medo).

Ah, sim, mas tudo vem de um livro - o que prova minha tese de que vivemos num mundo de europeus (ou latino-americanos) mortos por causa do campo de força.

Por que imagens tão (potencialmente) fortes precisam de tanta fala?
Por que a ideia maravilhosa de um cemitério fechado pelos militares e uma velha que não pode ser enterrada na sua cidade vira um "o que você acha dos jovens"?

Como pontos positivos estão as belas interpretações de Sônia Guedes (Madelena) e Luiz Serra (Antônio).
Ainda, a ideia de mostrar pessoas idosas em cena (o público era também em sua maioria da terceira idade) cobre uma ausência.

Para que vou ao cinema? Para saber que a vida tem dobras.

Ctrl-V - de Leonardo Brant

Existe um senso comum que diz que a mídia nos manipula e nos impulsiona ao consumo e à alienação. Até mesmo as pessoas que mais reproduzem esse esquema na exclusão baseada em conceitos (em "produção") são antimídia.

Ou seja, não é o bastante. O filme se propõe a ser uma reflexão global entrevistando pessoas como Neil Gabler (sempre excelente), Gilles Lipovetsky (tentando falar do atual) e Massimo Canevacci (impecável) e apesar de algumas falas iluminadas não traz realmente um novo aporte ao nosso ódio enevoado. Muitas coisas são sugeridas, mas pouco é dito que nos dê a informação desejada.

Essa novidade pode se dar de duas formas: falando dos casos concretos e dos números desse domínio, como a coisa se dá de forma específica; citando as mudanças reais surgidas da crise que a televisão vive, do fim dos DVDs pela pirataria, da revolução da produção pela divulgação da tecnologia, da reformulação do colonialismo cultural com a crise do patriarcado e a emergência do produto-diferença, do cenário onde a cultura de massa é parte da vida de todos e não pode simplesmente ser rejeitada como "imposta", e temos de nos haver com o prazer e o desejo que as reflexões de Brothers & Sisters nos trazem junto com a problemática do acesso e da distribuição.

Os atores mais experientes ainda conseguem usar a teoria de ferro do marxismo, mas conhecem pouco desses cenários mutantes. Os atores mais jovens, de modo geral, tendem a aceitar como fato o mundo como está, a indústria como criação de demanda e a guerra selvagem como forma de produção.

Sintoma de como o mundo nos isolou uns dos outros e nos congelou em gavetas de racionalidades, parece que cada personagem fala de um lugar sem poder ver além de sua janela. Falta pensar junto para ver mais.

Ao formularmos perguntas temos de evitar o genérico.

Assim, o pensamento crítico poderia sair de seu gueto onde torna-se mais um fetiche burguês, um modo de pertencer ao grupo.

quarta-feira, novembro 02, 2011




Em homenagem às 9 pessoas da Rússia que entraram no meu blog (gente, como vocês sabem português???)
Assisti na Mostra "A cor da Romã" de Sergei Paradjanov (vai escrever isso!).
Sem palavras!
Pura poesia visual. Um cinema realmente feito de reflexões e imagens que narram!

Vale a reflexão do prof. Gilberto Safra:

"Em tempos passados o solo russo era ocupado por uma série de aldeias. (...) A interdependência entre os humanos e entre o homem e a terra é fundante. Assim, na concepção de vida russa é impossível se pensar no ser humano sem o enraizamento na terra, sem considerar a importância do trabalho que transforma e faz surgir as coisas, sem a convivência com outros seres humanos." (Safra, A po-ética na clínica contemporânea, Ideias e Letras, 2004).






Brinde: Sergei Paradjanov by Herchcovitch




terça-feira, novembro 01, 2011

Courbet censurado no Facebook






Ai, ai... Será que voltamos a 1900?

"La popular red social cerró sin previo aviso, el pasado 27 de febrero, la cuenta que contenía una fotografía de la conocida obra del pintor francés Gustave Courbet “El origen del mundo” (en la foto), en la que se ve en primer plano el sexo de una mujer abierta de piernas, y que se conserva en el parisiense Museo de Orsay".

http://paper.li/Blogdofavre

Vale a frase:

"Acepto con mucho gusto esta denominación. No solo soy socialista, sino que también soy republicano, y en una palabra partidario de cualquier revolución –y por encima de todo realista... realista significa también sincero con la verdadera verdad". G. Courbet

http://www.musee-orsay.fr/es/colecciones/resena-courbet/courbet-se-expresa.html

segunda-feira, outubro 31, 2011


Da Ilustradora Glória Costa - http://www.piolhodasanta.com.br/

segunda-feira, outubro 24, 2011

Ministério Público recomenda execução dos recursos para Plano Municipal de Transportes

Recomendação atende à demanda do GT Mobilidade da Rede Nossa São Paulo. Promotor também deu prazo de 60 dias para criação do Conselho Municipal de Transportes.



O Ministério Público do Estado de São Paulo, por meio da Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital, encaminhou nesta quarta-feira recomendação ao secretário municipal de Transportes, Marcelo Branco, para que elabore o Plano Municipal de Mobilidade e instale o Conselho Municipal de Transportes.

O documento é assinado pelo promotor de Justiça Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, que acatou a solicitação enviada pelo Grupo de Trabalho de Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo, formado por diversos cidadãos e entidades que atuam nessa área. Em audiência realizada na última sexta-feira (14), integrantes do GT e da secretaria executiva entregaram ao promotor um ofício em que relatavam a importância da elaboração do Plano Municipal de Mobilidade (já previsto no Estatuto da Cidade, de 2001) e da instalação do Conselho Municipal de Transportes, também determinado por lei.

Agora, a Prefeitura terá que utilizar os R$ 15 milhões já previstos no orçamento de 2011 para a elaboração do Plano e, no prazo máximo de 60 dias a partir de hoje, implementar o Conselho. Segundo Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, se nada for feito até lá o Ministério Público poderá entrar com uma ação contra a Prefeitura. "O Conselho está previsto em Lei, isso é claro. Para não ser instalado terá de haver uma justificativa convincente, plausível", completou.

A recomendação do promotor considera, entre outras coisas, "que a proteção do ambiente urbano equilibrado, saudável, acessível, plural é objeto de atenção da Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo e que o tempo é um bem econômico, social e familiar e que o transporte urbano de qualidade é um direito fundamental dos cidadãos".

Luta antiga

Embora esteja previsto no Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo desde 2002, o Plano de Mobilidade ainda não foi apresentado pela Prefeitura. No ano passado, o GT Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo e a Comissão de Transporte da Câmara Municipal realizaram diversos seminários sobre a mobilidade na cidade.

Em um destes debates, a sociedade civil apresentou um conjunto de diretrizes como contribuição para a elaboração do plano. O documento com as propostas foi entregue ao Legislativo paulistano e à Secretaria Municipal de Transportes.

Outro resultado concreto dos seminários foi a aprovação, por parte dos vereadores, da dotação orçamentária de R$ 15 milhões para que a Prefeitura realizasse os estudos necessários à formulação do Plano Municipal de Mobilidade e Transportes Sustentáveis.

Apesar desse esforço da sociedade civil e da Comissão de Transporte da Câmara, a administração municipal não utilizou os R$ 15 milhões reservados no orçamento deste ano e nem sinalizou que pretende apresentar o plano de mobilidade.

http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/17066


Secretaria Executiva da Rede Nossa São Paulo
www.nossasaopaulo.org.br

sábado, outubro 22, 2011

O pastor Silas Malafaia e a "liberdade de expressão"...
Estamos caminhando para um Estado teocrático?
Se Deus ajudasse a estar aberto ao mundo...
Primeiro a ausência do Estado, para expandir a reflexão, depois a tomada do Estado.

sexta-feira, outubro 21, 2011



O SILÊNCIO DEPOIS DA CHUVA


Aconteceu alguma coisa. O quê?
Desde que ouvi a leitura pública de um trecho da peça de Gustavo Colombini senti interesse. Ela sintetiza uma série de propostas formais que circulam desde a morte/não morte da vanguarda: o tempo como problema, o fim da ilusão, o espaço da ação como espaço da palavra, a fábula nesse universo da palavra, etc.

Tudo isso poderia levar a um poço sem fundo de formalismos se não houvesse por trás disso um olhar de vínculo, de laço. Um olhar que sabe o que está em jogo, o que importa.

Nosso mundo sofre da doença de cérebros convictos decididos a seguir as regras mais modernas (a minha racionalidade aceita apenas esses princípios, esse autor, esses discursos...) - e nossa sociedade é tão aristocrática que confunde produção com exclusão (mate o funcionário e atinja a meta).

E o teatro contemporâneo aceita o lírico, o narrativo, o jogo de imagens, o que geralmente leva a um vazio pretensioso porque apenas focou no "modelo" e não no seu posicionamento, sua questão frente ao que se dá. Se temos de nos abrir ao novo, e isto é ser receptor (o que mal se pode dar quando tudo é normatizado por teorias), o novo também tem de nos ajudar a remontar nossa identidade perdida.

Nosso artista-teórico (algum conhecimento leva à "inteligência"; muito, à curiosidade), portanto, pode se perder no brilho do que é "texto apaixonado por si mesmo" ou texto-de-clã. O filme "Insolação", por exemplo, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, ainda que seja salvo continuamente pela imagem e pela atmosfera, mostra esse fascínio pela gag- cult, palavra "certa", "inteligente", típica de série americana; o filme perde em verdade.

Que saudade do tempo onde se podia arriscar... amamos a arte e odiamos as pessoas...

Também não podemos cair no pensamento oposto de "o que vale é a experiência", já que nossa tradição é também essa carga filosófica muitas vezes massacrante. (Se você não ler Bachelard não pode fazer teatro...) O mérito de Gustavo é ter entendido a teoria (a enunciação de Ryngaert, a família terrível da fábula de Lagarce, o descontínuo de Vinaver, a repetição de Fosse, etc.) a seu favor. A nosso favor.

Leonardo Moreira teve o mérito de cedo perceber essa riqueza e dar-nos como presente isso vivo. Sua direção é brilhante (também porque vem do texto e não lhe ofusca), cheia de movimentações impactantes, lidando muito bem com um espaço tão íntimo (uma casa) e tão inexistente (o tempo multiforme); soluções como colheres de metal, cadeiras que podem voar, a luz muito presente e o próprio cenário brutal (de Marisa Bentivegna) alimentam o clima. O figurino (de João Pimenta) é um caso à parte: um espelho do mundo cinzento, chuvoso e neurótico que existe por ai...
Gustavo se interessa pelo mundo lá fora. Pela forma como ele pode ser confuso. O que importa é que algo aconteceu.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Da série "a vida das formigas"

Meu nome é Alice, sou uma atendente eletrônica. Seu CPF não foi identificado. Tente novamente. 1 se você é cliente; 2 se ainda não é cliente; 3 se deseja ser cliente. 2 Se quer opções de saldo. 4 se quer detalhes da fatura. 8 se quer dicas de segurança. 9 se quer falar com um dos nossos atendentes. Disque por favor o número de sua cidade. #######
Meu nome é Alice, sou uma atendente eletrônica. Seu CPF não foi identificado. Tente novamente.
Por gentileza, eu queria saber... com a greve dos Correios minha fatura chegou atrasada. Ainda posso pagar no banco?
Sim. Se o senhor não pagar hoje seu nome será negativado, receberá ligações de cobrança e poderá ter o cartão bloqueado.
Eu quero pagar. Se liguei pra vocês...
Confirma o pagamento para hoje?
Se o senhor não pagar hoje seu nome será ...
Ok, obrigado.
Hipercrédito agradece sua ligação tenha um bom dia.

domingo, outubro 16, 2011

Mais um local de formação e sociabilização de São Paulo está ameaçado pela especulação imobiliária selvagem. A Associação Palas Athena, que há décadas tem sido ponto de referência para debates sobre a paz e pólo unificador de vozes, grupos, público e especialistas. Onde está a regulamentação dessa cidade?
Acabaremos todos fechados em prédios, sem comércio, sem lazer e sem ruas vivas?

Nota do Preserva SP.

"Uma construtora comprou e vai demolir um dos últimos casarões da Avenida Paulista e três casas antigas e muito bonitas na Rua Leôncio de Carvalho, sendo que numa delas está sediada há muitos anos a Associação Palas Athena.

O Preserva SP entrou com um pedido de tombamento desse imóveis no Conpresp, mas sem o apoio da sociedade vai ser muito difícil esse órgão tombar os casarões.

Portanto, a manifestação, marcada para o dia 22 (próximo sábado), a partir das 11 horas da manhã, será contra o nosso inimigo comum. O local será: em frente à Casa das Rosas (Av. Paulista, 37), pois um dos casarões que serão demolidos fica ao lado."

segunda-feira, outubro 10, 2011

ESTADÃO- LEITORES
TOMBAMENTO DO BELAS ARTES

Na Inglaterra, cidade de Liverpool duas casas sem qualquer apelo arquitetônico foram tombadas pelo patrimônio público e hoje pertencem ao National Trust (permitindo visitas guiadas nos meses de verão).

Motivo: moraram lá em uma dada época de suas vidas dois compositores e músicos de uma banda de rock dos anos 60. Ou seja, não só o valor do prédio é levado em conta, mas também o simbolismo a ele associado. Como é o caso do Cine Belas Artes. Esclarecimento óbvio: as casas pertenceram aos pais de Paul McCartney e à Tia Mimi de John Lennon.

Wanderley Moutinho de Jesus
São Paulo

terça-feira, outubro 04, 2011

Festa!

O Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA) convida a todos para uma festa em frente ao cinema na quarta-feira, 5/10/2011, às 19h. Vamos celebrar a abertura hoje do processo de tombamento do Cine Belas Artes, do Bar Riviera e da Passagem Subterrânea pelo Condephaat, que honrou a memória de Mário de Andrade, um dos mentores da legislação brasileira de proteção do patrimônio cultural e histórico e responsável pela criação do Departamento Municipal de Cultura na década de 1930.

A festa funcionará como ato de protesto contra a Prefeitura de São Paulo, que aprovou o arquivamento do processo de tombamento na reunião do Conpresp do dia 27/09, sem incluir o Belas Artes na pauta publicada na edição de 20/09 do Diário da Cidade de São Paulo. Tal medida foi uma afronta à Lei Municipal 15.201/10, que obriga o órgão a publicar as pautas de suas reuniões no D.O. com sete dias de antecedência.

terça-feira, setembro 27, 2011

São Paulo dos coronéis

Deve ser mais uma piada do Brasil.
O Conpresp decidiu pelo não tombamento do Belas Artes. Mesmo o parecer técnico do DPH sendo a favor - e olha que eles nem puderam usar a lei 14. 406 sobre patrimônio imaterial, porque o prefeito não regulamentou, o que pode vir a gerar punição...
O local foi adotado por Dante Lopes como um irradiador do cinema de arte em São Paulo (que só tinha cinema comercial), abrigou a primeira Sociedade de Amigos da Cinemateca e serviu de reduto de resistência na ápoca da ditadura (os porões, com a sala Oswald de Andrade), dando origem à geração "marginal" de cineastas.

O próprio fato de o caso ter sido jogado no colo do Conpresp - e nada mais ter sido feito - mostra a omissão da Prefeitura. Um parecer "jurídico" veio como o golpe de misericórdia. Mas que lei é essa, e por que está tão atrasada? O cine Paissandu (RJ)e o Cine Brasília foram tombados... Será que ninguém consegue pensar em políticas amplas que envolvam espaço, atividade e identidade? O futuro só se faz com formação e com o passado...


Com mais de 10 bilhões em caixa, construindo um túnel maluco de 3,5 bilhões no Jabaquara e desapropriando metade da St. Ifigênia para uso privado isso é piada grotesca da governança municipal.
São Paulo não tem metrô, não tem proteção contra a especulação imobiliária e agora não tem mais cinema de arte.
Parabéns, senhor prefeito.

quinta-feira, setembro 22, 2011

http://www.tvjustica.jus.br/maisnoticias.php?id_noticias=15471

STF
Arquivada ADI contra lei municipal sobre concessão urbanística em SP 19/09/2011


O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou seguimento (arquivou) à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4651) ajuizada pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) contra a Lei paulistana 14.918/2009, que dispõe sobre concessão urbanística na cidade de São Paulo. “A ação direta de inconstitucionalidade não é cabível para impugnar lei municipal”, explicou o ministro.

Ele afirma que o artigo 102 (alínea "a" do inciso I) da Constituição Federal “é bastante claro no sentido de que apenas os atos normativos federais ou estaduais poderão ser objeto da ação direta de inconstitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal”.

Para contestar ato normativo municipal no Supremo, seria necessário ajuizar uma arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF), instrumento jurídico que busca evitar ou reparar a violação de algum preceito fundamental da Constituição Federal.

O ministro Gilmar Mendes ressalta que, no presente caso, “não é possível a conversão da ação direta de inconstitucionalidade em arguição de descumprimento de preceito fundamental por inexistirem os pressupostos de conhecimento da ADPF”.

O PSOL afirma na ação que a Lei municipal paulista 14.918/2009 utiliza parcerias público-privadas “como ferramentas de gestão e desenvolvimento urbano” em desacordo com regras constitucionais, “modificando a desapropriação e o direito de preempção (precedência na compra), e atribuindo poderes de livre negociação aos bens resultantes dos atos expropriatórios sem expressa previsão em legislação federal e estadual”.

O ministro Gilmar Mendes explica que os dispositivos constitucionais que o PSOL afirma terem sido violados pela lei “não constituem preceitos fundamentais que possam constar como parâmetro de controle na arguição de descumprimento de preceito fundamental”.

E finaliza: “Assim sendo, resta apenas concluir que a presente ação é manifestamente incabível, o que torna obrigatória sua rejeição liminar”.

terça-feira, setembro 13, 2011

Mobilização leva Conpresp a adiar votação do tombamento do Belas Artes

A arquiteta Nadia Somekh, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no conselho municipal de preservação do patrimônio cultural em São Paulo (Conpresp), pediu vista do processo de tombamento do Cine Belas Artes.

Por causa do pedido de vista, foi suspensa a votação prevista para a reunião do Conpresp ocorrida na manhã desta terça-feira (13/09). Os representantes do Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA) comemoraram o adiamento, pois não houve tempo hábil para analisar o processo e preparar a defesa.

Sondagem informal apontava que, se fosse votado hoje, o tombamento seria rejeitado, devido a um discutível parecer contrário da Procuradoria Geral do Município (PGM). Já o parecer técnico do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), órgão assessor do Conpresp, é amplamente favorável ao tombamento, justificando a medida especialmente pelo relevante valor cultural e histórico do cinema e pelas milhares de manifestações públicas de afeto dos cidadãos paulistanos pelo Belas Artes no início do ano, quando foi anunciado o fechamento do cinema.

Somekh atendeu a um apelo do MBA e cinco entidades ligadas à preservação e ao cinema, que pedem prazo até início de novembro para analisarem e debaterem com a sociedade paulistana os pareceres favoráveis e contrários do processo de tombamento.

A procuradoria analisou o processo por mais de três meses, indisponibilizando-o para consulta pública, o que impediu seu acesso aos defensores do cinema. A primeira cópia integral do processo foi obtida há pouco mais de uma semana apenas. Apesar do pouco tempo para digerir mais de 620 páginas de processo, uma comissão do movimento formada por Áurea Colaço (advogada da Associação Preserva São Paulo), Beto Gonçalves (representante do MBA) e Fábio Ornelas (documentarista) fez apresentação durante a reunião de hoje do Conpresp em defesa do parecer do DPH e questionou a fragilidade dos argumetnos do parecer da PGM.

Colegas de Somekh, como os urbanistas Nabil Bonduki e Raquel Rolnik, voltaram a defender em blogs e na imprensa nos últimos dias o tombamento do Cine Belas Artes por uma solução inovadora que combine a preservação do prédio e do uso tradicional do cinema como patrimônio imaterial da cidade.

Na próxima quinta-feira, dia 15 de setembro, a partir das 19h30, a Câmara Municipal de São Paulo promove o evento “Noite em Homenagem ao Cine Belas Artes”, com uma sessão de curtas paulistas premiados seguida de audiência pública sobre o tombamento do Belas Artes, com participação de especialistas e autoridades.

O evento é uma iniciativa conjunta da Presidência e da Comissão de Administração da Câmara, com apoio do MBA, Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD), Associação Paulista de Cineastas (Apaci), Associação Preserva São Paulo, Conselho Brasileiro de Entidades Culturais (Cebec) e Via Cultural – Instituto de Pesquia e Ação pela Cultura.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Noite em Homenagem ao Cine Belas Artes

Local: Câmara Municipal de São Paulo
Palácio Anchieta – Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista
Tel. 11 3396-4000

19h30 - Sessão de curtas paulistas premiados
20h30 - Audiência pública sobre o processo de tombamento do Cine Belas Artes.

Venha comemorar os oito meses de mobilização em defesa dos cinemas de rua!

Programa

19h30 - Sessão de curtas paulistas premiados

Rota ABC. 1991. Direção: Francisco Cesar Filho. 11 min. Prêmios: Contribuição Artística no Anima Mundi 2003, Melhor Curta e Melhor Fotografia no Festival de Brasília 1991.
Sinopse: Ensaio documental sobre os anseios e perspectivas da juventude moradora no subúrbio industrial do ABC paulista, ao som da banda punk Garotos Podres.

L. 2011. Direção: Thais Fujinaga. Com: Cheng Ne, Henrique Schafer, Luis Mai King e Sofia Ferreira. 21 min. Prêmios: Porta Curta Petrobras, Avon, Centro Técnico Audiovisual (CTAV) e
Troféu ABD-SP, todos no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo 2011.
Sinopse: Teté odeia seus pés. Quando conhece Héctor, decide mudar sua aparência.

Palíndromo. 2001. Direção: Phelippe Barcinski. Com: Eucir de Souza, Eugênio Puppo e Silvio Restiffe. 11 min. Prêmios: Festival de Gramado 2002 (filme, diretor, montagem e crítica), Festival de Recife 2002 (diretor e som), Prêmio ABD e C no Festival do Rio 2002 e Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá 2002.
Sinopse: Um homem perde tudo que tem. Uma história simples contada de forma inusitada.

20h30 - Audiência pública sobre o processo de tombamento do Cine Belas Artes.

Convidados para a mesa da audiência:
Nabil Bonduki, secretário nacional de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e professor da FAU/USP
Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura
Andrea Matarazzo, secretário estadual de Cultura,
José Eduardo Lefèvre, presidente Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp)
Fernanda Bandeira de Mello, presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat)

Realização
Presidência e Comissão de Administração da Câmara Municipal de São Paulo
Apoio
Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA), Associação Paulista de Cineastas (Apaci), Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD) e Via Cultural – Insituto de Pesquisa e Ação pela Cultura

quarta-feira, setembro 07, 2011

Sketch sobre Nova Luz

(Centro da maior cidade do Brasil. Rua do Triunfo).

- Não, ninguém vai me tirar de minha casa. Eu tenho 82 anos.
- Você é um terreno. Querem limpar o chão. Lembra o João? Ninguém recebeu ainda o dinheiro do hotel derrubado em 2007.
Ele ficou doente e não pode pagar o tratamento. Morreu.
- Vão respeitar minha idade. Nasci aqui. São Paulo nasceu aqui. Era um mato, fizeram um bairro, era o século XVIII. A escola onde eu estudei, demoliram.
- O esquecimento venta sobre nós e nos apaga. Terra Brasil, dez vezes um milhão, ossos, sangue e carne e não comem. Agora, seres esqueléticos, fantasmas pela rua, abrindo sacos de lixo para procurar comida, parecem os mortos de fome do Quênia. O dinheiro é livre, corre sem raízes nem frutos, mas as mulheres negras, carregando filhos da violência, estão presas na fronteira. Eu li no jornal. Uma delas viu sua filha morrer e seus netos caem um a um. Como fizemos isso? Aqui, os cadáveres vivos são expulsos pela tropa para o fim da rua, até o outro dia. Criam o clima. Escuridão nas almas, corações negros. Reconstrução. Peixes pequenos são alimento. Brotam prédios caros. Uma mulher suja canta, lembrando dos seus dias na noite. Chora. Terra antiga, um velho sangue. Virá a nova luz.

Afonso Lima

segunda-feira, agosto 29, 2011

Cidades...


via Milton Jung

"Diante da convocação de manifestação contra a violência para o próximo dia 28 de agosto pelo movimento SOS Morumbi, a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis gostaria de contribuir com este debate. (...)


Durante a realização da Operação Saturação da Polícia Militar em 2009, a comunidade de Paraisópolis, governo estadual e a prefeitura se uniram para transformar esta realidade e organizar a chamada “Virada Social”, que definiu 126 ações do Estado na comunidade, destas apenas 22 foram concluídas. Ações importantes como a construção de mais um CEU, mais uma ETEC, Clube-Escola, Centro de Educação Ambiental, CREAS, Parque Paraisópolis, CIC, Casa de Cultura entre outros, nunca saíram do papel.

No entanto, a “Virada Social” foi interrompida, e 83% das ações aprovadas e prometidas não foram executadas.

Nossos trabalhadores, estudantes e mulheres sofrem tanto ou mais com a realidade criticada pelo movimento SOS Morumbi. (...)

http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/miltonjung/2011/08/26/sos-morumbi-tem-de-trocar-muro-por-investimento-social

Estadão - Cartas - 29/08/2011
29 de agosto de 2011 | 3h 55
Fórum dos Leitores

DESTOMBAMENTO IRREGULAR NA SANTA IFIGÊNIA

Excelente artigo do jornalista Tiago Dantas sobre o tombamento da Luz e sobre o plano dos lojistas para ajudar aos viciados em crack. O traçado urbano do bairro Santa Ifigênia já está em estudo de tombamento pelo Condephaat desde março 1986; falta ainda decisão de tombamento da sua estrutura fundiária. Ambos, traçado e estrutura fundiária são do século 18 e necessitam ser preservados.

Entretanto, o traçado urbano do bairro Santa Ifigênia foi irregularmente destombado em conjunto por Kassab na prefeitura, e por José Serra, Andrea Matarazzo e Rovena Negreiros a nível do anterior governo do estado; tal maracutaia em beneficio do projeto Nova Luz e dos especuladores imobiliários foi publicada no Diário Oficial do Legislativo do estado de 28/05/2009: "Santa Ifigênia: finalização do estudo de tombamento e discussão com o DPH e a Emurb sobre o Projeto Nova Luz". Solicitei apuração e reversão desta maracutaia ao estado a qual está na consultoria jurídica do Condephaat para apreciação.

A notificação do destombamento foi publicada em 2009 e em 2010, mas ela não é válida por pelo menos duas razões: não foi homologada e não há qualquer justificativa técnica para este irregular e imoral destombamento do traçado urbano e de inúmeros imóveis; de fato, propiciar o Projeto Nova Luz (e a especulação imobiliária) não é justificativa técnica; portanto, há necessidade de retomar o estudo e incluir a estrutura fundiária no tombamento do bairro Santa Ifigênia.

Tal proposta é apoiada, dentre inúmeros urbanistas, pela eminente urbanista Raquel Rolnik, que é relatora da ONU para moradia - a nível mundial. Está nas mãos de Fernanda Bandeira de Mello, atual Presidente do Condephaat, e nas do mesmo Secretário da Cultura, a correção de tal maracutaia ou de equívocos de supervisão do governo anterior. Se isto não acontecer, significará que temos infiltrados no Governo do Estado tanto especuladores imobiliários quanto aliados de Kassab apoiando sua candidatura para 2014?

Dá votos colaborar com a prefeitura na destruição do tradicional bairro Santa Ifigênia para os especuladores imobiliários lucrar? O estado quer perder o 2º ICMS do Brasil gerado nesta região em proveito de empresas de serviços e de ISS gerado para a prefeitura? Estão nas mãos de Geraldo Alckmin as respostas para a cidade a essas importantes questões.

Suely Mandelbaum suely.m@terra.com.br
São Paulo

sexta-feira, agosto 26, 2011


Festa contra remoção

Pela lei de concessão urbanística nº 14.917/09, a Prefeitura de São Paulo transfere para a iniciativa privada o poder de desapropriar imóveis em pleno uso, sejam lojas, indústrias ou moradias.

Associação dos Comerciantes do Bairro da Santa Ifigênia
www.acsisanta.com.br
acsi@acsisanta.com.br
(11)3486-4378

quarta-feira, agosto 24, 2011

Olá,

Convoquei duas audiências públicas que acontecerão na 4ª feira, dia 24/8.

A primeira será às 10h30, no Salão Nobre. Tratará da proibição total de parada e estacionamento em ruas de Moema, das 7h às 21h, com rigorosa fiscalização. Além dos transtornos aos moradores, as atividades comerciais registram queda de até 80%. Sem saída, os imóveis estão sendo vendidos para grandes construtoras.

A outra será às 13h30, no 1º subsolo. Dará seqüência a demanda de entidade representativa dos funcionários da Prefeitura que questiona o fato de apenas uma instituição financeira estar autorizada a conceder empréstimo consignado.

Um abraço,
Vereador Eliseu Gabriel – PSB
E-mail: vereador@eliseugabriel.com.br


segunda-feira, agosto 15, 2011

Nova Luz

Quando escreveu de forma brilhante o livro "Raízes do Brasil", sobre nossa incapacidade em distinguir o público do privado, Sérgio Buarque de Holanda não poderia imaginar que, passados 75 anos, São Paulo continuaria reafirmando sua tese, como vemos no projeto de concessão urbanística da Nova Luz, região transformada em cracolândia pela inação da prefeitura.

Além de ganharem do nosso prefeito o direito de empunhar a espada da desapropriação como arma de negociação sobre a cabeça dos legítimos proprietários, os empreendedores ainda vão levar R$ 355 milhões de dinheiro público para livrá-los do que deveria ser seu risco natural.

Por traz desses cálculos está a FGV, entidade cujo vice presidente é Marcos Cintra, que também ocupa um cargo público e deseja trocar com o setor privado bens públicos como o "quarteirão do Itaim". Se ainda estivesse vivo, certamente haveria material para "Raízes do Brasil 2".
SÉRGIO REZE, integrante do Movimento Defenda São Paulo (São Paulo, SP)
Leia mais cartas na Folha Online
www.folha.com.br/paineldoleitor

sábado, agosto 13, 2011

A FILOSOFIA DA FLORESTA

Kaká Werá é escritor, ambientalista e conferencista de origem tapuia. É fundador do Instituto Arapoty, empreendedor social.

quarta-feira, agosto 10, 2011

terça-feira, julho 26, 2011

Caro e contra a população

A Operação Urbana Água Espraiada previa túnel de 400 metros em 2001. Em 2007 Kassab apresentou projeto de túnel de 4,5 km e custo de R$ 2 bilhões, o qual preenche a mesma função de ligação que o túnel inicialmente aprovado, da Roberto Marinho até a Imigrantes.

Nessa proposta as desapropriações aumentaram exponencialmente e já se percebia que o foco era a liberação de terrenos faltantes aos agentes imobiliários. Em 2008 o traçado foi reduzido para 3,7 km e o custo aumentou para R$ 2,7 bilhões.

Agora, em 2011, o projeto final prevê redução de traçado para 2,7 km e aumento de custo para R$ 3,7 bilhões. Em cinco anos da perversa administração Kassab, apoiada por vereadores que traem seus eleitores, temos aumento de custo linear do túnel de 208%.

E a Câmara Municipal, ainda assim, o aprova! Já há superfaturamento? Temos aqui mais uma manifestação do urbanismo kassabista de extrema-direita, sempre em benefício dos agentes imobiliários - custe o que custar em valores monetários e em direitos dos paulistanos. Isso tem de acabar já!

SUELY MANDELBAUM, arquiteta urbanista

São Paulo

segunda-feira, julho 25, 2011

No dia 27 de julho próximo, quarta-feira, será o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI contra a lei da Concessão Urbanística (L.13.917/2009) que permite ao particular fazer desapropriações com o pretexto de implantação de um plano urbanístico para depois fazer empreendimentos imobiliários nos imóveis desapropriados e lucrar muito com isto.


Os proprietários dos imóveis ficariam fora deste processo. Seria um precedente terrível e colocaria por terra o direito de propriedade, uma vez que a desapropriação é prerrogativa exclusiva do Poder Público, com exceções muito delimitadas.

Esta Concessão Urbanística está em vias de ser aplicada no Projeto Nova Luz de interesse da Prefeitura e do mercado imobiliário.

O julgamento é público e será no prédio do Tribunal de Justiça que fica na Pça Clovis Beviláqua, ao lado da Catedral e da Praça da Sé.

Iremos vestidos de preto para marcar nossa presença.

Quem ajuizou esta ADI:

Autor: Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos No Estado de São Paulo - Sincoeletrico
Advogado: MARCELO KIYOSHI HARADA
Réu: Prefeito do Município de São Paulo
Advogado: Celso Augusto Coccaro Filho

Haverá manifestação na rua a partir das 10h.

domingo, julho 24, 2011

São Paulo na UTI

JOSÉ RENATO NALINI


Não é só o poder público o responsável: a cidade é de todos, e nenhum cidadão está liberado de se empenhar no processo de sua recuperação


A cada manhã, o paulistano acorda com notícias terríveis.
Mortes no trânsito, explosões de caixas eletrônicos, tão fácil obter material explosivo! Arrastões em restaurantes, sequestros, furtos e roubos de carro. Chacinas de jovens recrutados pelo tráfico, homicídios a esclarecer e vinculados a "queimas de arquivo".

Vive-se um clima de insegurança, a gerar difusa sensação de desamparo. Adicione-se a deturpação do esforço da Justiça Criminal com os "mutirões carcerários".
Explora-se a desconfiança no retorno do egresso ao convívio social e reforça-se a convicção de que aumenta a impunidade.

Não são os únicos dados em desfavor da vida paulistana. Há também o exagerado aumento dos moradores de rua. São milhares, a ocupar todas as regiões da cidade. Acena-se com o seu cadastramento, paliativo insuficiente. A legião é heterogênea: há os desempregados, os portadores de anomalia mental, os drogados. Não há como sustentar o direito a "morar na rua". Via pública se destina à circulação.

Outro indício de cidade enferma é a sujeira. Se a produção de lixo é maior do que a de outras urbes de análoga dimensão mórbida, como deixar de concluir que o paulistano está em deficit de consciência ambiental? Fealdade transparece ainda na pichação, sintoma de metrópole mal amada. Não é reconhecida qual instância de acolhimento.
O vilipêndio com agressões estéticas é próprio a quem não nutre o sentimento de pertença.
Esgarçados os laços de solidariedade, prolifera a violência. O trânsito é o fenômeno mais típico. Além dos acidentes, o estresse de caótica paralisação e congestionamento, algo provável a qualquer hora.

Tudo sinaliza a situação agônica do convívio na megacidade. O otimista dirá não ser assim. Muita coisa ainda funciona, a despeito das disfunções. Todos os dias, milhões acordam longe do trabalho, servem-se de péssimo transporte público, perdem horas no trânsito, ganham mal e, a despeito disso, se comportam com civilidade.
A capital bandeirante paga por seus erros. Fez escolha equivocada ao mutilar sua paisagem, ao sepultar seus rios, canalizar seus córregos, impermeabilizar seu solo, arrancar suas árvores, secar suas várzeas. Nada poderia resultar de bom dessa política de arrasa-terra.

Persiste na vocação ecocida e dendroclasta, desrespeita sua história. Elimina marcos arquitetônicos. Desestimula a preservação, demole parâmetros e torna a população carente de referenciais.
A opção preferencial pelo automóvel desprezou o pedestre, ser miserável, posto a respirar gás carbônico e partículas cancerígenas. O ciclista é também insultado, ameaçado, atropelado e morto.
Tudo vai desaguar em apatia e resignação. Fraturados os laços simbólicos, descrê-se da política e das instituições. Presságio de uma sociedade enferma. Tribos distintas disputam o exotismo do insólito.
Algumas perseguem e espancam minorias. E pensar que São Paulo já foi uma cidade civilizada.

Quem a conheceu há poucas décadas o testemunha.
Hoje está na UTI e precisa de cuidados urgentes. Não é só o poder público o responsável. A cidade é de todos, e ninguém está liberado de se empenhar no processo urgente de sua recuperação.

JOSÉ RENATO NALINI, mestre e doutor em direito constitucional pela USP, é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de "A Rebelião da Toga", 2ª ed., editora Millennium
MENSAGENS DE CONTEÚDO EXCLUSIVO RELATIVO AO PLANO DIRETOR ESTRATÉGICO E SEU PROCESSO DE REVISÃO. GRUPO DE DISCUSSÃO E ARTICULAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL.