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quinta-feira, outubro 22, 2009

1 000 000 000


Preto turbinado: o carro

O astro australiano da semana

Ouro na noite

A semiótica a robótica a logológica

Pesado medido tese de doutorado

Explode a favela


Teu rosto machucado

Velho, pedindo comida

Teu cheiro repulsivo

- tua roupa imunda

Bêbado!

por tua sorte te culpam:

Chegaste tarde no albergue?

Não querias tomar banho?

Por que essa cara de espanto e de dor?

De onde vem esse roxo e esse sangue?

Tanto dinheiro e nenhum para ti

Tuas chagas são nada

Ouro e negro, a noite

A cidade se apaga


São Paulo UK:

viver

ou não

herança antiga

– abandonados

entregues

o frio

solidão

e a esperança?


fechado

o albergue

um fio de

projeto social

0 . 1 . 1 . 0

número

sem barriga

o mal no mundo racional


10 bilhões 100 bilhões

de euros de ações de bites

a fotinha a motinha celebridades

a Bolsa caiu, a Bolsa subiu

num instante

comentário na tela, economista

cabeça americana, transplante

formada, transformada, elite pensante

São Paulo mil favelas

1 bilhão de famintos


a tela, a visão

palavra feitiço

morreram nas chuvas

ficaram sem leite

perderam a mãe

sem casa: enchente


senhor cidadão

corre entra pula

dorme dorme dorme

- no domingo

somos os primeiros

prata corre: crescemos

tetra luxo meta super

bocas

insanos urbanos


- chamem

as deusas da floresta

para trazer o que interessa

um canto do lago, uma reza –


que tudo é isso?


- me chama de índio raiz e cobra

fala da Terra Sem Males

quero um sono de dormir e ser o mundo


Quero ir ao outro da lua

pelas pedras e estar com meu povo -


A arte a língua a vaga angústia

Bresson pop um som

internacional: eletro DJ o novo

gringo de 80 reais

a cidade a balada

a guerra, terror

O Chamado: bonde

entre empurre grite

usuário aguarde: gado


o eleitorado

metropoferrado


praça anti-mendigo

o velho bicho

o Isso

animal mestiço

- Não!

criança baleada na rua!

chegamos a um bilhão


socorro

de onde veio este homem

conhece Madonna? já viu Overdrive?

um novo CD de Amy Winehouse?


fome velho perdido sujo

na avenida na porta

mão gorda vermelha pedindo

de onde essa barba branca

sem nome, pele, ossos, sem cor

entrego comida. Jesus te: corro


São Paulo UK: a ciência

viver

ou não

mundo racional

uma pergunta

– é preciso

vidro aço aço metal

robô.dernidade

vencedora

a cidade

hoje ainda não

homem hematoma velho fome

paciência: ?


Afonso Jr. Ferreira de Lima

segunda-feira, setembro 28, 2009

"Você mente!"

Recentemente a CNN criticou a FOX por, elevando o tom, como sempre, ter mentido sobre uma suposta falta de cobertura de sua parte a um protesto contra Obama. Ou seja, você planta uma bomba, mesmo que totalmente descabida, e a verdade demora tanto a aparecer que cria um efeito confusão na opinião pública.


O âncora da CNN disse: "A verdade é que nós, sim, cobrimos as notícias e nós cobrimos extensivamente esse evento nós não promovemos o evento. É isso o que as verdadeiras organizações de notícias deveriam fazer" "Você mente!" - ele completou, usando o slogam republicano.

Confesso que sempre acho contrangedor esses slogans como PIG (Partido da Imprensa Golpista), porque penso que, se chamamos de golpista um pensamento conservador, subimos o tom e ficamos sem referência no caso de algo mais grave.
Bem, mudei de opinião.Agora, é grave!
A capa da Veja me deixou boquiaberto. Por que fiquei com a impressão de que, se houvesse um golpe de Estado no Brasil...

Vamos retomar os acontecimentos: um presidente eleito foi deposto, com a justificativa de que iria fazer uma consulta não autorizada pelo Congresso.
A OEA, imediatamente, condenou o ocorrido.

"O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu a Honduras que 'respeite as normas democráticas e o Estado de direito'. A prisão de Zelaya também foi condenada pela União Européia".
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/06/090628_honduras_atualiza_rw.shtml

"Certamente nós achamos que Zelaya é o líder constitucional e
democrático de Honduras'- reiterou Ian Kelly,
porta-voz do departamento de Estado dos EUA".
http://www.camera2.com.br/noticia_ler.php?id=185576

Ou seja, o fato é totalmente anacrônico e violento. Neste contexto, a comunidade internacional deveria tomar medidas enérgicas, porque, afinal (mesmo depois de Bush), existe o direito internacional. Os países da América deveriam tomar medidas imediatas, ou parecerá que os órgãos internacionais estão falidos, só servem a usos instrumentalizados, para aprovar um projeto nacional, como a ALCA.

Depois disso, ladeira abaixo: a embaixada ficou sem luz, foi invadida por gases tóxicos, as pessoas sangraram...
Não é nada disso que se vê na imprensa.

A Veja puxou o cordão com "Imperialismo megalomaníaco". É uma pérola da criatividade!

Acabo de ouvir o Boris Casoy dando a chamada: "Representante americano na OEA diz que a volta de Zelaya foi irresponsável!" Continua afirmando que a volta do presidente "não ajuda a democracia."

Uma série de entrevistados do programa Canal Livre aparecem dizendo que "não houve golpe, apenas aplicação da regra constitucional que veda a reeleição", "Zelaya estava caindo no esquecimento e decidiu usar a Embaixada como escritório", etc.

Até Sarney (agora é autoridade?) surge para denunciar o "abuso", ainda que diga que "dar asilo era fundamental."
O jornalista ainda conclui com seu famoso comentário: "Nem o presidente deposto pediu nem o Brasil deu asilo, um instrumento sério". Teríamos de "condenar a irresponsabilidade da volta", que tranforma a embaixada no "QG" de Zelaya. A operação é uma "aventura picaresca."
No SBT, o comentário é: "O presidente Lula deveria demitir o ministro das relações exteriores." O fato é chamado de "lambança".

Bem, isso é, no mínimo, não comentar, não contextualizar, por exemplo, o AI5 Hondurenho, a gravidade da recusa à mediação, impedindo a entrada de membros da OEA.

Esquecer que "a OEA (havia dado) ao governo interino do país prazo até sábado (4) para que Zelaya voltasse ao cargo" e que, por exemplo, "os manifestantes, entre oito e dez mil, ocuparam uma faixa de cerca de 100 metros em frente ao aeroporto (...)"
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Isto soa como um tácito apoio ao golpe!

Como diz Luiz Carlos Azenha:

"O governo golpista só tem apoio na mídia brasileira, na Fox News e no Washington Times, ambos a serviço da extrema-direita dos Estados Unidos."
http://www.viomundo.com.br/opiniao/governo-golpista-de-honduras-tem-apoio-na-midia-brasileira/

Até a CNN afirma:

"Roberto Micheletti is in effect running the country, but he wasn’t elected. He assumed power by force!"
http://ricksanchez.blogs.cnn.com/

Lembro de ter lido:

"Há vários quadros da Fundação Victor Civita,
que é uma susidiária da Editora Abril, que
trabalharam na administração estadual e vice-versa.
Várias estatais estaduais de São Paulo tem investido
bastante em publicidade nas revistas da Editora Abril (...)

O problema é que a Veja, a revista 'informativa' da Abril
tem feito várias reportagens sobre Serra.
Não uma defesa ideológica do sujeito, mas basicamente
uma série de artigos defendendo a viabilidade
da candidatura do sujeito".
http://www.andrekenji.com.br/weblog/?cat=18

Engraçado, não ouvi, na TV, essa notícia:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve o prêmio Chatham House 2009,
concedido pelo Instituto de Assuntos Internacionais de Londres,
por sua contribuição à melhora das relações exteriores. (...)
Na esfera subcontinental, Lula foi reconhecido por ser uma "figura-chave na estabilidade e integração na América Latina e por desempenhar um papel destacado na resolução de crises regionais", e no âmbito local por "sua contribuição para a redução da pobreza no Brasil".
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u630353.shtml


É uma pena que nossa imprensa tenha tão pouco amor à democracia de fato. Depois dessa, eu só espero que o Brasil não tenha um golpe!


sexta-feira, setembro 18, 2009


BRUNO: dois coelhos com um consolo só

Vou contar uma história: depois de um ano de amizade, descobrimos que tudo sobre nosso amigo era mentira. Ele mentia o lugar que nasceu, a casa, o emprego. Tinha vergonha de ser "out".
Isso mostra que nossa sociedade adoeceu as pessoas, com seus padrões de "certo" e "errado". Todos nós estamos condenados a ser não-celebridades.

Sacha Cohen retorna com seu misto de documentário, roteiro e tentativa de suicídio.


Por um lado, ataca o padrão global "be a celebrity", e por outro, mostra a verdade que o politicamente correto encobre: o que pensam um político conservador e o povo do Alabama sobre os gays. (Esse é o povo americano real? A instrução pública não existe? Será que a "onda gay" é apenas um slogan "comprem, gozem, vivam sem limite como eles!?")

Sim, existem caras que se divertem dando tiros em lebres e que acham veados porcos, com o perdão da piada.

Bruno é um pensar, o que já é muito. Não é o clássico que é Borat, mas é uma comédia reflexiva genial.Não apenas pela tão falada cena em que traz um bebê africano, trocado por um iPod, em uma caixa (que idéia de solução da pobreza, essa de Hollywood!)

Mas também por aquelas menos comentadas, como a cena em que desfila na passarela De La Prada com roupas presas no seu modelito de velcro, sem sentirmos muita diferença entre seus pinduricalhos e as modelos, cheias de panos estufados...

As mães tantando vender (para uma sessão de fotos) seus filhos por qualquer coisa (animais mortos, pseudo-crucificação, roupa de nazista, etc.) Ser famoso é mais importante que estar à salvo.

Cantando uma canção de paz entre palestinos e judeus... (será que alguém vê essa situação de modo simplista?)

Paula Abdul falando sobre sua filantropia sonhadora sentada sobre um mexicano é um clássico! (Dizem que a equipe não esperava que alguém de fato aceitasse isso!) Sentar sobre latinos é constrangedor (Elton John, parece à vontade), mas, e vê-los como cidadãos de segunda classe?

Sem falar da cena em que ele, com um vidente, faz sexo oral com um espírito do rock, quando o cinema vem abaixo!

Pois é, ser gay é super "in", não? O mundo aceitou a divertidade? Não, somente os marketeiros das corporações. Vide os soldados da Guarda Nacional dos EUA na frente de um D&G.

Além disso, os recrutas estão proibidos de falar com seus oficiais. "Quando finalmente foram questionados se 'sabiam quem era aquele recruta', cadetes responderam com segurança: “Sim, senhor! Sacha Baron Cohen, senhor!” http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2939.

O filme mostra a rebeldia programada do mundo MTV/Fashion Week... Lembra quando Björk apareceu de Cisne no Oscar? Todas as revistas disseram que ela era doida... Mas a arte não era ousadia?

(Spoiler:
"O Conselho Italiano de Moda emitiu um comunicado aos estilistas,
alertando-os para a possibilidade de Baron Cohen tentar penetrar
em seus eventos; a instituição recomendava ainda a proibição
ao acesso da produção de “Brüno”.
(...) E a polícia de Milão declarou que ele seria detido no ato. (...)
O ator foi algemado pela polícia e levado preso,
enquanto os integrantes da sua equipe seguiam no encalço deles.
Embora ele tenha alegado que simplesmente cometeu um terrível engano
— ele simplesmente usou um macacão de velcro e saiu andando
— Baron Cohen foi revistado e interrogado por sete agentes da polícia."
http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2903

Viva a criatividade!)

Bruno tira o maior sarro também daquelas "músicas que salvam o mundo", o que eu já havia comentado sobre MJ. Parece vago e soa como anestésico para os conflitos reais.

Lembrei-me de Thom Yorque (vocalista do Radiohead, que falou sobre Bono:

"a diferença entre eu e Bono Vox é que ele fica
completamente feliz em elogiar pessoas para conseguir
o que ele quer, e ele é muito bom nisso,
mas eu simplesmente não posso fazer isso.
Eu provavelmente acabaria dando um murro na cara deles
em vez de apertar as suas mãos,
mas isso é melhor do que ficar fora do caminho deles.
Eu não posso simpatizar com esse nível de besteira.
É uma vergonha, verdade, e isso pode ajudar
se eu quiser, mas eu não posso.
Eu admiro o fato de Bono poder,
e poder caminhar através disso cheirando a rosas."


Walter Benjamim falava da embriaguez, da telepatia e da teologia contra a ideologia da técnica que se tornara desumana: hoje, a embriaguez é a técnica, mas é possível usar-se desse "limiar", o bizarro, para mostrar seu absurdo. Diversão é a alma do negócio, mas é uma pena que seja apenas uma nuvem de fumaça de alegria para o medo do mundo em pedaços.

Ou, seja, que fazer se todas as pessoas se tornaram tão banais quanto Bruno, o mundo é fútil, e o entretenimento o produto mais importante? "Se eu abrisse meu guarda roupa e só visse capas pretas, eu também me explodiria", diz ele sobre os homens-bomba.

Mas isso é homofóbico? Infelizmente, os gays se tornaram o símbolo de tudo que o prazer sem limites tem para oferecer.
-
Boa reportagem: http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=2892

***

Susan Boyle está aí de volta, com seu single de estréia!



Ela comoveu o mundo por seu talento, força emocional (de todas as versões de Cry me a river que ouvi, nenhuma chega à sua paixão) e, principalmente, por ser uma cidadã "out-fashion".
O seu caso fala muito do nosso mundo, onde uma senhora tipicamente "inglesa" (da Escócia), com seu vestidinho poá está definitivamente fora de questão.

O jurado faz a cara mais feia do mundo quando ela diz sua idade; e, quando ela dança sua dancinha, dizendo "Mas esse é só parte de mim", o outro faz cara de "Ai, que nojo!". Claro que eles enfrentam muita gente doida e sem esforço que pretende ser um grande talento, mas a seleção do show provavelmente selecionou algo...

Enfim, fica a pergunta: quantas Susan Boyle estão perdidas no mundo onde o Estado desapareceu e as pessoas estão entregues a sua sorte, onde o homem é o lobo do homem? Que riqueza está perdida na favela? Em Dublin?

terça-feira, setembro 01, 2009

Heliópolis quer falar

É realmente revoltante como o Jornal da Globo pode dar uma notícia como a queima de carros e ônibus em Heliópolis, devio a morte de uma inocente pela polícia: "Imagens sobre o vandalismo numa favela de São Paulo".
A jornalista Michelle Barros junta palavras como "selvageria", "confusão", "ônibus atacados", "vândalos" (mil vezes) e também conta o caso de uma mulher com deficiência visual em pânico (!) e dos católicos presos na Igreja por uma hora. "Entre atos de vandalismo uma palavra no chão: Justiça".
Depois fala-se longamente do pescado, de como o pré-sal será ma para quem usou FGTS para comprar ações da Petrobrás e da comovente despedida a um juíz, com "tristeza", "brilhantismo" e perda irreparável".

Lembro da manchete da Veja ironizando a responsabilidade social das Casas Bahia ao abrir uma loja:
"Pedágio para vender em Paraisópolis." No mínimo estranho considerando-se que a própria reportagem mostra famílias que perderam tudo e que receberam as doações através da associação de moradores. E também como foi preciso uma ligação da loja para iniciar os "planos" de saneamento...

A Folha anunciava, em fevereiro que "moradores faziam protesto em Paraisópolis" contra a morte de um morador e teve manchetes razoáveis como: "Favela está em zona campeã de desemprego." Já a Época falava em "baderna" etc. Muito da violência vem do não reconhecimento.
Um homem bem pobre e sujo, sem dentes, fedendo, falando alto, entrou no ônibus onde eu estava na região do centro. As pessoas ficaram ansiosas, ele dirigia-se a um e a outro. Perguntou sobre um ônibus. O rapaz oerto de mim respondeu, com a maior calma, que ele devia pegar outro etc. "Tá limpo. O que vale é o respeito. respeitou, tá limpo", ele disse, e desceu do ônibus.

Quem sabe algum dia nossos jornalistas e políticos persebam que somente o reconhecimento pode trazer a verdadeira riqueza, a criatividade humana. O resto, é apenas preconceito.

Vale a pena ver P.H.A

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=17352

PS: O Secretário da insegurança de São Caetano já tinha dito que "não se tinha certeza se a bala veio do policial ou do bandido", mesmo tendo uma testemunha dizendo que não havia troca de tiros. O Jornal Nacional entrou ontem falando "Ainda de não se sabe de onde partiu a bala que matou a jovem."

Serra fez gracinha: chamou-se de "amigo dos pobres" e, em outra ocasião, mesmo afirmando que a polícia "entrou atirando dentro de uma favela", arrematou que "direito de protesto é algo que nós defendemos"... mas "vandalismo é outra coisa." Pois é, é que as pessoas estão cansadas de ir na Roda de Debate entre Polícia e Cidade, nos Fóruns da Prefeitura no Seu Bairro e no Orçamento Participativo. Povinho estressado.
Em Belém, mais um protesto: "cenas de vandalismo." Por que o povo dinamarquês gosta tanto de briga?
Vale a pena a cronicazinha humorada do Blog com Fel e Limão sobre a notícia "atingida por um 'suposto' objeto. "

http://comfelelimao.wordpress.com/2009/09/01/suposta-news-o-maior-jornal-do-mundo/

domingo, agosto 30, 2009

MJ: 1958- 1993

Eu era pequeno demais em 82, quando ele tornou-se o primeiro e último unânime do globo. Mas lembro do impacto de sua performance. Um caldo de tradições, black músic e disco, a síntese de uma história que começa com o jazz. Os descendentes tinham sua própria herança (soul, funk) e Elvis, filho bastardo.



Eu ainda penso se poderia haver algo mais grotesco do que o "tributo" a MJ ,17.500 pessoas, de corpo presente. Liz Taylor chamou de "um grande circo"... (Por piedade, enterrem logo esse corpo!)
O psicanalista Jorge Forbes afirmou na Globo News que cada um de nós tem um MJ. Lacan via, parece, a arte como aquela pintura de uma fruta coberta por um pano: uma tela branca para nós nos jogarmos.



Não podemos encarcerá-lo em uma personalidade patológica: ele dizer que sofreu é apenas uma opinião a mais... Talvez.

O tema é infinito. Por exemplo: Madonna conseguiu impor uma imagem oferecendo um "pacote" (vários) para a indústrial mundial do entretenimento que explodia nos 80.
MJ nunca conseguiu criar uma imagem única, nunca foi um bom narrador de si mesmo, ou nunca conseguiu uma personagem pública que fosse algo de si a ponto de mudar sem morrer, portanto é péssimo num mundo que precisa vender rápido para a massa. Nos anos 80 ele ainda conseguiu um estilo impressionante ("eu sou o homem impenetrável, que domino o mundo com minha dança"), que ecoou em milhões de Maycons e Maicous pelo Brasil afora.

Depois vai de um lado para outro, com o rosto em mutação, estranho, dançando com o Olodum e fazendo o egípcio. A pergunta surgiu: mas quem é MJ? Não aguentamos uma arte que não propõe um julgamento do mundo, nem que seja "seja ativa como eu", o que Madonna fez. A década de 90, com seu branco panos-quentes "politicamente correto" não ajudou alguém cada vez mais distante da comunidade (aliás, ela mesma, marcada pela desindustrialização, consumismo tele-produzido e violência das novas máfias, jogando tudo pra fora no hip-hop) a refazer o pop, que tornara-se replicagem.

Como o disco mais vendido do mundo, o mais caro contrato de propaganda, o Super Bowl e programa de entrevista mais assistidos da América (100 milhões) e o videoclip mais caro da história não tem identidade? "Thriller" foi o ápice e o último passo da revolução? Se você não criar um personagem, eles criarão, nem que seja o demônio.

(É notório como as tragédias, no mundo contemporâneo, são banais, pois fazem parte da vida dentro de um sistema organizadíssimo de economia, transporte, venda e produção de valores e desejos onde tudo é planejado e não há chão para pensar uma resposta: a alma de tantos artistas morre de falta de realidade).

Infelizmente, ao morrer, conseguiu ser sintetizado, como rei do pop. Mas mesmo assim:
cada um disse sobre ele algo e é notório que a MTV apenas conseguisse falar em uma sucessão de clips e a Época ficasse no blá-blá-blá nada convincente, a posteriori, que não consegue senão algo como "pobre criança rica". Pobre.

As imagens acabavam antes dos anos 2000. Tudo que o definia era Jackson Five, "Billie Jean" (1500), "Thriller" (1982), a Pepsi (1984). Ninguém conseguiu achar uma linha de explicação que fosse ao menos um cliché razoável. Sim, ele foi o "rei do pop", pelo menos isso se tinha certeza. Quem afirmava eram produtores, especialistas, músicos, sabiam de algo que ninguém sabia. Uma energia incrível, criação pura, e, ao mesmo tempo, uma pessoa desconexa, com frases inexplicáveis...

Outro ponto: quem quer que tenha ouvido o documentário de alguns anos atrás deve ter ficado impressionado com um homem carismático, dizendo coisas corretas e vivendo no mundo da lua, que fala com toda a sinceridade que não entende por que não pode dormir com uma criança. Ele tem toda a razão do mundo: a sociedade está doida de recalcar tanto o amor dos pais, etc. É bem claro que o mundo é que talvez seja doente, com todo seu ódio pelo contato... Mas custava um pouco de precaução? Você entende que o objetivo da "notícia" é criar uma pauta macabra ("tudo que você disser..."), não entende a inocência. (O Dr. Stan Katz, que o examinou em 2003 disse que teria a idade mental de 10 anos).

Ele falava como alguém que viveu dentro de um mundo de "sonho", que a indústria precisa. Aprendeu a vender o sonho e se tornou ele próprio uma fantasia. Diz no documentário que recebeu um cheque de 200 mil dólares do pai quando tinha algo como 15 anos... (que o jornalista é um babaca aproveitador, não há dúvida)

Além disso, sempre achei incrível que a mídia tenha ficado tanto tempo sem falar na sua aparência. O que eu via era chocante, mas a imagem de "rei" ainda era muito forte. Pareceu sim que há coisas das quais não se fala de um grande vendedor.

Mostra o quanto foi difícil mudar de canal para o próximo show e o quanto ele vacilou (por brigas com a Sony, por estresse dos processos, etc...) em oferecer uma substituição. Já "Black or White" soava para mim como enlatado (o que era aquele final: sempre penso que violência-tube é uma volta desesperada à realidade, assim como pegar no pinto fica estranho para alguém dessexualizado) e depois foi apenas mais do mesmo, baladas e clipes eróticos gelados (que idéia foi essa de chamar essa camuflagem de "In the Closed"?). Madonna também passou por um período indefinido entre o pop descarado até 90 e o novo dance-tecno dos 2000, (eu chamo, o fim lento da era disco, era Clinton, chove não molha, nem imperialismo de Bush, nem democracia de Jimmy Carter), mas MJ nunca pareceu ligado (a não ser ontem, com o Will. i.am)

Sabe, apesar da poesia impresssionante, e de não ser objetivo da música defender causas como um jornal, "Heal the World" sempre me causou algum mal estar. Parecia tão vinda em papel de indústria internacional, tão como um produto. Quem está falando do que e para quem? Precisamos de alguém que mantenha o sonho vivo, mas eu temo quando alguém fala "ame o mundo." É um passo para esquecermos que no outro lado da rua há algo concreto, um problema bem definido. (Bem, foi concreto "We are the World". Mas prefiro o ativismo realista de um Thom Yorque, que sabe quem são seus inimigos... ok, Thom não vive no país-entretenimento. MJ ficou, afinal, do lado de Reagan contra as drogas. Medo)

Forbes nos perdoe, mas, nós, pobres humanos que ainda precisamos de uma história pra nos contar, uma biografia mínima, mesmo que contraditória e aberta, queremos saber: foi o peso dos conflios internos, isolamento extremo, por exemplo, ser negro e talvez gay numa sociedade e época em grande parte racista e homofóbica? Freud disse certa vez, em entrevista, que as pessoas morrem quando querem morrer...

Enfim, chegamos ao funeral bizarro de um ícone que, só Deus sabe porque, acabou de mandar sua mensagem em 1993 (se fez algo notório, não chegou até mim) e passou a ser um "perseguido", caça-de-paparazzi.

Um homem com um sonho, mas nascido e criado dentro de uma indústria que não lhe permitiu ver (muito) que existe mundo lá fora. O fato de ganhar milhões de dólares por ano e morrer endividado é exemplo disso. (A cena em que compra a loja toda sem perguntar o preço é doida...)

Alguém que, em um momento, parece consciente de tudo que querem impor a ele e, no outro, afirma categoricamente que nunca fez mais que duas cirurgias no nariz.
Alguém que não é gay nem hétero, nem branco, nem negro. Alguém que casa para não deixar vir a tona boatos sobre sua sexualidade (quem foi o RP maluco que bolou isso?) e muda de aparência sem convencer jamais que isso não tem a ver com um sentimento de inferioridade monstruoso.
Alguém criado à porrada para ser "um show" e que, mesmo genial, mesmo criando um estilo, parece nunca ter encontrado um motor interno
para digerir o sucesso, recriar-se e resumir-se, impondo-se até o fim. E, ainda assim, uma lenda. Dito isso, ainda há a maravilha de "We are the World". Deus abençoe MJ.

Dicionário das Globalizações e An Altro Monde ist Possível, Fórum Social Mundial.



sábado, agosto 29, 2009

"O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) encaminhou ofício (nº 01244/2009) no dia 20 de julho ao prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Na carta, após receber um e-mail com argumentos homofóbicos, o parlamentar pede ao gestor da capital paulista que faça um plebiscito para que os cidadãos paulistanos decidam se a Parada do Orgulho LGBT deve, ou não, continuar na avenida Paulista."

http://www.acapa.com.br/site/

Carta ao Senador:

"Caro Eduardo:

Recentemente o senhor defendeu todo o povo brasileiro no Senado, pela verdade inconveniente, mas necessária. Pela ética.

Mas lembremos que já foi "ético" aos imperialistas colonizarem a África em nome da raça superior. Já foi "ético" matar milhões de judeus em nome da melhoria racial da humanidade. Foi "ético", salvou as aparências, mas não foi correto, custou sofrimento, silêncio, vergonha, exclusão. Não foi moral. Nem sempre o que nos trouxe a tradição, a religião e até a ciência é a verdade completa. E somente uma verdade completa, que inclua gays, mulheres, negros, ricos, pobres, pode ser verdadeira. Odiamos o que desconhecemos, e o mal é fruto do desconhecimento.

Por que motivo os gays mostram-se tanto, beijam em público, por exemplo? (Os heterossexuais beijam muito mais, creia).

É como se dissessem: você me aceita como sou? Minha mãe preferia que eu não fosse assim, a polícia bate em gays e travestis, a religião fanática pede nossa cabeça, acusam-nos de não ter moral e de acabar com a família, culpam-nos pelo que nunca escolhemos, recebo piadas imorais e até agressões físicas de machões inseguros por aí, e eu até fiz com tudo isso uma vida feliz, mas hoje, hoje, você vai ter de me engolir. Me ver como um igual, alguém que quer amor, que sente o mesmo desejo e a mesma necessidade de toque e carinho que você. Hoje, eu sou o que sou.

Há um abismo entre a aceitação das camadas cultas, internaciolizadas (mas nem todos, como prova esse senhor dos Jardins), e as camadas populares, muitas vezes com uma visão restrita de família, religião e papéis sexuais. Restrita porque justifica censura e domínio, nega a realidade e o direito de fala, com argumentos como "Deus, pátria, família", nossos antigos conhecidos. Este caso mostra quanto é instável nosso país de direito: um belo dia decidem que você é imoral, depois criminoso, quem sabe doente.
Aí, pronto, a lei está ao lado do "ético" e do nazismo.

Se as pessoas ricas e com boa formação em geral vivem livremente (ninguém teme mais dizer que os maiores filósofos do século XX, Foucault e Wittgenstein, ou o criador do computador, Turing, eram gays, por exemplo) os menos favorecidos têm de esconder-se e temem a repressão policial.

A polícia negou-se a fazer um B.O., por exemplo, para jovens que estavam em frente ao shopping do ABC e que apanharam feio de um grupo homofóbico, o qual chegou batendo, pois disse que eles haviam "provocado". A simples presença do diferente é tida como ameaça, agressão. Medieval. Ainda tem gente querendo curar o desejo: o senhor quer ser curado de sua sexualidade?

O senhor, sempre ao lado das boas causas, não pode imaginar o sofrimento que representa o silêncio, pois é uma condenação velada, que leva ao ato criminoso, como uma bomba sobre uma passeata. Um povo assim, precisa ser educado, não apoiado com repressão simplista. Um e-mail fala muito de um povo que ainda pensa que pode colocar os que não são como ele de fora, mulheres, negros, pobres, gays, nordestinos; só faltou chamar de "vagabundo".

Se houvesse mais debates públicos sobre o tema, se as escolas aceitassem educação para o respeito sexual, se os jovens fosse ensinados que temos de respeitar nosso diferente e dar-lhe legitimidade, então provavelmente os gays não precisassem afirmar sua condição e jogar na cara de um país repressor sua alegria por ser como todos os outros.

Se os jovens soubessem que os jovens gays são mais iguais que diferentes, que tem os mesmos problemas que eles, e outros, por terem de viver com a ignorância, se esse senhor fosse educado para educar seu filho a aceitar que não apenas as pessoas como ele beijam, mas todas as pessoas, toda a diversidade imensa da vida, negros, brancos, mulheres, homens, travestis, senadores, roqueiros, americanos, então essa criança seria um cidadão melhor. Então não haveria medo e exagero.

O seu lugar sempre foi ao lado da liberdade. Se os gays puderem ter seus filhos, se a família for vista como laço de amor, esse cidadão indignado aprenderá que todos merecem o que ele tem (ou não). A felicidade."

Afonso Jr. Ferreira de Lima



segunda-feira, agosto 24, 2009

Legal, né? Agora o Sarney começou a roubar, é um coronel, etc... E se ele fosse a base do Lula? E se fosse melhor salvar os dedos? É incômoda e revoltante uma campanha tão descarada contra um problema tão velho... E a Veja? "PMDB" é cobra, é antro do fisiologismo... me poupe. Vale tudo para manter o PT longe.
Muitos jornalistas são simplesmente "condutores", mas há também os meramente "fechados em sua redoma". Afinal ética é algo bom, não?

Só para lembrar, uma carta de Chauí, que tem a coragem de ser intelectual e falar de política: porque FHC disse que ela não devia se meter no que não entende. Entendeu?


"Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos torna politicamente incompetentes.

Assim, esse direito democrático é inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e recepção das informações pelos cidadãos.

E um direito, como vocês sabem, é sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre particular. Ora, qual o problema?

Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é regido por imperativos privados.

Em outras palavras, estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes sempre ganham a parada.

Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles."

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=347ASP012

Só pra lembrar: "45 escândalos que marcaram o governo FHC"
http://www.consciencia.net/corrupcao/documentos/fhc-45escandalos.html

Negócios de telefonia celular efetuados durante governo de FHC deixaram dívida de R$ 1,1 bilhão
http://www.consciencia.net/2005/1128-telefonia.html

sábado, agosto 22, 2009

Claude Régy - O Passador

"... Pode-se dizer que eu comecei na época do novo romance. Passei um pouco por Duras, um pouco por Sarraute. Através de Duras, tive algumas percepções de Blanchot, sobre a escritura. Podemos vê-las ainda hoje, apesar do retorno da narrativa.


Mas enfim, houve uma revolução da abstração, que se deu mais tardiamente em literatura do que em pintura, e suprimia a noção de personagem, e encarnação dos personagens, a noção de personalidade, de psicologia racional, de construção de uma personagem, que dissipava a noção de narrativa, ou seja, de ação. Todo mundo diz que o teatro é ação. Acho que tudo isso foi dissipado.


Tudo o que fazia parte da engrenagem do teatro, a progressão, a montagem de cada tirada e a progressão de ato em ato ou de cena em cena, tudo isso não existe mais. Ou não existiu mais durante algum tempo. Assim detendo-me a essas escrituras, precisei procurar um material para trabalhar.


Buscar um modo de dar vida às coisas em cena, sem passar pela encarnação dos personagens, psicologia ou narrativa. É assim que através dessas escrituras, por exemplo, de Sarraute, que é realmente abstrata, e cujos personagens não tem nome, é preciso que se recorra à escritura e pensar em tudo que a compõe, que a interpretação dos atores seja baseada na escritura, que a “mise em scène” seja também incluída no que é escrito e que os atores, ao invés de interpretar mal, ou seja, de encarnar, de imitar personagens reais e de dialogar entre eles, se entregue à escritura.

Ví duas coisas muito importantes.


É tentar sentir que, sem dúvida, a origem da fala é a mesma que a do gesto. Deve haver um centro em nós. Mas quando eu digo saber de onde nós falamos, penso tão profundamente, sinto por intuição. Mas não sei explicar onde fica. Não se pode dizer à alguém: “Você deve falar daqui!” É preciso achar em si próprio remetendo-se ao estado de antes da escritura, achar de si de onde vem a fala, como o autor encontrou de onde vem a escrita. Mas o gesto deve vir do mesmo lugar. Acho que só uma pessoa que escreveu o texto, e é preciso fazer com que se ouça uma única voz, por toda a trupe.


Tornando-se um monólogo, o que não quer dizer um discurso de uma pessoa, mas um único discurso. Volta-se então à origem do coro da tragédia grega. Então nesse momento, não há mais encenação, torna-se uma audição, uma audição do texto e uma forma de fazer circular... Uma forma de fazer circular o texto que carregamos com o contrapeso dessa matéria inconsciente, matéria que pereceu sua escritura, e deve então perecer nossa encenação e nosso sistema de imagens, plasticamente. É preciso ouvir e estar.


(...)


Penso que, mesmo escrevendo ou lendo, ouvimos sons. Se procurarmos de onde vêm, de alguma parte do inconsciente, então é preciso calar-se. É preciso calar-se e ouvir. É preciso ouvir o silêncio. Então percebemos que, no silêncio, de repente há a presença de homens e de mulheres... Uso “homens” num sentido geral. Essa presença é multiplicada – consideravelmente aumentada, mas é mais que isso – e que a imobilidade não é um pecado maior.


Que há na imobilidade, forças, trocas de forças que se atraem como um movimento. É preciso parar de se mexer, parar de falar, ouvir o silêncio e ficar imóvel. A partir daí, através de leituras feitas sem encenação, a partir daí começamos a descobrir como falar em sintonia com essa fonte interior. E é aí que o gesto se dá, ao mesmo tempo que a fala.


O movimento desacelerado é outra coisa. Ele vem da mesma coisa. (...)


E esta desaceleração adquire também um tipo de reflexão, na verdade, um tipo de atitude estática. Quer dizer, deixa vir a calma por si, que seja para falar ou para se movimentar. Sabemos que quando estamos a esse ponto relaxados, é uma relação com o universo, nós nos abrimos para o universo inteiro. Ou seja, estamos nos relacionando com o espaço da cena e os parceiros, ao mesmo tempo que com o universo, o cosmos inteiro, e estamos abertos a todas as dimensões. Assim o palco vai ser ocupado obrigatoriamente por algo invisível que não se pode analisar, que sentimos sem saber."


sexta-feira, agosto 14, 2009

"Devido ao grande sucesso de público, o espetáculo O MONTACARGAS, faz mais uma temporada no Espaço dos Satyros Dois. O texto - terceira obra escrita para o teatro por Harold Pinter (único dramaturgo premiado com o Nobel de Literatura em 2005) – apresenta-nos dois homens que se encontram num porão à espera de uma terceira pessoa, enquanto conversam sobre futebol e comentam as notícias dos jornais.

Aos poucos, sob a aparente banalidade dos diálogos, vai se revelando ao espectador um vasto conteúdo inconsciente, a partir das sutis indicações dos motivos que os levaram ao porão e a tarefa que ali irão realizar.

A encenação, fruto da pesquisa realizada desde o inicio de 2008 pelo grupo Na Cia. dos Homens, cuja principal referencia é a obra do cineasta francês Robert Bresson, constrói-se a partir de um acurado cuidado com a palavra, aliado ao minimalismo e à economia de meios, que permeiam os elementos que compõem a cena (cenários, figurinos, iluminação...) bem como o trabalho do ator que, utilizando-se do silencio e da imobilidade, busca conferir aos seus personagens uma dimensão arquetípica e simbólica".

O Montacargas, de Harold Pinter – tradução de Braulio Ferraz - direção de César Maier – Com Bráulio Ferraz e César Maier

Espaço dos Satyros Dois – Praça Roosevelt, 134 – Tel.: 11 3258.6345 – 01, 08, 15, 22 e 29 de agosto – Sábados, às 19 Horas

Ingressos: R$ 20,00, R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)

Classificação: 16 anos


quinta-feira, agosto 13, 2009

Acabo percebendo que eu tenho muito a ver com essa cidade. Apesar de eu não querer admitir, e ainda me sentir perdido nos espaços amplos, na geografia nunca finalizada, na convulsão do centro, no anônimo das casas antigas, no barulho incansável. Eu sou São Paulo pela estranheza e pela invenção. Gosto de me ver como um “gaúcho” típico, nostalgia de um pouco de ordem, de um pouco de velhos vernizes aristocráticos, língua culta, política afiada. Nem somos tão nobres, nem a cidade é tão suja. Eu me misturo bem, lá eu era outsider.

Há o duro do comércio, ou seja, tempo. Há as atendentes sérias, os funcionários exaustos de tantos ignorantes, os carregadores de mala que em uma palavra -5178- sabem norte e sul. Tudo funciona. Não me canso de ver a miséria que é como uma ferida aberta nas avenidas, velhos, mulheres, cabeças e pés sujos em meio ao cimento e os carros importados. Eu abomino minha raça e tento ficar ligado ao chão, mas minha mente é turbilhão, como as flores e as folhas que caem. Eu sou essa impaciência. Meu olhar não fixa, mas capta, sou pouco sério. E, em meio a tanto plano e tanto sucesso, só penso em destruir, criar, em estar em outro lugar, será que as pessoas viram o vento levando pequenas folhas na Alameda Santos?

Saio da calçada, uma moto da polícia, emergência. Ao lado da colorida feira, um cadáver ainda vivo. Um celular com TV e GPS no jantar.

E como unir minimamente, sem comprar em bloco fósseis medíocres, quem é mais viajado, quem fala mais línguas, quem compra mais. Como perceber sem enredar-se? Em passagens, imagens, em manipulação. Em ser o melhor. Em ver Paris. Em ter lido muito. Moda. Carro. O Certo. O Pensamento. Bolsa, sapato.


Uma voz de Jornal invade minha casa do vizinho pelo ar. Toda a multidão com uma mesma mente. Tem um velho ao meu lado, evitar a mudez.
Este trem não prestará mais serviço, todos devem desembarcar, plataformas lotadas, empurra empurra, luta na porta, um homem força sua entrada, a porta fecha, desliza como um peixe para fora, a humilhação de senhoras esmagadas em pé em ônibus lotado. Natureza, mórbida resignação, sem jogo. Querer um bem que seja criar mil possibilidades.

A elite do país, a crítica do país, os blocos de poder em choque, fragmentos e destroços que se remontam, Baudelaireplus no entra e sai do chat, na obra da Paulista, funil de multidões, homem mal educado cospe no metrô, homem bem educado me atropela na calçada, acidadenãopodepararacidadenãopodepararacidadenãopodepararacidade. Vovó quebrou o telefone, mas não foi com você, tava estressada, não foi com você meu neguinho...

Cada um no seu blog, pelo msn, cada vez mais rápido, pela webcam, via satélite, sozinho. Informado, tolo. Inflexível. Tanto saber me tornou burro. Meu corpo, frio, não fala, eu o malho. Em busca de alguém. Abrindo a mata escura. Eu sei mais, você vai tirar meu lugar, não pense que me humilha. O pai não vê o filho, cada um no seu casulo. Eu sou o lobo da cidade, minha própria alma é seleção natural.


E ainda assim, eu nasci nessa teia sem nota de descanso que é beleza e perigo, sem Tábua, na quase-grade, percebendo coisas-em-si negras, potentes, que me puxam, um Deus sem resposta única e filho do amor e do gozo, pedra-Godô, é preciso ser único a cada gesto, único com cada pessoa. Busco ver, tocar, pegar espaços de percepção, para agir. O econômico é a igualdade rasa, transforma tudo, você e ele são mais um pouco.


Nem os artistas, nem os pensadores, os compradores de carro são os modelos da humanidade. O flâneur, o dândi, o marginal são os produtos mais vendáveis.
A disciplina da democracia sem igualdade. A cidade São Paulo mix-mundo das multidões secas, dos diamantes ouro micro chip.
Queda e esfacelamento, pensar depois de Auschiwitz.

Os elétrons do meu corpo, a distâncias siderais, correndo, guardam a geografia afetiva: cheiro, cinema, som do triângulo nordestino, viver prazeres na Consolação, a cidade quer arte. A matéria é música da poeira quark, música incerta.

No fim do conflito burgueses X marginais/artistas, os executivos são artistas de si mesmos e os artistas são comerciantes de sua imagem. Máquina que come tudo, e tudo fica igual a tudo. Selva germânica, ruas de vendeta. E ainda assim eu sinto o vigor da Feira da República, eu observo o belo na árvore negra em ondas contra o vão vermelho do MASP, a estranha glória do Viaduto do Chá soberano sobre cacos da metrópole. Algumas árvores no vidro azul da avenida. Olhares amigos.

Eu tenho a ver com essa cidade, porque nunca sou correto, nunca acabo, e e cada dia aprendo o prazer.


Afonso Jr. Ferreira de Lima

segunda-feira, junho 01, 2009

Se iguais

O futuro do Brasil está na favela
Não nos filhos mimados da burguesia
intoxicados de video-games e mp5
cujo ideal de vida é voar à alta velocidade
entre o lixo e as armas
sem sapatos e sujas
sopranos, filósofos e cientistas
esperando atenção
nas praças, as crianças brincando
um pouco de ar, um pouco
de paz para a criação
livros abertos, as mentes
aprendendo, ensinando
o que cada um apenas sabe
o governo foi comprado
o poder não está com eles
estão sempre vigiando, vigiando sua mente
estão sempre ofertando, o que você não vai comprar
estão sempre falando, antes de você pare pra pensar
A revolução dos livros
a revolução em cada cidade, cada bairro
libertar o aparelho de pensar
contar o passado e abrir o posível
anjos da cidade
tragam uma ciência humana
cujo objetivo seja viver
o ser humano
não para julgá-lo, modelá-lo, torná-lo útil
mas para ampliá-lo, libertá-lo, torná-lo sábio
porque o conhecimento deve ser rebelde, mas simples
que seja também amor
sejam os melhores e lembrem-se
que a felicidade é coletiva
só há um mundo e ele é de todos
encham de flores a vida

Afonso Jr. Lima

domingo, fevereiro 08, 2009




Duas boas descobertas

"dentro de mim
morreram muitos tigres

os que ficaram
no entanto
são livres"

(Lau Siqueira- do livro, O Guardador de Sorrisos)
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/

O inacreditável SSION:

http://www.youtube.com/user/thession

As regras do jogo

Li uma entrevista interessante de José Padilha, cineasta de "Tropa de Elite", onde fala da sua "teoria dos jogos". Seu ponto de vista é instigante, sobre o contexto do personagem...

Mas, antes:

Segundo a Folha de 4/02 /2209, no resturante Cracco de Milão um executivo negou-se apagar a conta de R$ 12 mil, por trufa branca ralada sobre (vulgo fungo sobre massa). Carlo Cracco, chef do restaurante, afirma: "As pessoas civilizadas pagam o que compram. Há pessoas que pagam 7.000 euros por uma garrafa de bom vinho, e este senhor não pagou o que consumiu".

Assim, não há limite para a ambição: mesmo que você pague R$ 6mil por um jantar - como de fato o executivo pagou, em busca de um acordo- sempre haverá um status maior a ser atingido.
E a sociedade brasileira é doente por status, discriminação por status, status como valor humano: pode não ser culpa de ninguém, mas podemos mudar as regras.

Fiquei espantado com a Festa de Aniversário de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, onde, com amigos, esperei quase 1 hora por Seu Jorge: o show, aberto, foi para uma multidão, mas os únicos policiais que eu vi ficavam na rua anterior, à mais de 200m do palco. Nos andaimes ao redor do palco, nada. Na frente do palco, onde mendigos, bêbados e nós nos apertávamos, nada, nenhum. Andei até o metrô com um amigo, subimos até o Municipal, somente os dois policiais no carro em frente as barracas da Fiesp. Ou seja: povo é povo, se der briga...

No site da Prefeitura se lê: "Cem homens, além do contingente da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar, farão a segurança do evento". E, na Folha: "A organização do evento espera receber cerca de 20 mil pessoas, a partir das 16h." Pode?

Da mesma forma, na Virada na Paulista - além do espantoso Daniel tocando sou berrante e do chatíssimo KLB cantando músicas de outros e Micheal Jackson em inglês!- o policial que me revistou parecia estar dando um passe: tapa na barriga, tapa nas costas, pronto! Eram 2 milhões e 400 mil de pessoas... Mas e daí? Na TV só sai flashes... (Ainda: os policiais ficavam dentro de "barricadas" que dividiam uma pista e outra da avenida: Se ocorria algo ficavam como barata tonta pensando em como sair do quadrado e tentando enchergar na multidão... Floripa é bem mais esperta: eles ficam em cima da escadaria da Igreja e saltam sobre o mínimo tumulto.)

Na casa de amigos, a empregada faz um discurso sobre como sua rua na Z.L. fica uma semana sem ser lavada e como a Paulista é lavada todo dia pela Prefeitura. "É que a Paulista chama os turistas" - diz uma amiga... Então vamos lavar a Z.L.!

O que eu mais temo é essa massa de explicações plenamente explicadas que as pessoas têm em mente; a defesa dos direitos humanos baseada em uma visão moralista ("bolsa família incentiva a vadiagem"), distorcida, fechada em um mundo microscópico onde o bem, o belo e a verdade já foram decididos, mas estão longe de tudo que é real. "Prefeitura trabalhando" é um slogam, mas na periferia não há lazer nem policiamento.

Assim, são essas simplificações- idéias pré-concedidas que geralmente culpam o excluído pela sua exclusão- que justificam manter as regras do jogo.

O próprio "Tropa de Elite" sofreu com muitas dessas reações tipo "bandido é bandido, mocinho é mocinho".
Uma série de preconceitos, por exemplo, o que confunde "filme de crítica sobre sociedade violenta" com filme de violência banal - como Jay Weissberg, para a "Variety" que fala de um "estilo Rambo" (há de ser muito ignorante para igualar um filme político como esse a Rambo) e fala de "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas" (sic). Vamos filmar apenas Hollywood!

Por falar nisso, o "Hollywood Reporter" diz que a premissa do filme "é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades". Nossa que feio! Um provável esquerdista de elite do "Le Monde", Thomas Sotinel, cai no velho ditado chinês segundo o qual "quando o sábio aponta a estrela o tolo vê o dedo", pois pensa que o filme é "uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais." Como se precisássemos fazer apologia onde morrem tantos jovens -"mil pessoas assassinadas por policiais por ano", segundo Padilha.
Também vi a excelente entrevista da professora Jucileide Rodrigues da Silva, diretora da Escola Oliveira Viana, no Jardim ângela, em São Paulo. Vale a pena trans-Ctrl+V:

"E havia alunos de sua escola que eram membros dessas gangues?

Sim, havia. Os meninos do bairro não têm má índole. Mas pense bem: eles não têm o que fazer, não têm lazer nenhum, passam necessidade porque o desemprego é muito grande, vêem o pai desempregado, a mãe indo fazer faxina, se achar trabalho, comida faltando dentro de casa enquanto a mídia vendendo todo tipo de produto — o melhor tênis, roupas de grifes —, sem que tenham condições de comprar nada.

Daí vem o traficante e lhes oferece dinheiro para vender drogas. Os meninos começam vendendo e depois de um tempo acabam se tornando consumidores. Normalmente, quando eles entram no crack, é uma ida sem volta.

Eles têm a auto-estima muito baixa. Por morar no Jardim Ângela, automaticamente, você é bandido, é marginal, é vagabundo. Eles saem para procurar emprego e ninguém dá porque moram no Jardim Ângela. Tudo isso é que torna o bairro perigoso e esses meninos, marginalizados".
(www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0068.asp)

Idem : José Padilha para a DW-WORLD, no Festival de Cinema de Berlim, 2008:

"Por exemplo, no Brasil, por algum motivo, a maconha é ilegal. Poderia não ser, mas é. Então, o usuário da maconha e da cocaína, quando compra drogas, está comprando de um grupo armado que domina uma comunidade carente.

E ele sabe disso, isso está implícito na escolha dele. Ele está financiando as armas e as balas dos traficantes, sim. Ele está dentro do processo social que gera isso e está fazendo escolhas conscientes que alimentam esse processo. A classe média tem uma grande dose de hipocrisia no Brasil.

Um policial no Rio de Janeiro: quais são as regras às quais ele está subescrito? Ele recebe 400 dólares por mês, é maltreinado, é colocado numa estrutura corrompida de cima abaixo. E a gente pede que ele faça valer a lei em favelas com pessoas fortemente armadas, com grande risco de morrer durante um longo período de tempo.

A mortalidade de policiais no Rio de Janeiro é enorme. Qual é então o comportamento de uma pessoa, dadas essas regras do jogo? É natural que ela se corrompa. Por isso que temos na polícia 40 mil indivíduos e mais ou menos 30 mil são considerados corruptos pela população. O que é verdade".
(http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/02/15/ult3781u4.jhtm)

quinta-feira, janeiro 01, 2009


A mostra Jacques Tati, do HSBC, fez uma história do século com leveza. No século de Monsieur H. e Monsieur S., Monsieur Hulot aparece não como uma resposta, ou um antagonista (há contraponto para o indizível?), mas como uma flor do campo que insiste em ser apenas isso.

O primeiro filme, de 53 conta sobre um mundo absolutamente em paz ("frescor infantil e terrível, suspenso sem rumo num vazio" depois das guerras, como, segundo Hannah Arendt, em "Homens em tempos sombrios", bem definou Sartre). As pessoas saem da cidade em busca daquilo que o mar oferece. Encontram Monsieur Hulot e uma porta aberta ao vento, uma vela dentro de uma dispensa com fogos de artifício às 4 da manhã e um LP que explode em jazz do nada, alvoroçando o descanso. Já o assisti duas vezes e não me canso. É o prazer incrível de não ser perfeito e rir de si mesmo.

O segundo filme, "Meu tio", de 1968, já tem outra cara. É uma crítica bem franca ao "modernismo", aos pais que não têm tempo para os filhos, às mulheres fúteis que vivem para a casa e as amigas, aos prazeres da riqueza que nada são sem alguém para compartilhar. Em tudo isso é realmente o clássico despretencioso sobre o despertar do "sonho" iluminista de que a tecnologia ia trazer a felicidade. Afinal, o homem não ia mesmo conquistar a lua? Pierre Cardin não criava roupas de astronauta e dizia: "as roupas que eu prefiro são aquelas que eu crio para (...) a vida de amanhã?"

Essa brincadeira de herói do deserto sideral fica ainda mais visível em "Traffic", de 1971. Depois de assistir uma noite toda a chegada, os homens caminham na garagem em câmera lenta. Agora a sociedade do consumo venceu (a máquina da liberdade ainda brilha, neste mundo novo, como um cigarro nas mãos dos atores dos anos 50), e o racionalismo cômico que já aparecia em "Meu tio" aparece aqui mais forte, mais enredo, mais o fluir do filme e menos o palhaço Tati.
Todos estão orgulhosos de seus carros, mas não podem andar, congestionados. (Profético! Devia ser passado no ensino fundamental em São Paulo...) O riso é mais cerebral, mais sarcástico, mas cheio de boas gags de circo como os hippies que substituem um cachorro por seu casaco "ovelha", levando a dona (histérica mulher-moderna profisional- american way chata) à loucura. Monsieur Hulot agora é um designer (!), vejam só, mas capaz de pensar num pára-choque (ou será que a nova regra já vale, parachoque) de assar bife...
A burocracia é ridicularizada, e a cena de Hulot pendurado de cabeça para baixo numa árvore, depois de pôr abaixo uma trepadeira enorme que cobria a fachada de uma casa, tentando não perturbar a conquista de um hippie, é a "prova" tatiana de que, no mundo planejado, o acaso sempre alcança...

"Parade", 1974, é o canto do cisne - mas um canto cheio de amor- por um mundo onde a inovação era possível, longe da "média" do "cidadão comum" da massa.
(Parêntese: em um bar ouço a um trecho de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos. Os diálogos, que tentam naturalismo "sabe-o-que-eu-comprei-na-feira?", mostram uma diretora amadíssima pelos seus alunos, brincalhões e simpáticos, que aplaudem no final de seu discurso, incentivando o estudo. Sempre o medo dos conflitos reais, que salvaram as séries americanas como House. Reflexo do isolamento dos artistas, no mundo dividido?)

Aquilo que o cinema francês traz de mais importante, tão bem representado por Catherine Deneuve -uma ousada constante - e o "Conto de Natal" de Arnaud Desplechin, o confronto com nosso mal, as incompreensibilidades da vida, a rebeldia (sim, contra o "mercado" imperialista, no fundo, que hoje é um o mercado de idéias simplistas, a mediocridade, a arte-shampoo, ou a arte "arte" só para amigos artistas "alternativos").

Circo-filme (quem pode imaginar maior diferença com o Circus de Britney, essa menina triste de cordinhas que usa qualquer decalque do baú-do-mundo - os simulacros - que algum empresário cria para uma cara nova para o mesmo perfume?)
Tati faz uma ousada brincadeira com o que há de mais simples: a união de diversas pessoas fazendo coisas inúteis e que exigem talento, a lembrança do artesanato, da tradição do medieval, dos artistas bufões, da arte enquanto liberdade. Pode dar errado, e dá, em alguns momentos: há piadas que não entendemos, como na orquestra brigando pelas roupas, isso porque Tati é rápido, "tudo é perigoso..." Mas o prazer de uma obra de arte com erros é sempre infinitamente maior do que uma obra de não-arte perfeita.
Sinto hoje, nos artistas, um medo enorme de errar, uma imensa necessidade de afirmar-se e é isso que mata qualquer tentativa de criar uma linguagem de algum impacto, que só pode nascer da retirada completa da máscara (assustadora) e da identificação pela vontade de oferecer, anti-individualista de início.
E se Hulot é algo, esse algo é generosidade. Tati lembra-nos que a Commedia del’Arte - que literalmente significa a comédia dos artistas- ainda é possível. Disse Marcel Marceau:
"Bip não vive de lembranças. Seus combates são do mundo de hoje. Ele é como Dom Quixote, lutando contra os moinhos de vento da existência".

(MARCEAU, encarte do programa de sua turnê pelo Brasil, 1997
http://www.cialuislouis.com.br/tf-marceau.htm)

O filme é genial por transformar mágicos, mímicos, acrobatas, cantores, orquestras, hippies, crianças, cavalos, imagens, conceitos, fluxos de circo em filme, de 85 min. As crianças pequenas, no final, brincando com tinta -além de uma porta dizendo "o circo não acabará nunca"... - é uma lembrança do que é ser artista. Sempre haverá um coração aberto para ouvir nossa canção.
Fazer arte ainda pode ser divertido.