domingo, agosto 30, 2009
Eu era pequeno demais em 82, quando ele tornou-se o primeiro e último unânime do globo. Mas lembro do impacto de sua performance. Um caldo de tradições, black músic e disco, a síntese de uma história que começa com o jazz. Os descendentes tinham sua própria herança (soul, funk) e Elvis, filho bastardo.
Eu ainda penso se poderia haver algo mais grotesco do que o "tributo" a MJ ,17.500 pessoas, de corpo presente. Liz Taylor chamou de "um grande circo"... (Por piedade, enterrem logo esse corpo!)
O psicanalista Jorge Forbes afirmou na Globo News que cada um de nós tem um MJ. Lacan via, parece, a arte como aquela pintura de uma fruta coberta por um pano: uma tela branca para nós nos jogarmos.
Não podemos encarcerá-lo em uma personalidade patológica: ele dizer que sofreu é apenas uma opinião a mais... Talvez.
O tema é infinito. Por exemplo: Madonna conseguiu impor uma imagem oferecendo um "pacote" (vários) para a indústrial mundial do entretenimento que explodia nos 80.
MJ nunca conseguiu criar uma imagem única, nunca foi um bom narrador de si mesmo, ou nunca conseguiu uma personagem pública que fosse algo de si a ponto de mudar sem morrer, portanto é péssimo num mundo que precisa vender rápido para a massa. Nos anos 80 ele ainda conseguiu um estilo impressionante ("eu sou o homem impenetrável, que domino o mundo com minha dança"), que ecoou em milhões de Maycons e Maicous pelo Brasil afora.
Depois vai de um lado para outro, com o rosto em mutação, estranho, dançando com o Olodum e fazendo o egípcio. A pergunta surgiu: mas quem é MJ? Não aguentamos uma arte que não propõe um julgamento do mundo, nem que seja "seja ativa como eu", o que Madonna fez. A década de 90, com seu branco panos-quentes "politicamente correto" não ajudou alguém cada vez mais distante da comunidade (aliás, ela mesma, marcada pela desindustrialização, consumismo tele-produzido e violência das novas máfias, jogando tudo pra fora no hip-hop) a refazer o pop, que tornara-se replicagem.
Como o disco mais vendido do mundo, o mais caro contrato de propaganda, o Super Bowl e programa de entrevista mais assistidos da América (100 milhões) e o videoclip mais caro da história não tem identidade? "Thriller" foi o ápice e o último passo da revolução? Se você não criar um personagem, eles criarão, nem que seja o demônio.
(É notório como as tragédias, no mundo contemporâneo, são banais, pois fazem parte da vida dentro de um sistema organizadíssimo de economia, transporte, venda e produção de valores e desejos onde tudo é planejado e não há chão para pensar uma resposta: a alma de tantos artistas morre de falta de realidade).
Infelizmente, ao morrer, conseguiu ser sintetizado, como rei do pop. Mas mesmo assim:
cada um disse sobre ele algo e é notório que a MTV apenas conseguisse falar em uma sucessão de clips e a Época ficasse no blá-blá-blá nada convincente, a posteriori, que não consegue senão algo como "pobre criança rica". Pobre.
As imagens acabavam antes dos anos 2000. Tudo que o definia era Jackson Five, "Billie Jean" (1500), "Thriller" (1982), a Pepsi (1984). Ninguém conseguiu achar uma linha de explicação que fosse ao menos um cliché razoável. Sim, ele foi o "rei do pop", pelo menos isso se tinha certeza. Quem afirmava eram produtores, especialistas, músicos, sabiam de algo que ninguém sabia. Uma energia incrível, criação pura, e, ao mesmo tempo, uma pessoa desconexa, com frases inexplicáveis...
Outro ponto: quem quer que tenha ouvido o documentário de alguns anos atrás deve ter ficado impressionado com um homem carismático, dizendo coisas corretas e vivendo no mundo da lua, que fala com toda a sinceridade que não entende por que não pode dormir com uma criança. Ele tem toda a razão do mundo: a sociedade está doida de recalcar tanto o amor dos pais, etc. É bem claro que o mundo é que talvez seja doente, com todo seu ódio pelo contato... Mas custava um pouco de precaução? Você entende que o objetivo da "notícia" é criar uma pauta macabra ("tudo que você disser..."), não entende a inocência. (O Dr. Stan Katz, que o examinou em 2003 disse que teria a idade mental de 10 anos).
Ele falava como alguém que viveu dentro de um mundo de "sonho", que a indústria precisa. Aprendeu a vender o sonho e se tornou ele próprio uma fantasia. Diz no documentário que recebeu um cheque de 200 mil dólares do pai quando tinha algo como 15 anos... (que o jornalista é um babaca aproveitador, não há dúvida)
Além disso, sempre achei incrível que a mídia tenha ficado tanto tempo sem falar na sua aparência. O que eu via era chocante, mas a imagem de "rei" ainda era muito forte. Pareceu sim que há coisas das quais não se fala de um grande vendedor.
Mostra o quanto foi difícil mudar de canal para o próximo show e o quanto ele vacilou (por brigas com a Sony, por estresse dos processos, etc...) em oferecer uma substituição. Já "Black or White" soava para mim como enlatado (o que era aquele final: sempre penso que violência-tube é uma volta desesperada à realidade, assim como pegar no pinto fica estranho para alguém dessexualizado) e depois foi apenas mais do mesmo, baladas e clipes eróticos gelados (que idéia foi essa de chamar essa camuflagem de "In the Closed"?). Madonna também passou por um período indefinido entre o pop descarado até 90 e o novo dance-tecno dos 2000, (eu chamo, o fim lento da era disco, era Clinton, chove não molha, nem imperialismo de Bush, nem democracia de Jimmy Carter), mas MJ nunca pareceu ligado (a não ser ontem, com o Will. i.am)
Sabe, apesar da poesia impresssionante, e de não ser objetivo da música defender causas como um jornal, "Heal the World" sempre me causou algum mal estar. Parecia tão vinda em papel de indústria internacional, tão como um produto. Quem está falando do que e para quem? Precisamos de alguém que mantenha o sonho vivo, mas eu temo quando alguém fala "ame o mundo." É um passo para esquecermos que no outro lado da rua há algo concreto, um problema bem definido. (Bem, foi concreto "We are the World". Mas prefiro o ativismo realista de um Thom Yorque, que sabe quem são seus inimigos... ok, Thom não vive no país-entretenimento. MJ ficou, afinal, do lado de Reagan contra as drogas. Medo)
Forbes nos perdoe, mas, nós, pobres humanos que ainda precisamos de uma história pra nos contar, uma biografia mínima, mesmo que contraditória e aberta, queremos saber: foi o peso dos conflios internos, isolamento extremo, por exemplo, ser negro e talvez gay numa sociedade e época em grande parte racista e homofóbica? Freud disse certa vez, em entrevista, que as pessoas morrem quando querem morrer...
Enfim, chegamos ao funeral bizarro de um ícone que, só Deus sabe porque, acabou de mandar sua mensagem em 1993 (se fez algo notório, não chegou até mim) e passou a ser um "perseguido", caça-de-paparazzi.
Um homem com um sonho, mas nascido e criado dentro de uma indústria que não lhe permitiu ver (muito) que existe mundo lá fora. O fato de ganhar milhões de dólares por ano e morrer endividado é exemplo disso. (A cena em que compra a loja toda sem perguntar o preço é doida...)
Alguém que, em um momento, parece consciente de tudo que querem impor a ele e, no outro, afirma categoricamente que nunca fez mais que duas cirurgias no nariz.
Alguém que não é gay nem hétero, nem branco, nem negro. Alguém que casa para não deixar vir a tona boatos sobre sua sexualidade (quem foi o RP maluco que bolou isso?) e muda de aparência sem convencer jamais que isso não tem a ver com um sentimento de inferioridade monstruoso.
Alguém criado à porrada para ser "um show" e que, mesmo genial, mesmo criando um estilo, parece nunca ter encontrado um motor interno
para digerir o sucesso, recriar-se e resumir-se, impondo-se até o fim. E, ainda assim, uma lenda. Dito isso, ainda há a maravilha de "We are the World". Deus abençoe MJ.
sábado, agosto 29, 2009
http://www.acapa.com.br/site/
Carta ao Senador:
"Caro Eduardo:
Recentemente o senhor defendeu todo o povo brasileiro no Senado, pela verdade inconveniente, mas necessária. Pela ética.
Mas lembremos que já foi "ético" aos imperialistas colonizarem a África em nome da raça superior. Já foi "ético" matar milhões de judeus em nome da melhoria racial da humanidade. Foi "ético", salvou as aparências, mas não foi correto, custou sofrimento, silêncio, vergonha, exclusão. Não foi moral. Nem sempre o que nos trouxe a tradição, a religião e até a ciência é a verdade completa. E somente uma verdade completa, que inclua gays, mulheres, negros, ricos, pobres, pode ser verdadeira. Odiamos o que desconhecemos, e o mal é fruto do desconhecimento.
Por que motivo os gays mostram-se tanto, beijam em público, por exemplo? (Os heterossexuais beijam muito mais, creia).
É como se dissessem: você me aceita como sou? Minha mãe preferia que eu não fosse assim, a polícia bate em gays e travestis, a religião fanática pede nossa cabeça, acusam-nos de não ter moral e de acabar com a família, culpam-nos pelo que nunca escolhemos, recebo piadas imorais e até agressões físicas de machões inseguros por aí, e eu até fiz com tudo isso uma vida feliz, mas hoje, hoje, você vai ter de me engolir. Me ver como um igual, alguém que quer amor, que sente o mesmo desejo e a mesma necessidade de toque e carinho que você. Hoje, eu sou o que sou.
Há um abismo entre a aceitação das camadas cultas, internaciolizadas (mas nem todos, como prova esse senhor dos Jardins), e as camadas populares, muitas vezes com uma visão restrita de família, religião e papéis sexuais. Restrita porque justifica censura e domínio, nega a realidade e o direito de fala, com argumentos como "Deus, pátria, família", nossos antigos conhecidos. Este caso mostra quanto é instável nosso país de direito: um belo dia decidem que você é imoral, depois criminoso, quem sabe doente.
Aí, pronto, a lei está ao lado do "ético" e do nazismo.
Se as pessoas ricas e com boa formação em geral vivem livremente (ninguém teme mais dizer que os maiores filósofos do século XX, Foucault e Wittgenstein, ou o criador do computador, Turing, eram gays, por exemplo) os menos favorecidos têm de esconder-se e temem a repressão policial.
A polícia negou-se a fazer um B.O., por exemplo, para jovens que estavam em frente ao shopping do ABC e que apanharam feio de um grupo homofóbico, o qual chegou batendo, pois disse que eles haviam "provocado". A simples presença do diferente é tida como ameaça, agressão. Medieval. Ainda tem gente querendo curar o desejo: o senhor quer ser curado de sua sexualidade?
O senhor, sempre ao lado das boas causas, não pode imaginar o sofrimento que representa o silêncio, pois é uma condenação velada, que leva ao ato criminoso, como uma bomba sobre uma passeata. Um povo assim, precisa ser educado, não apoiado com repressão simplista. Um e-mail fala muito de um povo que ainda pensa que pode colocar os que não são como ele de fora, mulheres, negros, pobres, gays, nordestinos; só faltou chamar de "vagabundo".
Se houvesse mais debates públicos sobre o tema, se as escolas aceitassem educação para o respeito sexual, se os jovens fosse ensinados que temos de respeitar nosso diferente e dar-lhe legitimidade, então provavelmente os gays não precisassem afirmar sua condição e jogar na cara de um país repressor sua alegria por ser como todos os outros.
Se os jovens soubessem que os jovens gays são mais iguais que diferentes, que tem os mesmos problemas que eles, e outros, por terem de viver com a ignorância, se esse senhor fosse educado para educar seu filho a aceitar que não apenas as pessoas como ele beijam, mas todas as pessoas, toda a diversidade imensa da vida, negros, brancos, mulheres, homens, travestis, senadores, roqueiros, americanos, então essa criança seria um cidadão melhor. Então não haveria medo e exagero.
O seu lugar sempre foi ao lado da liberdade. Se os gays puderem ter seus filhos, se a família for vista como laço de amor, esse cidadão indignado aprenderá que todos merecem o que ele tem (ou não). A felicidade."
Afonso Jr. Ferreira de Lima
segunda-feira, agosto 24, 2009
Muitos jornalistas são simplesmente "condutores", mas há também os meramente "fechados em sua redoma". Afinal ética é algo bom, não?
Só para lembrar, uma carta de Chauí, que tem a coragem de ser intelectual e falar de política: porque FHC disse que ela não devia se meter no que não entende. Entendeu?
"Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos torna politicamente incompetentes.
Assim, esse direito democrático é inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e recepção das informações pelos cidadãos.
E um direito, como vocês sabem, é sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre particular. Ora, qual o problema?
Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é regido por imperativos privados.
Em outras palavras, estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes sempre ganham a parada.
Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles."
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=347ASP012
Só pra lembrar: "45 escândalos que marcaram o governo FHC"
http://www.consciencia.net/corrupcao/documentos/fhc-45escandalos.html
Negócios de telefonia celular efetuados durante governo de FHC deixaram dívida de R$ 1,1 bilhão
http://www.consciencia.net/2005/1128-telefonia.html
sábado, agosto 22, 2009
"... Pode-se dizer que eu comecei na época do novo romance. Passei um pouco por Duras, um pouco por Sarraute. Através de Duras, tive algumas percepções de Blanchot, sobre a escritura. Podemos vê-las ainda hoje, apesar do retorno da narrativa.
Mas enfim, houve uma revolução da abstração, que se deu mais tardiamente em literatura do que em pintura, e suprimia a noção de personagem, e encarnação dos personagens, a noção de personalidade, de psicologia racional, de construção de uma personagem, que dissipava a noção de narrativa, ou seja, de ação. Todo mundo diz que o teatro é ação. Acho que tudo isso foi dissipado.
Tudo o que fazia parte da engrenagem do teatro, a progressão, a montagem de cada tirada e a progressão de ato em ato ou de cena em cena, tudo isso não existe mais. Ou não existiu mais durante algum tempo. Assim detendo-me a essas escrituras, precisei procurar um material para trabalhar.
Buscar um modo de dar vida às coisas em cena, sem passar pela encarnação dos personagens, psicologia ou narrativa. É assim que através dessas escrituras, por exemplo, de Sarraute, que é realmente abstrata, e cujos personagens não tem nome, é preciso que se recorra à escritura e pensar em tudo que a compõe, que a interpretação dos atores seja baseada na escritura, que a “mise em scène” seja também incluída no que é escrito e que os atores, ao invés de interpretar mal, ou seja, de encarnar, de imitar personagens reais e de dialogar entre eles, se entregue à escritura.
Ví duas coisas muito importantes.
É tentar sentir que, sem dúvida, a origem da fala é a mesma que a do gesto. Deve haver um centro
Tornando-se um monólogo, o que não quer dizer um discurso de uma pessoa, mas um único discurso. Volta-se então à origem do coro da tragédia grega. Então nesse momento, não há mais encenação, torna-se uma audição, uma audição do texto e uma forma de fazer circular... Uma forma de fazer circular o texto que carregamos com o contrapeso dessa matéria inconsciente, matéria que pereceu sua escritura, e deve então perecer nossa encenação e nosso sistema de imagens, plasticamente. É preciso ouvir e estar.
(...)
Penso que, mesmo escrevendo ou lendo, ouvimos sons. Se procurarmos de onde vêm, de alguma parte do inconsciente, então é preciso calar-se. É preciso calar-se e ouvir. É preciso ouvir o silêncio. Então percebemos que, no silêncio, de repente há a presença de homens e de mulheres... Uso “homens” num sentido geral. Essa presença é multiplicada – consideravelmente aumentada, mas é mais que isso – e que a imobilidade não é um pecado maior.
Que há na imobilidade, forças, trocas de forças que se atraem como um movimento. É preciso parar de se mexer, parar de falar, ouvir o silêncio e ficar imóvel. A partir daí, através de leituras feitas sem encenação, a partir daí começamos a descobrir como falar em sintonia com essa fonte interior. E é aí que o gesto se dá, ao mesmo tempo que a fala.
O movimento desacelerado é outra coisa. Ele vem da mesma coisa. (...)
E esta desaceleração adquire também um tipo de reflexão, na verdade, um tipo de atitude estática. Quer dizer, deixa vir a calma por si, que seja para falar ou para se movimentar. Sabemos que quando estamos a esse ponto relaxados, é uma relação com o universo, nós nos abrimos para o universo inteiro. Ou seja, estamos nos relacionando com o espaço da cena e os parceiros, ao mesmo tempo que com o universo, o cosmos inteiro, e estamos abertos a todas as dimensões. Assim o palco vai ser ocupado obrigatoriamente por algo invisível que não se pode analisar, que sentimos sem saber."
sexta-feira, agosto 14, 2009
"Devido ao grande sucesso de público, o espetáculo O MONTACARGAS, faz mais uma temporada no Espaço dos Satyros Dois. O texto - terceira obra escrita para o teatro por Harold Pinter (único dramaturgo premiado com o Nobel de Literatura em 2005) – apresenta-nos dois homens que se encontram num porão à espera de uma terceira pessoa, enquanto conversam sobre futebol e comentam as notícias dos jornais.
Aos poucos, sob a aparente banalidade dos diálogos, vai se revelando ao espectador um vasto conteúdo inconsciente, a partir das sutis indicações dos motivos que os levaram ao porão e a tarefa que ali irão realizar.
A encenação, fruto da pesquisa realizada desde o inicio de 2008 pelo grupo Na Cia. dos Homens, cuja principal referencia é a obra do cineasta francês Robert Bresson, constrói-se a partir de um acurado cuidado com a palavra, aliado ao minimalismo e à economia de meios, que permeiam os elementos que compõem a cena (cenários, figurinos, iluminação...) bem como o trabalho do ator que, utilizando-se do silencio e da imobilidade, busca conferir aos seus personagens uma dimensão arquetípica e simbólica".
O Montacargas, de Harold Pinter – tradução de Braulio Ferraz - direção de César Maier – Com Bráulio Ferraz e César Maier
Espaço dos Satyros Dois – Praça Roosevelt, 134 – Tel.: 11 3258.6345 – 01, 08, 15, 22 e 29 de agosto – Sábados, às 19 Horas
Ingressos: R$ 20,00, R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)
Classificação: 16 anos
quinta-feira, agosto 13, 2009
Acabo percebendo que eu tenho muito a ver com essa cidade. Apesar de eu não querer admitir, e ainda me sentir perdido nos espaços amplos, na geografia nunca finalizada, na convulsão do centro, no anônimo das casas antigas, no barulho incansável. Eu sou São Paulo pela estranheza e pela invenção. Gosto de me ver como um “gaúcho” típico, nostalgia de um pouco de ordem, de um pouco de velhos vernizes aristocráticos, língua culta, política afiada. Nem somos tão nobres, nem a cidade é tão suja. Eu me misturo bem, lá eu era outsider.
Há o duro do comércio, ou seja, tempo. Há as atendentes sérias, os funcionários exaustos de tantos ignorantes, os carregadores de mala que em uma palavra -5178- sabem norte e sul. Tudo funciona. Não me canso de ver a miséria que é como uma ferida aberta nas avenidas, velhos, mulheres, cabeças e pés sujos em meio ao cimento e os carros importados. Eu abomino minha raça e tento ficar ligado ao chão, mas minha mente é turbilhão, como as flores e as folhas que caem. Eu sou essa impaciência. Meu olhar não fixa, mas capta, sou pouco sério. E, em meio a tanto plano e tanto sucesso, só penso em destruir, criar, em estar em outro lugar, será que as pessoas viram o vento levando pequenas folhas na Alameda Santos?
Saio da calçada, uma moto da polícia, emergência. Ao lado da colorida feira, um cadáver ainda vivo. Um celular com TV e GPS no jantar.
E como unir minimamente, sem comprar em bloco fósseis medíocres, quem é mais viajado, quem fala mais línguas, quem compra mais. Como perceber sem enredar-se? Em passagens, imagens,
Uma voz de Jornal invade minha casa do vizinho pelo ar. Toda a multidão com uma mesma mente. Tem um velho ao meu lado, evitar a mudez.
Este trem não prestará mais serviço, todos devem desembarcar, plataformas lotadas, empurra empurra, luta na porta, um homem força sua entrada, a porta fecha, desliza como um peixe para fora, a humilhação de senhoras esmagadas em pé em ônibus lotado. Natureza, mórbida resignação, sem jogo. Querer um bem que seja criar mil possibilidades.
A elite do país, a crítica do país, os blocos de poder em choque, fragmentos e destroços que se remontam, Baudelaireplus no entra e sai do chat, na obra da Paulista, funil de multidões, homem mal educado cospe no metrô, homem bem educado me atropela na calçada, acidadenãopodepararacidadenãopodepararacidadenãopodepararacidade. Vovó quebrou o telefone, mas não foi com você, tava estressada, não foi com você meu neguinho...
Cada um no seu blog, pelo msn, cada vez mais rápido, pela webcam, via satélite, sozinho. Informado, tolo. Inflexível. Tanto saber me tornou burro. Meu corpo, frio, não fala, eu o malho. Em busca de alguém. Abrindo a mata escura. Eu sei mais, você vai tirar meu lugar, não pense que me humilha. O pai não vê o filho, cada um no seu casulo. Eu sou o lobo da cidade, minha própria alma é seleção natural.
E ainda assim, eu nasci nessa teia sem nota de descanso que é beleza e perigo, sem Tábua, na quase-grade, percebendo coisas-em-si negras, potentes, que me puxam, um Deus sem resposta única e filho do amor e do gozo, pedra-Godô, é preciso ser único a cada gesto, único com cada pessoa. Busco ver, tocar, pegar espaços de percepção, para agir. O econômico é a igualdade rasa, transforma tudo, você e ele são mais um pouco.
Nem os artistas, nem os pensadores, os compradores de carro são os modelos da humanidade. O flâneur, o dândi, o marginal são os produtos mais vendáveis.
A disciplina da democracia sem igualdade. A cidade São Paulo mix-mundo das multidões secas, dos diamantes ouro micro chip.
Queda e esfacelamento, pensar depois de Auschiwitz.
Os elétrons do meu corpo, a distâncias siderais, correndo, guardam a geografia afetiva: cheiro, cinema, som do triângulo nordestino, viver prazeres na Consolação, a cidade quer arte. A matéria é música da poeira quark, música incerta.
No fim do conflito burgueses X marginais/artistas, os executivos são artistas de si mesmos e os artistas são comerciantes de sua imagem. Máquina que come tudo, e tudo fica igual a tudo. Selva germânica, ruas de vendeta. E ainda assim eu sinto o vigor da Feira da República, eu observo o belo na árvore negra em ondas contra o vão vermelho do MASP, a estranha glória do Viaduto do Chá soberano sobre cacos da metrópole. Algumas árvores no vidro azul da avenida. Olhares amigos.
Eu tenho a ver com essa cidade, porque nunca sou correto, nunca acabo, e e cada dia aprendo o prazer.
Afonso Jr. Ferreira de Lima
segunda-feira, junho 01, 2009
O futuro do Brasil está na favela
Não nos filhos mimados da burguesia
intoxicados de video-games e mp5
cujo ideal de vida é voar à alta velocidade
entre o lixo e as armas
sem sapatos e sujas
sopranos, filósofos e cientistas
esperando atenção
nas praças, as crianças brincando
um pouco de ar, um pouco
de paz para a criação
livros abertos, as mentes
aprendendo, ensinando
o que cada um apenas sabe
o governo foi comprado
o poder não está com eles
estão sempre vigiando, vigiando sua mente
estão sempre ofertando, o que você não vai comprar
estão sempre falando, antes de você pare pra pensar
A revolução dos livros
a revolução em cada cidade, cada bairro
libertar o aparelho de pensar
contar o passado e abrir o posível
anjos da cidade
tragam uma ciência humana
cujo objetivo seja viver
o ser humano
não para julgá-lo, modelá-lo, torná-lo útil
mas para ampliá-lo, libertá-lo, torná-lo sábio
porque o conhecimento deve ser rebelde, mas simples
que seja também amor
sejam os melhores e lembrem-se
que a felicidade é coletiva
só há um mundo e ele é de todos
encham de flores a vida
Afonso Jr. Lima
domingo, fevereiro 08, 2009

"dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres"
(Lau Siqueira- do livro, O Guardador de Sorrisos)
http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/
O inacreditável SSION:
http://www.youtube.com/user/thession

Li uma entrevista interessante de José Padilha, cineasta de "Tropa de Elite", onde fala da sua "teoria dos jogos". Seu ponto de vista é instigante, sobre o contexto do personagem...
Mas, antes:
Segundo a Folha de 4/02 /2209, no resturante Cracco de Milão um executivo negou-se apagar a conta de R$ 12 mil, por trufa branca ralada sobre (vulgo fungo sobre massa). Carlo Cracco, chef do restaurante, afirma: "As pessoas civilizadas pagam o que compram. Há pessoas que pagam 7.000 euros por uma garrafa de bom vinho, e este senhor não pagou o que consumiu".
Assim, não há limite para a ambição: mesmo que você pague R$ 6mil por um jantar - como de fato o executivo pagou, em busca de um acordo- sempre haverá um status maior a ser atingido.
E a sociedade brasileira é doente por status, discriminação por status, status como valor humano: pode não ser culpa de ninguém, mas podemos mudar as regras.
Fiquei espantado com a Festa de Aniversário de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, onde, com amigos, esperei quase 1 hora por Seu Jorge: o show, aberto, foi para uma multidão, mas os únicos policiais que eu vi ficavam na rua anterior, à mais de 200m do palco. Nos andaimes ao redor do palco, nada. Na frente do palco, onde mendigos, bêbados e nós nos apertávamos, nada, nenhum. Andei até o metrô com um amigo, subimos até o Municipal, somente os dois policiais no carro em frente as barracas da Fiesp. Ou seja: povo é povo, se der briga...
No site da Prefeitura se lê: "Cem homens, além do contingente da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar, farão a segurança do evento". E, na Folha: "A organização do evento espera receber cerca de 20 mil pessoas, a partir das 16h." Pode?
Da mesma forma, na Virada na Paulista - além do espantoso Daniel tocando sou berrante e do chatíssimo KLB cantando músicas de outros e Micheal Jackson em inglês!- o policial que me revistou parecia estar dando um passe: tapa na barriga, tapa nas costas, pronto! Eram 2 milhões e 400 mil de pessoas... Mas e daí? Na TV só sai flashes... (Ainda: os policiais ficavam dentro de "barricadas" que dividiam uma pista e outra da avenida: Se ocorria algo ficavam como barata tonta pensando em como sair do quadrado e tentando enchergar na multidão... Floripa é bem mais esperta: eles ficam em cima da escadaria da Igreja e saltam sobre o mínimo tumulto.)
Na casa de amigos, a empregada faz um discurso sobre como sua rua na Z.L. fica uma semana sem ser lavada e como a Paulista é lavada todo dia pela Prefeitura. "É que a Paulista chama os turistas" - diz uma amiga... Então vamos lavar a Z.L.!
O que eu mais temo é essa massa de explicações plenamente explicadas que as pessoas têm em mente; a defesa dos direitos humanos baseada em uma visão moralista ("bolsa família incentiva a vadiagem"), distorcida, fechada em um mundo microscópico onde o bem, o belo e a verdade já foram decididos, mas estão longe de tudo que é real. "Prefeitura trabalhando" é um slogam, mas na periferia não há lazer nem policiamento.
Assim, são essas simplificações- idéias pré-concedidas que geralmente culpam o excluído pela sua exclusão- que justificam manter as regras do jogo.
O próprio "Tropa de Elite" sofreu com muitas dessas reações tipo "bandido é bandido, mocinho é mocinho".
Uma série de preconceitos, por exemplo, o que confunde "filme de crítica sobre sociedade violenta" com filme de violência banal - como Jay Weissberg, para a "Variety" que fala de um "estilo Rambo" (há de ser muito ignorante para igualar um filme político como esse a Rambo) e fala de "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas" (sic). Vamos filmar apenas Hollywood!
Por falar nisso, o "Hollywood Reporter" diz que a premissa do filme "é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades". Nossa que feio! Um provável esquerdista de elite do "Le Monde", Thomas Sotinel, cai no velho ditado chinês segundo o qual "quando o sábio aponta a estrela o tolo vê o dedo", pois pensa que o filme é "uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais." Como se precisássemos fazer apologia onde morrem tantos jovens -"mil pessoas assassinadas por policiais por ano", segundo Padilha.
Também vi a excelente entrevista da professora Jucileide Rodrigues da Silva, diretora da Escola Oliveira Viana, no Jardim ângela, em São Paulo. Vale a pena trans-Ctrl+V:
"E havia alunos de sua escola que eram membros dessas gangues?
Sim, havia. Os meninos do bairro não têm má índole. Mas pense bem: eles não têm o que fazer, não têm lazer nenhum, passam necessidade porque o desemprego é muito grande, vêem o pai desempregado, a mãe indo fazer faxina, se achar trabalho, comida faltando dentro de casa enquanto a mídia vendendo todo tipo de produto — o melhor tênis, roupas de grifes —, sem que tenham condições de comprar nada.
Daí vem o traficante e lhes oferece dinheiro para vender drogas. Os meninos começam vendendo e depois de um tempo acabam se tornando consumidores. Normalmente, quando eles entram no crack, é uma ida sem volta.
Eles têm a auto-estima muito baixa. Por morar no Jardim Ângela, automaticamente, você é bandido, é marginal, é vagabundo. Eles saem para procurar emprego e ninguém dá porque moram no Jardim Ângela. Tudo isso é que torna o bairro perigoso e esses meninos, marginalizados".
(www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0068.asp)
Idem : José Padilha para a DW-WORLD, no Festival de Cinema de Berlim, 2008:
"Por exemplo, no Brasil, por algum motivo, a maconha é ilegal. Poderia não ser, mas é. Então, o usuário da maconha e da cocaína, quando compra drogas, está comprando de um grupo armado que domina uma comunidade carente.
E ele sabe disso, isso está implícito na escolha dele. Ele está financiando as armas e as balas dos traficantes, sim. Ele está dentro do processo social que gera isso e está fazendo escolhas conscientes que alimentam esse processo. A classe média tem uma grande dose de hipocrisia no Brasil.
Um policial no Rio de Janeiro: quais são as regras às quais ele está subescrito? Ele recebe 400 dólares por mês, é maltreinado, é colocado numa estrutura corrompida de cima abaixo. E a gente pede que ele faça valer a lei em favelas com pessoas fortemente armadas, com grande risco de morrer durante um longo período de tempo.
A mortalidade de policiais no Rio de Janeiro é enorme. Qual é então o comportamento de uma pessoa, dadas essas regras do jogo? É natural que ela se corrompa. Por isso que temos na polícia 40 mil indivíduos e mais ou menos 30 mil são considerados corruptos pela população. O que é verdade".
(http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/02/15/ult3781u4.jhtm)
quinta-feira, janeiro 01, 2009

O segundo filme, "Meu tio", de 1968, já tem outra cara. É uma crítica bem franca ao "modernismo", aos pais que não têm tempo para os filhos, às mulheres fúteis que vivem para a casa e as amigas, aos prazeres da riqueza que nada são sem alguém para compartilhar. Em tudo isso é realmente o clássico despretencioso sobre o despertar do "sonho" iluminista de que a tecnologia ia trazer a felicidade. Afinal, o homem não ia mesmo conquistar a lua? Pierre Cardin não criava roupas de astronauta e dizia: "as roupas que eu prefiro são aquelas que eu crio para (...) a vida de amanhã?"
Essa brincadeira de herói do deserto sideral fica ainda mais visível em "Traffic", de 1971. Depois de assistir uma noite toda a chegada, os homens caminham na garagem em câmera lenta. Agora a sociedade do consumo venceu (a máquina da liberdade ainda brilha, neste mundo novo, como um cigarro nas mãos dos atores dos anos 50), e o racionalismo cômico que já aparecia em "Meu tio" aparece aqui mais forte, mais enredo, mais o fluir do filme e menos o palhaço Tati.
"Parade", 1974, é o canto do cisne - mas um canto cheio de amor- por um mundo onde a inovação era possível, longe da "média" do "cidadão comum" da massa.
(Parêntese: em um bar ouço a um trecho de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos. Os diálogos, que tentam naturalismo "sabe-o-que-eu-comprei-na-feira?", mostram uma diretora amadíssima pelos seus alunos, brincalhões e simpáticos, que aplaudem no final de seu discurso, incentivando o estudo. Sempre o medo dos conflitos reais, que salvaram as séries americanas como House. Reflexo do isolamento dos artistas, no mundo dividido?)
Aquilo que o cinema francês traz de mais importante, tão bem representado por Catherine Deneuve -uma ousada constante - e o "Conto de Natal" de Arnaud Desplechin, o confronto com nosso mal, as incompreensibilidades da vida, a rebeldia (sim, contra o "mercado" imperialista, no fundo, que hoje é um o mercado de idéias simplistas, a mediocridade, a arte-shampoo, ou a arte "arte" só para amigos artistas "alternativos").
Circo-filme (quem pode imaginar maior diferença com o Circus de Britney, essa menina triste de cordinhas que usa qualquer decalque do baú-do-mundo - os simulacros - que algum empresário cria para uma cara nova para o mesmo perfume?)
"Bip não vive de lembranças. Seus combates são do mundo de hoje. Ele é como Dom Quixote, lutando contra os moinhos de vento da existência".
(MARCEAU, encarte do programa de sua turnê pelo Brasil, 1997
http://www.cialuislouis.com.br/tf-marceau.htm)
O filme é genial por transformar mágicos, mímicos, acrobatas, cantores, orquestras, hippies, crianças, cavalos, imagens, conceitos, fluxos de circo em filme, de 85 min. As crianças pequenas, no final, brincando com tinta -além de uma porta dizendo "o circo não acabará nunca"... - é uma lembrança do que é ser artista. Sempre haverá um coração aberto para ouvir nossa canção.
Fazer arte ainda pode ser divertido.
terça-feira, dezembro 30, 2008
Diamantes
São um milhão em São Paulo.
São 8 mil, eu li no jornal.
Um milhão. Mas não só mendigos de rua, “sem-teto”, como é politicamente correto. Os favelados estão no “milhão”.
São Paulo sustenta esse país. A gente que trabalha... eles vêm de onde?
De onde não tem comida.
Claro! Mas a cidade não dá conta.
Molhou a mão na psicina. Maldita hora seu pai a obrigara a ficar na festa com os amigos esnobes.
47%, sabia? 47% da renda. Com 10% da população.
Você quer casar comigo?
Não seja ridículo.
Metade queria, ser fraca.
Ok. Então, e os outros?
Outros?
Você nunca leu Lacan? Os outros, aqueles que você pensa que são você. Comprei na Cultura.
Não seja riículo.
A noite estava preto e branco, folhas e grilos.
O brasileiro é preguiçoso por natureza. O governo fica dando bolsa isso, bolsa aquilo... vão ficar acomodados só mamando...
Essa gente come torrão de açúcar e pede comida na esquina.
E adianta dar teatro pra essa gente? Se der comida vão jogar um no outro. Essa gente tem de dar passagem de volta pra sua terra.
Nazista.
Grilos, lua com pingos.
Somos jovens, precisamos de sexo.
Você não é tão jovem. Passou dos 30.
Mas preciso de sexo. E sai muito mais barato, para mim, pelo menos.
Tá bom.A água da pscina ficou cheia de bocas.
O Muro
- Fala inglês?
- Já leu Clarice Lispector?
- Passou no vestibular?
- É magro?
- Tem internet?
Essas eram as perguntas. Para entrar. Uma pessoa podia responder não a uma delas. O muro tinha 6 metros de largura. Chumbo em ambos os lados.
Quem passasse, chumbo. A cidade ia ficando mais cinza a cada dia. Lixo pelas ruas. Homens magros estendendo a mão. Carros prateados, impenetráveis.
Crianças negras dormem sobre o metal da Paulista.
No bairro pobre, milícias armadas tomam as casas. Grupos sem-teto protestam frente ao Banco de vidro, a polícia usa o gás fatal. O muro segue, dentro, pessoas nervosas votam no líder forte. Aceleram a construção, grupos protestam, são chamados "retrô" pelos jornais.
Cada pessoa, para entrar na Grande Loja do Dentro, deixa seu cérebro, depois sua língua, finalmente mãos e olhos e ganha jogo de futebol, seriado americano e DVD.
A marcha vai até a Livraria Cultura. Intelectuais pararam tentando impedir o muro.
Alameda Glete
Para Ana Maria Alfonso-Goldfarb
Acabara de sair da exposição do Einstein. Lembrara que matéria e energia são a mesma coisa e que a viagem no tempo é possível. Caminhando distraidamente pela São João, pensei que adoraria voltar ao glamour dos cinemas de gala, barquinho, violão. Minha intenção também era descobrir o segredo de Alexandre. Um cofre de ouro, com o segredo alquímico, que Alexandre Magno mandou ocultar no mosteiro de Amorium, na Frigia, segredo que Aristóteles aprendera de Apolônio, o qual o descobrira na Babilônia, onde Hermes I o escondera quando de um grande dilúvio. Se minha mente, por um segundo, lembrou de Caetano, pensou em ir na Sala São Paulo, não sei. Entrei na alameda Glete e não lembro. De repente vi por dentro todas as coisas e uma moeda tinha energia para iluminar a cidade. Vozes de amigos, multidão, Levo três horas todo dia até o Carrão, Esse povinho que mora na periferia, Acordo às cinco, trabalho doze horas, chego às oito e meia em casa, não tenho amigos, Não vou ao centro, só tem mendigo, gente feia e crakero, Se precisa de médico pra o bebê na madrugada, só tem à uma hora de distância, Por que os pobres se matam?, Eu cresci comendo todo dia mingau de fubá, era o que tinha, Eu comprei o vestido com saquinhos de pérolas da Vogue, Nordestino filho da puta volta pra tua terra! A alameda Glete não saia da minha cabeça. Vi tudo. Street viveu no Palácio, deu casa aos operários, os jovens estudaram na casa, a ditadura separou, apagou a memória, uma cidade do pensamento. Mundo abandonado. Cai em pedaços, as águias morreram, a água contaminada. Se o Sol dá vida a tudo, o ouro, seu similar, também dá vida e saúde. Eu vi. Só podia estar lá dentro. Ninguém percebeu ainda. Olhar página a página. Kafka, Platão, Bukowski, Borges. Decidi viver trancado. Livraria, vivo aqui, à noite busco o Tesouro.
Afonso Junior Ferreira de Lima, 2008

Alameda Glete e outros de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
segunda-feira, dezembro 29, 2008

Pela sorte unidos
No alto dia e no breu
Somos felizes, você é meu
Mistério você aqui
Meu lugar é tão outro
outro, outro, tão longe de você
Como a noite nos fez
tão longe estar, amor?
Kim
Surge lá fora o sol, não!
Chris
A lua no céu a brilhar!
Kim
Canta a manhã!
Chris
Estrelas se vão!
Kim
Ainda tremo...
Chris
... de paixão!
Estamos no céu!
domingo, dezembro 28, 2008
Bienal: sobre o vazio e outras coisas***
(AS: O que está acontecendo com Israel? Alguém pode me explicar que atrocidade é essa?)
***
É com certa ironia que o destino coloca juntos um grupo que evoluiu até a sofisticada linguagem do vazio e outro que quer entrar, está tão fora que não sabe bem a etiqueta, odeia alguma coisa invisível e usa essa linguagem como quer... Claro que é irônico a linguagem da "participação"- nascida de uma sociedade dadaísta/"anarquista" anti-conservadora- de um mundo pós-super-moderno virar "agressão" num contexto tupiniquim de exclusão... A arte chama participação, temos jovens doidos para ser parte de alguma coisa...
"Tanto na Bienal, quanto na Belas Artes, fui só para ver o que ia rolar. Mas, quando percebi, a lata de spray já estava na minha mão"- diz a rainha do branco.
"Vândala" ou "heroína dos descamizados"? "Pega mata e come..."
Sim, na "Bienal do vazio" houve a polêmica (horrenda) prisão de Caroline Pivetta da Mota (que os jornais chamam de "a pichadora") por quase dois meses. Ao mesmo tempo, Cholla, um cavalo de 23 anos arrebata o Prêmio Internacional Arte Laguna, na Itália ganhando de mais de mil artistas do mundo todo.
Assim, começam as simplificações. Não é a deixa para falar mal da elite cultural e da falta de critérios da arte?
A Bienal começou com o tom da crítica. "Crise financeira da instituição, que não pagou grande parte dos gastos da edição passada, inclusive com curadores estrangeiros", anunciou a Folha (9/11/2007). "A atual presidência da Bienal esteve envolvida em várias polêmicas, neste ano, e chegou a assinar um ajuste de termo de conduta com o Ministério Público, por cometer irregularidades ..." (8/11/2007)
Então a proposta desde sempre foi bem interessante: um debate até sobre o formato, a gestão, o patrocínio desde o modelo pai-senhor americano, etc... (Lembro de um artigo de Ivo Mesquita sobre isso, mas não acho agora...)
A arte no mundo todo se encontra em crise, provavelmente, porque os artistas vivem dentro das bolhas de luxo -linguísticamentosas, claro- cada vez mais fechadas, e o "atrito" com o real da "massa" sumiu, desde que a política real desapareceu da "opinião pública", coberta de produtos paradisíacos e tele-jornalvela.
Foi esse um daqueles momentos em que a violência oculta vem a tona em toda sua feiura: como disse o Ministro Paulo Vannuchi , "Daniel Dantas ficou preso muito menos tempo".
A maioria das críticas caiu sobre a curadoria, mas não vejo claramente qual sua suposta "culpa" neste caso. "O parque Ibirapuera é uma área de preservação ambiental e o Pavilhão da Bienal é um prédio tombado e monumento histórico estadual (...) Há uma lei e transgredi-la implica risco" -diz Mesquita em carta à Folha em 18 de dezembro. Ele chamou o ato de "arrastão" e assim descreveu o evento:"40 jovens invadem o pavilhão da Bienal como um arrastão, derrubando tudo, agredindo pessoas fisicamente, com o objetivo de, segundo a convocatória pela internet de seu líder Rafael Augustaitz, pichar o segundo e o terceiro andar, destruindo todas as obras. "
Estranho foi a frase da curadora Ana Paula Cohen na entrevista coletiva que antecedeu a Bienal:
"Estão convocando gente da periferia da cidade para fazer isso, e essas pessoas não sabem no que estão se metendo." (13/12/2008) Ameaça? Constatação? Soa um pouco "nós e eles"- será o caso de negar que foi criado um abismo? A falsa idéia de que "todos são iguais" aqui pode esconder a oportunidade negada de muita coisa: somos iguais em tudo, com os mesmos direitos, mas:
"Pesquisa realizada na Zona Sul de São Paulo pelo Departamento de Serviço Social da PUCSP e citada pela mesma reportagem da revista Carta Capital, mostra que '81% dos bairros pesquisados não têm bibliotecas públicas, 98% não dispõem de teatros, em 96% não há cinemas. Bancas de jornal também são raras. Das famílias entrevistadas, 39% reclamam que seus bairros não contam com delegacias e 46% dizem que não existe ronda policial' e ainda 'das casas visitadas, 78% apresentavam mais de quatro bares nas proximidades (p.14)."
(Telma Falcão, 2003 - Núcleos de Apoio a Pesquisa da Universidade de São Paulo.
http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&task=view&id=809&Itemid=96)
Lembro-me de uma amiga que tentou falar sobre a situação das escolas da ZL de São Paulo (onde mora) e foi censurada por outros moradores que não querem falar mal da região. Será o caso de esconder que a polícia perdeu o controle sobre Ipanema, negando-se a responsabilizar-se pela festa de Ano Novo lá, para preservar o turismo?
Por outro lado, Pedro Alexandre Sanches e Ramiro Zwetsch , na Carta Capital fazem uma mistura fina transformando tudo numa questão de luta de classes, numa suposta rebelião contra uma "elite" egoísta. Como se Ivo tivesse culpa de ter uma história sofisticada. (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=2947)
Como ele responde, na carta: "Contraditoriamente, o Estado não lhe assegurou uma moradia até agora, conforme se depreende da lei que a mantém na cadeia! "
O que há é sim uma contradição "do sistema" (mas quem assina?): o patrimônio recebe leis de proteção e as pessoas não tem onde morar.
Elite mesmo é, por exemplo, o tal Instituto "Liberdade"(sic). Empresários que não querem pagar imposto (e, portanto distribuir renda) e chamam isso de "liberdade de impostos", desejam ganhar com a saúde e perguntam "É o Estado o melhor provedor de saúde?", cria um think-thank para esparramar idéias contra o Estado com as leis do Estado e afirma: "Travamos uma disputa de idéias da sociedade contemporânea, uma disputa pelas idéias que irão favorecer os progressos da liberdade". (?)
Elite mesmo é quando "o volume de recursos que chega aos bairros ricos é em média 4 vezes maior que chega aos bairros pobres."
(http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/24/ult23u2015.jhtm)
O que percebo desse líder -citando Nietzsche- que comanda as pichações é que apropriou-se da linguagem "poser" da arte sem idéias (ou seja, arte que não representa postura perante a vida, e , portanto tem forma que não é "estética", não causa impressão aos sentidos) e da linguagem "pró-revolução" daqueles que já não vêem um diálogo possível (PCC, que leu seus 3 mil livros de esquerda, incluído). Talvez um caso de auto-promoção, como afirmou Mesquita, mas como dar-lhe crétido, afinal, não é um "membro da elite?" Isso tudo (uma rebelião confusa) enquanto a direita criminaliza qualquer reflexão contra a concentração de poder.
Salva o grupo o "pichador" Tatei que diz: “A gente não está de bobeira. Agora todo mundo está metendo o pau, mas ninguém quer saber como a gente vive". Caroline disse à Folha que picha “para o povo olhar e não gostar”. Então é isso: destruir o patrimônio é ir contra os direitos humanos do novo mundo, patrimonial.
"São manifestações de grupos que querem fugir do anonimato sinalizando sua existência, sua territorialidade" -diz o Ministro, evitando entrar no fácil comentário de um artista de que cita Jean-Luc Godard ("Cultura é regra, arte é exceção"): "A Bienal ao apagar os pichos está situad[a]e sitiad[a] no terreno da cultura, já os pichadores, eles estão no terreno da arte".
O picho "Abaixa a ditadura!" (sic) lembra o que o húngaro Ferecnzi dizia sobre o trauma na criança, uma "confusão de línguas": na linguagem da arte contemporânea, assim como do mundo contemporâneo, tudo entra em questionamento, menos a questão política da desigualdade; na arte-ataque da pichação tudo é política, já que não há espaços de diálogo na sociedade dita "aberta" (sonho do Instituto "Liberdade"). O trauma nasce não só da violência, mas da negação da violência, da sua "reação de desmentido".
É uma questão de distribuição, mais investimento público e não pode ser engolido pelo discurso, esse sim elitista, de uma arte do norte, pós-Estado de Bem-Estar Social, "o que é arte?"
E o cavalo? Se a arte contemporânea não tem mais nada a ver com o casamento hegeliano do "conceito" com a "forma" , "a individualidade" romântica do artista, mas apenas com seu intuitivo julgamento estético na escolha de formas, e se a arte está na recepção que "monta" o texto, já que até o lixo e a natureza podem ser belos, nada impede que o belo venha do acaso. Ou seja, fujam da estéril crítica ao vazio, simplificações e luta de classe falsa.
terça-feira, dezembro 23, 2008

Para a minha geração ela representou um ícone de poder- soube sintetizar, principalmente para mulheres e gays um modelo de força, com a mensagem "express yourself", contra tradições mofadas, bom senso e puritanismo (claro, isso era também indúsria cultural num mundo pós 68).
O pop internacional era nosso ambiente cultural, nossa "tradição".
Para essa geração anos 2000, com house, Britney (que tenta ser o mesmo para adolescentes maluquinhas) e rap, a oferta é muito maior- e, graças a Deus, a música "étnica", a brasileira, ressurgem com força...
Depois de tentar produzir reflexão na nação em pânico com American Pie ("grande fracasso de sua carreira"), em que ficava visível o cansaço da estética Erotica e a busca de um novo papel (inclusive no cenário pop: techno, neo-punk, romântico?), perguntando que país é esse e recontando o sonho primitivo norte-americano de ser rebelde, on the road, ironizando o "sonho" (e a arrogância), reencontrou seu caminho como entretenimento bom com Confessions on a Dance Floor, onde, para mim, lembra que era uma "disco". Quando ouvi Hung up percebi que não estavam vendendo apenas imagem: era delicioso!
No que deve ser uma auto-ironia, ela agora assume vender "doces", como numa loja. Busca modernizar-se com o hip-hop e o R&B, uma natural re-invenção, mas que anula até certo ponto a "descoberta" do "retrô" 80´s, estético, sonoro e coreográfico. Mais um período de transição...
Imagino que o último show em São Paulo foi o mais animado, em que ela, sem resbalar num palco molhado, elogiou a platéia e saiu enrolada na bandeira do Brasil. E teve a capela de Like a Virgin, realmente emocionante. "Vocês são a melhor platéia que já tive".
Talvez tenha faltado, aquela re-invenção mais ousada. De qualquer forma faltou identidade no show, ela, a senhora em criar novas personalidades, como em Confessions, onde a era 80´s volta com tudo... (as malhas de Gaultier são históricas!)
Mas Madonna tenta e sempre continua. Adorei ver ela se divertir no palco - mesmo com "fuck this rain!" Vendendo bons doces.
terça-feira, dezembro 16, 2008
Quem poderia dizer que aqueles dois simpáticos senhores, no café da Cultura, estavam pensando os destinos do mundo?
- Vocês deviam ser como nós! Vamos lá! Vamos transformar o mundo em uma ditadura sem limites. Acabamos de lançar o Centro Cultural Universal, investimento de 10 bilhões de dólares, aço escovado e vidro, teto removível, 6 bilhões de livros. Mas as reportagens políticas são retiradas.
- Não sei não... Aqui também é assim... Viu o caso do cartunista demitido por falar mal dos Bancos?- E nada de “poluição espiritual”. Erotismo e gente falando mal do passado são proibidos.
- Isso é estratégia antiga, custa caro. Deixe-os muito ocupados para sobreviver e estarão muito cansados para tentar entender. Tire deles qualquer ordem maior capaz de investir no bem comum, de modo que subir a escada seja tarefa de cada um. Da favela para a universidade.
- Isso vende bem, é “moral”, ética do trabalho... E vocês, no fundo, controlam também a informação, não? Digo, há empresas gigantes, diversificadas, que mandam em estados inteiros, não?
- Se fizeres bons acordos com super-poderes de informação, de modo que os conceitos, a linguagem, a cultura desapareça, e nada faça sentido, até que percam sua identidade e regridam até a animalidade, depressão e violência...
- É prático, até. Esse negócio de ter de abrir livros da Amazon, perseguir escritores piratas, cansa... Adoro como vocês criam uma identidade obcecada, o desejo, incentivam a frustração, o prazer individualista, até a solidariedade virar uma piada. A atriz famosa só pensa em cinzeiros de prata, carros importados, viagens e drogas e o cara da favela só pensa em ser a atriz famosa.
- Sim, claro... A violência se espalha no mundo abandonado. Deixe 25 anos Nova Orleans sem investimento e a própria natureza se encarrega de acabar com a pobreza...
- E a classe média?- Estarão endividados para comprar celular, roupas caras e pagar academias... O belo deve ser oferecido num contexto de a-pensamento. Quem dá a arte é quem dá a verdade. Mas, enquanto isso, deve retirar todas as limitações legais contra o poder das corporações, de modo a que se você poluir um rio, não tenha que pagar por isso...
- É, dá inveja desse mundo de vocês. Bem, vamos continuar nossa discussão no hotel. O Poder Global está todo lá.
Afonso Junior Ferreira de Lima
dez 2008Participando do Concurso da Cultura...
Mais em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos_cultura/index.asp?autor=EJFDCC
domingo, outubro 19, 2008

Ambas as celas eram cubículos gradeados, escuros, úmidos e muito frios. Misturavam-se restos de pães, banana, urina e fezes, onde, por vezes, passavam ratazanas em busca de alimentos. (...)
Eles foram ainda trocados de cela uma três vezes durante a noite, passando também por identificações, fotografias, etc. (...) O mais duro durante a noite, porém, foi suportar o frio lancinante, que congelava seus corpos permanentemente tiritantes, sentados em uma bancada gelada, durante toda a noite. Dormir um pouco era um sonho impossível."
A miséria não existe.
Faz tempo! Nesse ínterim os Estados Unidos se tornaram uma nação democrática (conheço uma professora americana que dizia não votar porque Bush e Clinton eram iguais), a idéia absurda de que mercados mais-que-livres iam melhorar a vida de todo cidadão (como coloca Delfim Netto na Carta Capital) caiu bem fundo, e a Veja desandou (é um fenômeno da auto-superação) para as bordas do racismo chamando a cultura de Evo Morales de "pré-histórica".
Onde estará o sorrisinho da Época, que na sua revista de julho de 2008, dizia que havia um espécie de invasão de ideologia no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), claro, com a ala "heterodoxa", que defense mais presença do governo, dizendo que o debate de idéias não pode se transformar em embate de poder (como coloca Edmar Bacha, economista do Plano Real). Como se deixar de investir durante 25 anos nos diques de Nova Orleans não fosse também ideologia e poder. Vamos retomar da parte onde o chefe do mundo admite que tudo que se viveu nos anos 90 era ideologia?
"Em outras palavras, você descobriu que sua visão do mundo, sua ideologia não estava certa, não estava funcionando?", questionou Waxman. 'Exatamente, é exatamente isso que me deixou chocado, porque eu estava indo para 40 anos ou mais de indícios consideráveis de que isso estava funcionando excepcionalmente bem."
www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081023_greenspan_errorg.shtml
(Provavelmente ele estava olhando só a mancha vermelha, e não Jupiter...)
Ainda, uma novidade: vou criar o termo assédio estomacal. Um homem me pára no Supermercado, pedindo arroz e feijão, sei que precisa para a família. Uma senhora ganha metade do meu sanduwishi na saída de outro Supermercado. Dou uma linguiça para outra mãe com fome na rua. Hei, alguém vai fazer alguma coisa com esses 50 milhões de pobres do Brasil? Há duas coisas que me revoltam: o nojo de pobre que nasce como filho indesejado (?) da publicidade num país dividido e falta de democracia. Na sociedade falsamente livre, a pobreza desapareceu, saiu da mídia, é "matéria non grata". A miséria não existe. Talvez essa seja toda a mensagem de "Ensaio sobre a cegueira": há coisas, ainda, essenciais...
Em São Paulo, ainda não me acostumei de ouvir como primeira pergunta "qual seu bairro?", como uma identidade.
"Onde você mora? Parelheiros? Onde fica isso?" - diz um personagem do Pânico. O que pode ser uma piada sobre gente se afogando com auto-ironia, acaba sendo o nojo de pobre que vem se alastrando na nossa sociedade... lembra dos "cajuzinhos", do Caco Antibes? Será que algum dia teremos vergonha de fazer humor com a classe social assim como temos- a duras penas- de fazer com cor de pele e gênero?
É a eugenia pós-moderna, eugenia do consumo, do bullying de "status", "padrão-TV", eugenia fashion: se alguém ainda duvida que isso exista...
"O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul propôs sete Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADINs) contra leis orgânicas de municípios gaúchos que estimulam a eugenia em suas políticas educacionais. (...) Os municípios gaúchos que introduziram o estímulo à eugenia em suas leis orgânicas são: Barra do Quaraí, Uruguaiana, Passo Fundo, Riozinho, Muliterno, Ernestina e Ciríaco".http://www.rsurgente.net/2008/03/ministrio-pblico-combate-eugenia-no-rs.html
Se o capitalismo é dinheiro gerando mais dinheiro, os abismos crescem, desconhecer o outro é odiá-lo. Uma democracia com tão pouca voz do povo que qualquer fala do político vira verdade- e meus amigos repetem "essa polícia é um bando de vagabundos..." O Serra simplesmente desmoraliza a polícia colocando uma contra a outra e ainda dá uma da durão, apagando o rastro da não-democracia.
"Segundo Paulinho, a greve é justa porque os salários da corporação em São Paulo estão defasados e que o governador tem que negociar. 'Serra é quem quer fazer cortina de fumaça para esconder a responsabilidade [...]
Ele foi eleito para resolver problemas, não só para andar de helicóptero por aí", (...) Não planejei nada, ele que não negociou, é só ver os fatos. O problema é que o movimento tende a crescer caso as negociações não evoluam', disse". www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u457461.shtml
Enquanto isso meu estado afunda no lado negro da democracia- que não- quer- mostrar:
"Há quase um mês em greve, para os bancários do Rio Grande do Sul era só mais um piquete em frente a Agência Central do Banrisul. Ninguém poderia imaginar que o local seria palco para mais um exercício do Comandante-geral da BM. O sinal foi dado quando um policial militar, sem a presença de um Oficial de Justiça, como manda a lei, tentou abrir as portas lacradas pela greve.
Em poucos minutos pelo menos cinco viaturas com polícias da Patrulha Tática Especial com bombas de gás lacrimogênio, escopetas, escudos transparentes e cacetes reluzentes tomaram a entrada do Banrisul".
www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/431084.shtml
Eu não quero viver em um mundo onde a informação gera apenas depressão ou ansiedade. Em um encontro da UNICEF com grupos de toda Zona Sul de São Paulo fiquei por dentro de outras violências. Fiquei feliz de poder falar um pouco disso em contos no concurso da Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos%5Fcultura/index.asp?autor=EJFDCC
quarta-feira, outubro 01, 2008
Primeiro exercício - Imagem
Se sou fragmento
como formar imagem?
Sou a renda perdida no espaço
a anatomia na sombra e no sonho
Por que motivo me acharia?
Quero ver o mundo e estar vivo
nesse selvagem correr de folhas
(Evoque o espírito da mata
a cabeça acha o corpo de barata)
Segundo exercício - Som
A cidade é moderna
A cidade se esconde dela
A cidade é outra e bela
Música do desassossego
Terceiro exercício - Buñel
Quem cortou o teu olhar ao meio?
Por que não pertencemos ao chão?
E se não fosse necessário?
Andar sem fim e sem paz
Produzir? Por que?
Arte, produtos, pessoas
há coisas vivas lá dentro
primavera em São Paulo
menos mais e mais melhor
por que sabemos tanto
que nos vale saber tudo?
Gênio saber perguntar
e se eu me perdesse vez em quando nas calçada
se achasse luz suave nas ramagens
silencia a morna música dos peixes
adeus ao olhar sem escuta
motores de dizer sem voz
vazio´ olhar a pele conhece
não o prazer fácil de um disparo químico
mas o prazer sujo de muitas vidas humanas
Sempre é crise um mundo novo
Mas se não o conhecemos, quem seremos?
Quarto exercício - Mulher com xale
Por entre nuvens desço até a cidade
vejo o Tietê que recebe carros, vidro e o lilás da tarde
Deus, meu Deus, que menina é essa, encolhida no chão?
Chão, chão, esse chão de pedra, fluxo e metal e Niemeyer
Por que existem homens invisíveis neste mundo em transição?
Por que comes esta gosma verde e buscas comida no lixo?
Por que um rato se move ao redor da cama de trapo onde dormes?
Por que dormes sobre papelão e tua barba é grande?
Por que tuas coxas largas estão riscadas de negro e cinza, e tu escondes a cabeça como um animal em panos?
Por que teus pés têm manchas escuras no frio?
Por que dormes sobre o degrau da escada, com tua cabeça sobre o papelão?
Por que meu olho já não te vê, eu que sou aranha da teia?
Se cada flor tem seu aroma e o mundo precisa de todas?
Onde está a poesia da liberdade que respira, vê e dá as mãos
Se a cidade quer subir e não há tempo que não seja pouco
Se mais e mais é infinito e cada ser dorme e duvida
Quem criou o certo e o errado, o valor zero do invisível?
Eu quero sentir o calor do teu corpo
teu corpo negro com vida e correndo comigo
E se pedirem a Alma, a lógica e a letra
eu as queimarei todas no meu beijo de terra
Saúdo a terra e tudo que há em ti
Anjo da noite, coração oculto, irmão vivendo da treva
Teu coração é um tesouro silencioso.
Afonso Junior Ferreira de Lima
domingo, agosto 17, 2008

“Entrar no metrô que é uma parede humana e ser esmagada com um braço na tua cara, o prefeito acha nomral? A gente vive no limite do stress!” - quando uma amiga me disse isso, pensei que estava exagerando.
Hoje liguei para a Eletropaulo porque dois meses minha conta chega com atraso devido a um erro de CEP. “O senhor tem de ir na agência em horário comercial”. “Meu amigo, em horário comercial eu estou trabalhando”. “É assim, não há o que fazer”. Argumentei que se um ser humano fez esse sistema maluco, um ser humano era capaz de desfazê-lo. Ele concordou que eu não devia pagar multa por um erro deles, mas não havia o que fazer. Então, uma simples ligação faz você se tornar o Átila. Disse que iria reclamar para a agência reguladora caso atrasasse de novo e ele concordou em anotar minha reclamação. Cidadão - ninguém.
Lembrei-me de quando fui instalar internet em casa a primeira vez. O modem, o provedor e a banda larga eram de empresas diferentes. Cada um me mandava fazer uma coisa e nada funcionava, um colocava a culpa no outro... Descrevi mais de cem vezes os detalhes – coloquei X em Y, cliquei em N, plantei bananeira etc; "não, eu já coloquei aí; o provedor disse que era isso; não, isso eu já fiz". Nenhum primitivo mecanismo de registro, falei a mesma coisa para cada novo e novo e novo atendente. Quase uma semana para alguém entender, "ah, já clicou alí?"
(Aliás o que há além da Teleforçabiônica? 3G ainda não vale a pena, Net "não está disponível no seu bairro", bem central! Microhard-Monopólio!)
O que mais me assusta nessa sociedade “liberal-fascista”, criada à mídia insípida, é ouvir jovens que só tem respostas individuais para problemas sociais. Em São Paulo é ainda mais comum. Os quase-pobres arrumam algum emprego se tornam quase-mais que seus irmãos quase-nada e logo descobrem que “os pobres são pobres por que não trabalham” ou “a esquerda vitimiza essas malandros que só querem bolsa família”. São Paulo é uma bolha de consumo que isola a todos do Brasil e da outra São Paulo, logo ali, mas há anos-luz do cidadão da Paulista.
Nada mais normal nesse contexto, então, do que ver um homem-cadáver na rua, com seus ossos a mostra, dormindo no cimento, parecendo um fanstasma de Auschwitz, enquanto o governo fala alegremente em “higienizar” o centro porque afinal esses vadios só sabem fumar crack, o que nos envergonha e estraga a paisagem. Alguém falou no Estadão sobre por que motivo alguém fuma crack, quem são esses moradores de rua que chegam na farmácia pedindo fraudas para vender por R$ 2,00 na esquina e queimar seus neurônios? Não, é preciso falar da estética, a “Cracolândia” – nome entre o irônico e o simplista, que mascara um mundo todo, jogando-o para o lado do “outro sem volta”, com um adjetivo-estigma - veio do nada e volta ao nada. Uma amiga diz que em SP há o "status de bairro", quando chegou na sua faculdade no primeiro diz a primeira coisa que lhe perguntaram foi "Onde mora? Você pega metrô? E depois ônibus? Quanto tempo?"
(Urbe-caos... Mega-empresário quer Estado? Planejamento- além do próximo produto? Inclusão- além do seu nome na Fortune? Reforma- além de menos imposto? Cada um por si e todos por mim... Na democracia dos mega-empresários, do lobby corporativo e dos "compre-Batom!"- equalizador de mentes, o bem comum é passado. Se as pessoas passam fome é porque há outras prioridades... Não está tudo bem? Não será tudo resolvido? Não pode esperar? A distância geográfica de São Paulo cria a "dor distante" do nunca visto, a explicação "racional" do inominável. A depressão ultra-consumista da "psicose" fragmentadora do jornal-esquizo-bricolage. Verdrängung, recalque, empurrar o real incômodo. Quem não crê no poder devia ler sobre o Consenso de Washington, tanque que achatou os anos 90. O capitalismo, alguém já deve ter dito, é um sistema de pensamento que mata tudo que não é produtivo, cala os indecisos, suprime os fracos, afasta os possíveis contraditórios da política do progresso: sem reconhecimento do estranho, surge a crença e a conclusão fechada de uma experiência particular, sem diálogo há conflito.)
A elite de São Paulo tem uma forma “amistosa” de lidar com isso, é o lado da biopolítica clean que cria projeto social malandro, afinal são preguiçosos por natureza. A miséria é um fato histórico e social cientificamente explicado e complicado demais para resolver. O racismo novo é feito de caras “feias”, "da Zona Leste" gente “sem cultura” e “tapada”, que atrapalham a circulação fantástica de informação e capital do primeiro mundo, o eixo Paris-Londres- São Paulo. É a linha FHC, puramente consciente dos problemas do mundo -pensando em um plano técnico para elevar algum % em tantos anos que irá... - e capaz de falar as coisas mais fascistas, os discursos mais classistas contr a incompetência dos operários barbudos no poder.
A aceitação resignada de que são dois tipos de pessoa, que pena, alguns que não entendem, não falam bem, não são belos (e principalmente não se esforçam), e os que entendem, falam, sabem, são: o inverso da democracia, baseada na participação. Miséria é ruim, mas não é comigo e pode esperar. A elite gaúcha, hoje enredada em corrupção, é mais bruta e mais tacanha (financistas robóticos, empresários-coronéis com ambições "globais", generáis da Inquisição), e por isso, mais ridícula, simplesmente manda bater. Comte: a moral manda que todos trabalhem para o progresso, quem critica o progresso merece chumbo. A única cultura é a Veja. Para um estudante que foi agredido e preso pela polícia em manifestação pacífica, um senhor de meia idade diz "Bonito, heim?" Um amigo dizia: "A culpa é do povo, na Europa o povo sabe votar (será?)"...
(Em comum, a ilusão da felicidade solitária, filhos sem afetos, pais ganhando dinheiro: uma juventude linda, fanática, informática, celulática, malhática, trancada no quarto, bebendo, batendo o carro do papai, tomando ecstasy e "buscando diferencial" pela força. Epidemia de jovens damas- de -ferro executivas e mussolini-clintons. PS: Por sorte há também jovens espertos, que sabem que há vida além do video-game...)
Democracia agora é: marketing de massa, vender meu conceito ao povo. Jovens adultos que falam "objetivamente", querem resultado, rápido, toda dúvida atrapalha a venda. Não há nada de podre na Dinamarca. A classe média brasileira é esse animal estranho - "saí do buraco, seu pobre" é mais que "como vamos tapar o buraco?" – ouvi de um jovem de 18 anos: “Aqueles protestos contra uma represa na África, deviam matar todos, estão atrapalhando o desenvolvimento”- mesmo preso entre empresas déspotas e governos de direita, parece não ter o mesmo contingente informado e rebelde da classe média norte-americana e européia, ou pelo menos sai menos à rua, e pode dizer tranquilamente: “os nordestinos deviam voltar pro Nordeste” ou “se apanha da polícia é por que é baderneiro”.