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sábado, dezembro 31, 2016

esperança

a esperança não é delirantemente otimista
ela só sabe que nada é para sempre
a esperança não é baseada nos supostos irrrevogáveis fatos
mas naquilo que existe entre os fatos e que pode surgir
a esperança não é aventura
simplesmente sabe que recuar e permanecer também são vitória
a esperança não abaixa a cabeça nem chora, não se abate porque
já foram tantas as guerras movidas pela vaidade
a esperança sabe que a escuridão é maior antes de sua queda
a esperança não tem medo de deixar tudo a não ser o que ainda não veio
a esperança não pode ser destruída
porque sabe esperar

Afonso Lima

sexta-feira, dezembro 30, 2016

O Mapa

Riscos da cidade
Examino a ponte em obras
A anatomia de uma lembrança
Meu corpo na escuridão

Das ruas talvez bucólicas
Das ondas de cor de Porto Alegre
Casas coloridas e cafés

Palmeiras amarelas
Esquinas à venda
Nuvens espetadas no aço do morro
Moço bonito, antigos amores
Ruas bordadas de verde
Encantada cidade a cada dia perdida

Eu vivo o tempo do silêncio
Não há dúvidas no sistema
No aquário, mão-de-obra gratuita
E mesmo assim nós na loja indiana
Comendo yakissoba sabor chile

Amplas avenidas o vento da madrugada
Tantos fantasmas do crime político
A poesia do teatro com goteiras

Cidade de meu andar
A saudade é heroica 
Cidade imaginada a criar
A memória é progresso
Cidade à espera de esperança


Afonso Lima

quarta-feira, dezembro 28, 2016

chão

vida sagrada
que brilha muda e é finita
tudo que tem a ver com o chão é sagrado
sagrado o cuidado
o corpo braços no alto pelado
o fantasma de água nos pés sol sonolento
nem a vaidade das pequenas coisas
o conceito impermeável socado
as medidas impostas por tradição
mas o universo que samba o que é e será
mas o comer e dormir nosso de cada dia
sagrado o sonho e a esperança
que precisa cada homem
pequena fome grito de nascer
sagrada a lembrança do território verde
shiva dançando fez as árvores
e elas dançam
tudo que fizemos foi puro
e puro é o movimento e o tempo que amplia

Afonso Lima

domingo, dezembro 25, 2016

mundo paralelo

Eu era uma pessoa feliz quando tinha 12 anos. Eu assistia TV a tarde toda e, à noite, sentava com meu pai para o jornal e minha mãe para o programa de maquiagem, cozinha ou decoração. Quando via algum funcionário de meu pai ir submisso até a cadeira de choque para ser punido, pensava que era mais um malandro. Mas, um dia meu pai encontrou um velho amigo de colégio - o colégio privado para jovens herdeiros. Sim, o homem parecia dez anos mais velho que papai. 
Meu pai contou a mamãe que esse amigo salvara sua vida com primeiros-socorros na escola. Os dois ficaram conversando até tarde da noite no quarto. 
- Ele nasceu para liderar e se perdeu - mamão sussurrou
- As coisas são o que são, quem é violento, sofre - meu pai disse com a voz embargada.  
- Pessoas tão inteligentes e inúteis, pobre coitado - ela disse. 
O homem foi morar conosco. 
Ele era desconfiado e atormentado, silencioso, triste. Eu gostava de observá-lo. Nós ouvíamos música, eu jogava, via-o desenhando. Havia passado pelo tribunal. Começou a reclamar e foi acusado de distúrbio à ordem.
Um dia recebemos uma tia, que vivia no estrangeiro há muito tempo. Minha mãe parecia transtornada, a visita era imprevisível. Ela decidira limpar o chão da sala. 
- Parece uma criada - mamãe resmungava.
Meu pai estava muito brabo. Os dois passavam horas no jardim, mudos. 
Uma noite, em pleno jantar, nossa tia disse:
- Eu tiraria os meninos da escola. As pessoas estão sendo mortas por aí e ele só aprende sobre um mundo paralelo. 
Meu pai ficou vermelho, mas se calou. Os dois se casaram no fim do mês. 
- Pai, existe alguma coisa errada com o mundo - eu disse no dia do meu aniversário.
- Não, não pense nisso, ele me abraçou.

Afonso Lima  

o tempo

Na Pérsia, o rapaz viu os soldados do Imperador o assassinarem.
O Império era o puro caos. Somente as ideias o podiam organizar, libertar e regenerar. No sul da Itália, diziam que em todas as coisas existe um número.
Quando Plotino morreu, seu discípulo organizou suas anotações. Sua seita pitagórica afirmava que alguns homens precisavam apenas observar, sem comprar e vender e sem competição; outras crenças diziam que comer carne e fazer sexo eram um nocivo misturar-se com a matéria, com o mundo mau criado pelo deus inferior Javé.
Os godos invadiram Roma e o santo do deserto sírio escreveu cartas sobre a virtude da resignação.
Atormentado pelos erros, sua mãe cristã, um jovem se batiza em 387.
- O tempo só existe na mente, num ser criado, dizia o jovem. Deus criou o tempo. Deus não é o mundo, está fora dele. No princípio Deus criou o céu do céu, onde a inteligência conhece simultaneamente, sem a sequência temporal, e a terra que é invisível e informe, atemporal. Um bem inferior é ainda um bem. Os que pensam que Deus se difunde pelos espaços infinitos como matéria não entendem que Tu contém as coisas como verdade. A perversão da vontade é o mal.
Mil anos no pórtico da catedral: "Compreender para crer e crer para compreender".

Afonso Lima

sábado, dezembro 24, 2016

Instrumentos

Universo, fazei-me instrumento de vossa renovação.
Onde houver perigo, que eu leve o alarme;
Onde houver desumanização, que eu leve o respeito;
Onde houver crueldade, que eu leve a indignação;
Onde houver agressividade, que eu leve a reflexão;
Onde houver complacência, que eu leve a mudança;
Onde houver combate, que eu leve a festa;
Onde houver sofrimento, que eu leve o cuidado;
Onde houver lágrimas, que eu leve a força;
Onde houver medo, que eu leve a verdade;
Onde houver insensibilidade, que eu leve a lágrima;
Onde houver arrogância, que eu leve a simplicidade;
Onde houver isolamento, que eu leve o todo;
Onde houver regras, que eu leve o riso;
Onde houver confusão, que eu leve a análise;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Afonso Lima



sexta-feira, dezembro 23, 2016

Rolando

Abraçados na nuvem
ovos de porcelana
o rio transparente
o terno branco duplo
as macromoléculas colidiram
há 4 bilhões de anos
e nós na velocidade de dobra

Dois ursos brancos rolando na neve
nós passeando pela ponte sob a chuva
japonaiserie no tempo do complô
a flor de leite e o fino dedo no rosto
é hora de rejuvenescer

No universo ao lado o peso nos atinge
expressando esperança por uma estrela
rolando como insetos na areia clara
caindo do alto de uma árvore rolamos
dentro a dança, gravidade leve
o branco sol nasce em frente ao mar

O manto branco que nos cobre
O velho nos olha coroado somos belos
Contra a corrente, metamorfose
E não - jogador se torna o jogo
Transformados corremos na manhã

Afonso Lima




Entretenimento

"Tenha uma sensação única!"
"O que parecia impossível!"
"Além do bem e do mal!"
"Liberte-se dos últimos preconceitos!"
O contrato deixava claro que a família seria sustentada enquanto vivesse. A vida do bairro piorara muito quando o crime chegara. Os empregos deixaram muita gente doente. Os pais trabalhavam até a noite e as crianças viviam pelas ruas.
- Varias formas de matar você pode usar agora - dizia a propaganda. Ver um homem morrer é algo que você nunca vai esquecer.
Ele já havia decidido. A mulher chorava sem parar. prometia se prostituir. Podiam ir morar mais longe, no interior. Olhou para os filhos para os quais não pudera pagar o médico no inverno. O homem sentia a água no pé, sapato furado.
O empresário mostrava os cemitérios cheios de flores.
- Eles são muito éticos. A grama está sempre verde.
A mulher acabou desmaiando.
Ela o jogou no rio.

Afonso Lima

No bosque

O teólogo andava na margem do rio.
O filósofo fala sobre o dogma da razão.
O pensador pedia que se sentassem um pouco.
- Os representantes ignorando a vontade popular, disse o teólogo. A dignidade humana.
- O que as pessoas precisam é de um mito pelo qual construam uma noção de identidade - diz o filósofo.
Uma chuva fina cai recebendo o sol oblíquo. O verde parece acentuar-se em contraste com nuvens escuras dispersas.
O pensador, tocando a relva, pensa em voz alta.
- Você fala como se a filosofia fosse, toda ela, um gesto de apagamento. Parece que existe algo mais rigoroso que o conceitual, não?
O teólogo, escondido sob a árvore, diz:
- Eu temo pelos irmãos. Os meios de comunicação funcionando como propaganda...
Penso no vínculo comunicativo entre os seres humanos.
- Saia de baixo da árvore, pode ser perigoso, diz o filósofo.
O pensador faz um gesto para que eles o acompanhem. A chuva está mais forte, ele terá de voltar à cabana.

Afonso Lima



terça-feira, dezembro 13, 2016

Nova geração

Ele usa gravata colorida, camisa para fora da calça e uma barba moderna.
Ele segura o microfone como um cantor.
Ele caminha pelo palco.
Ele passa na frente do vereador que fala e aparece na tela.
Ele manda o prefeito sair rapidinho porque perdeu a eleição.
Ele faz a plateia torcer contra si mesma.
Ele é censurado por outro vereador que diz que ele quer impedir a aprovação.
Ele é vaiado pela plateia.
Ele sobe para falar com o povo.
Ele é bonito e tem pós-graduação.
Alguém grita: - Populista!

Afonso Lima

Mesh8 em V - 0.2

Estou sozinho no espaço, escrevo para guardar a memória do meu povo.
Recebe um visitante, que diz chamar-se M11.
B01 caminha pela cidade, o sol está brilhante, muita gente fazendo esporte e passeando pelas ruas. Um homem discursa em um palco de cimento. Ao final, encontra o pastor que diz que "o mundo pagão não venceu".
Eu conto a M11 que a dissidência foi derrotada na guerra. Diziam que o "mundo pagão venceu".
M11 disse: - Meu amigo C73, é um robô cientista, um dos três comandantes da expedição.
O grupo Mesh8 penetrou na galáxia V de 0.2.
M11 disse: -  C73 percebeu a cidade vazia, seus espiões mandaram imagens, vida apenas em uma espécie de templo no alto da cidade.
Uma nave sem vida e registros deformados por algum tipo de radiação.
- Isso está desestabilizando o cosmos, podemos chamar de 0.1 - C73 diz a M11. É uma cápsula em um lugar que podemos chamar de 0.2. B01 diz que terão de encontrar 0.2.
C73 diz: - Precisamos descobrir a origem do sistema autônomo. B01, o capitão, pede que M11 use o retorno no espaço-tempo.
B01 resolveu caminhar pela cidade e foi infectado por um dos biorobôs.
O pastou disse: - Quando chegar o dia, vamos acabar com o mundo pagão e viveremos no espírito, dentro da terra.
Eu digo: - A dissidência foi derrotada na guerra. Não conseguiam acordo com o Poder central e teriam de imigrar. Mas um dos seus cientistas mais geniais conseguiu criar um dispositivo que entrava no sistema nervoso criando alucinações - a massa foi aprisionada numa cápsula de realidade alternativa.
O visitante retorna, C73 consegue retirar o biorobô de B01 com uma espécie de radiação. M11 percebe que deve destruir o templo.
Uma nave perdida solitária.

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 12, 2016

A cidade

O universo se refaz
é o que o menino vê
nos cantos da casa
é aquele homem morto e se levanta

o menino ouve o tocador de alaúde
coloridos ursos leões e fadas
e na rua os homens morrendo de fome
alguma coisa está errada

- Não subestimem o sonho da cidade justa
As torres desabam um dia
Uma punição que apavora o mundo
Minha canção é contra a tirania

O homem sonha com o vento nas flores
Ao lado do rio onde seus filhos crescem
Não sufoque a beleza da primavera prometida
A doce mão da amada no leito no amanhecer

As onças e os cornos pela cidade
O monstro nascente, o povo injustiçado
Ele vem, vence a morte
Não subestimem o sonho da cidade justa

Até quando um ser humano pode ser humilhado?
Até quando um ser humano pode fingir não saber?
Até quando um ser humano pode negar a beleza?
As montanhas também podem ser destruídas pelo vento.


Afonso Lima














sábado, dezembro 10, 2016

42.8 J

My3-II desceu primeiro no planeta desconhecido. Ela podia perceber M.V.2.M.D-I suando. 
A Missão Liberdade estava preocupada com as formas de vida que poderiam existir ali. 
Cristais de rocha brilhantes, uma névoa no chão de rochas prateadas, insetos com um zumbido desagradável. 
My3-II e sua equipe avançaram por dentro de um bosque que parecia mais uma rede de seres interligados. 
- Que nojo dessa gosma, dizia HCE 4. 
Eles entraram numa caverna. A última mensagem falava que uma forma de vida inteligente devia habitar o local, pois uma IA podia ser vista. 
Dez anos depois, HUK-7 descia no mesmo planeta. Um exército foi preparado. Nesse meio tempo, uma guerra começara na Terra e uma missão tripulada explodira no espaço. Nunca se pode voltar ao planeta, e, no Congresso, houve um debate sério sobre a necessidade de evitar novas missões. 
HUK-7 trazia um especialista em vida alienígena, um especialista em inteligência artificial, diplomatas e telepatas. 
A comoção durara muitos anos. Um trauma no expandir da democracia. Desde criança ouvira histórias sobre a missão desaparecida. Muitos pensavam que bactérias poderiam ter dizimado a tripulação, outros que poderiam ter sido aprisionados como animais. Ele desenhava no treinamento forças de ocupação que prenderiam os criminosos alienígenas e derrotariam forças imperiais. 
Ao entrarem na caverna, ouviram o Concerto para Piano nº 14 de Mozart. HUK-7 reconheceu sua música favorita. 
- Sejam bem-vindos seres do planeta Terra. Recebemos vocês há 1/3 de ano solar. Faremos a mesma pergunta que fizemos anos antes. Querem ver a verdade? 
HUK-7 disse que não. 
- Poderão ouvir então o que seus amigos deixaram como última mensagem. Essa é My3-II, capitã da nave 42.8 J. 
- My3-II falando. Encontramos uma forma de vida artificial que pode mostrar a verdade. 
Não restou nada de meus colegas. Eu os sufoquei com gás venenoso. Eu mesma cometerei suicídio em seguida. Quando eu descobri o que era a Missão Liberdade, resolvi acabar com ela. 
My3-II estava ao lado dos seus colegas. 

Afonso Lima

sexta-feira, dezembro 09, 2016

sonha

dormia puro sonho
a sombra se aproxima
riso lágrimas

galerias escuras
pesadelo de um povo
caosmos

corre Lívia agora mar
volta a cantar sobre o bosque
vira mulher e canta o dia

funeral divertimento
o grito
fim de novo

A luz da vela no castelo
retirar o lodo
perigoso engano

corre Lívia agora mar
volta a cair sobre o morro
vira mulher e canta o dia

Afonso Lima


quarta-feira, dezembro 07, 2016

capitalismo colonial

o empresário escravocrata

é a forma mais pura

a nata da exata faca

cabeça de velho na rua


o empresário escravocrata

conhece jazz e drummond

a nata da bala de prata

corpo negro no papelão


o empresário escravocrata

fala em orçamento e ajuste

offshores e trusts a escravidão

continua no vagão do trem


o empresário escravocrata

vota a lei na calada

da noite e bota gente na rua

democracia de sala fechada


Afonso Lima