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sexta-feira, junho 30, 2006

Piazza e o celular

Hoje o músico Piazza fez o pré-lançamento de seu álbum "Percepção Oculta” no Foyer Nobre do Theatro São Pedro. Foi acompanhado por Luis Palma, no violão e Fabian Ciardelllo na percussão. A alma espanhola, mesmo tocando Mozart ou Luiz Gonzaga, é um misto de sedução, melancolia e ritmo violento. Para não dizer que não falei das flores, de Vandré, foi um momento alto. O músico parecia cavalgando sobre as notas, trazendo uma deliciosa brisa árabe e tribal, ainda mais com a percussão ousada, feita de tambor, leque e (sim) uma espécie de tanque de plástico. Muito bem colocado!

Mas além disso, um triste aspecto saltou aos olhos. Um celular tocou, com as músicas moderninhas de agora. E pior não foi isso: a pessoa atendeu e seguiu fazendo seu negócio. Logo depois, outro celular. Tudo bem que a pessoa esqueça, mas falar! O mesmo aconteceu comigo quando fui ver Brokeback Montain. Um respeitável senhor falava sobre o escritório enquanto os cowboys decidiam seu destino!

Essa me parece uma arrogância muito mais perigosa do que aquela que fala Thackeray a respeito dos ingleses vitorianos, seus contemporâneos. Eles, pelo menos, tinham a consciência de estar em grupo, e precisavam manter as aparências, e, em função das hierarquias, dadas pela existência da nobreza, tentar atingir o status que muitas vezes não lhes pertencia.

Agora as pessoas acham normal falar no meio do filme. Acho que em parte isso tem a ver com a permissividade de nossa cultura, com a idéia bem popular de que é ruim e até mal educado se pronunciar contra algo, tomar partido, censurar. Faz parte de nosso secular, se não pode vencer...

No Brasil há tanta educação, que o mal floresce solto! É mal educado mandar seu filho lavar a louça. Ou cortar a mesada. É mal educado gritar com alguém que dobra sem dar o sinal. É mal educado falar com quem fura a fila. E, é claro, é mal educado falar mal de qualquer empresário, que afinal, está trabalhando para salvar o Brasil. Ou seja, é mal educado exigir igualdade. A boa educação atrapalha a boa música!
Propaganda 18 Brumário

Imagine se um médico fosse presidente do Brasil. Médico! MÉDICO!
Imagine se, chegando a Paris, pois afinal é aonde a maioria dos Brasileiros vão no Natal, você puder dizer: O meu país não é governado por um simples cidadão, não, não, não, é governado por um MÉDICO! Não precisaremos mais ouvir, como hoje eu ouvi na padaria, “no Brasil até analfabeto é presidente!” Além disso, um homem que conhece cada bairro desse imenso país, que esteve ao lado dos trabalhadores toda sua vida!

Que até as pobres senhoras sem dentes aprenderam a chamar pelo prenome! Um MÉDICO! (Havia um outro que dizia, antes de tudo, eu sou economista, mas não tinha essa simpatia toda, esse jeito de falar com favelados, essa franqueza, esse ataque, esse sorriso!)

E além disso ... vê o cidadão como consumidor! Sim, o mais básico dos direitos humanos, o mais importante dos códigos, o único, mas fundamental projeto de uma vida que começa aos 23 anos, um gênio da política! Um doutor, afinal. Até comida de salsicha e arroz ele fez, tudo isso por 1 real! Ah, que país maravilhoso, onde até um médico, essa figura dourada, tem o direito de servir!
Sabão em pó, eu te amo

Uma coisa que sempre me impressionou foi a facilidade com que os cantores ex-sertajenos, os pop-sertanejos e os românticos-pop-sertanejos, trocam o palco pelas propagandas “cantadas”. O que é chocante é que o ritmo, a entonação, tudo é igual, às vezes até a letra.

Tanto faz se você está cantando, “compre essa pílula para resfriado” ou “o luar é o momento que mais te quero”, tudo soa como o mesmo ar de dramalhão. Isso deve ter algo a dizer sobre nossa música.
Isso não tem nada a ver com a poética e melancólica música sertaneja cantada no interior.

É uma pausterização que começou a explodir na década de 90, junto com o axé e o funk. É a sãopaulização chique do sertanejo apaixonado, de terno de linho e rancho fundo, trocado em miúdos para a classe D que agora é a maioria, que define as novelas e o padrão da TV.

É uma aliança perigosa entre a elite e a pobreza. Não é a democracia como ideal, que leva peças ao povo para alimentar o debate. Há o lado positivo de que é entendido pela maioria, mas não me parece um enriquecimento da vida, nem uma reflexão sobre nada. Vende-se o amor, como se vende um sabão em pó.

quarta-feira, junho 28, 2006

Paulo Autran 1

A peça "O Quadrante" diz em seu programa que "o teatro, em essência, se faz com uma idéia, um intérprete e alguém para ver e ouvir". Pode parecer óbvio, mas quem tem o prazer de ver esse alguém falando pensa mesmo sério sobre a capacidade de muitos atores de dizerem um texto.

Para mim o que caracteriza o ator é inteligência, capacidade de peceber os nuances do humano e reproduzí-los. Um bom ator entende o que está sendo contado. Parece fácil, mas a maioria dos atores apenas repete, até fala palavras das quais desconhece o significado.

Paulo está com 83. É diversão pura, como velhinha, como mocinha, como narrador e até como onça. Aliás, ele realmente se transforma. Cada gesto, cada som, uma mão que significa isso, um som que desconstrói o que é a palavra, ele vai levando o público com suavidade até o riso. Como onça simplemente dá medo.

Eu o assisti em Rei Lear há muitos anos. Lembro-me que era comovente, mas lembro-me também das cenas de batalha com bastão, indas e vindas...

Claro, o teatro hoje pode e tem de ter movimento e cor, pois o público da tv...
Mas Paulo me lembrou que queremos é mesmo ouvir uma estória, e para isso o ator tem de entender, ser gentil e transmitir vontade de viver. Entender significa: saber mais do que foi dito, dizer mais do que foi falado; ser gentil significa estar aberto para comunicar, interessar-se por e querer atingir um ser humano; e o resto vocês sabem.

Uma senhora atrás de mim bocejava um monte, e uma hora disse "não acaba, que coisa chata". Foi tão fora de circunstância que me fez pensar porque certas pessoas vão ao teatro.
Acho que o teatro também mexe com a coisa de que podemos ter prazer, momentos de pura contemplação de nada, o que não é fácil para certas pessoas...
Paulo, Paulo, que grande amigo és, de todos nós.
Cidade Alta

Caminhando com um amigo do interior pela Cidade Baixa, ficou claro mais uma vez... ela vai ficar escura... O que a caracteriza, pequenas casas de estilo art-nouveau, casas dos anos 50, será tomado por altos e estreitos prédios com janelas de boneca, colados uns nos outros... O que vai acontecer com esse bairro quando só tiver espigões? A perimetral, ampla e arejada, já vai se acostumando aos planos fechados do cimento... Foi um bairro de pobres, em contraste com o “centro” político da Duque e econômico da Andradas... Que medo. A Lomba do Pinheiro também já foi toda vendida, os morros serão asfalto... Não quero viver nesse mundo sem sol... Por favor, evitem a cidade alta!
Falta Gana pro Brasil?

Quem viu o jogo pode estar ainda com o silêncio do medo. A torcida estava muda. O jornal Hoje recebeu uma ordem para ser um jornal “de meio-dia”, animado, corriqueiro, para pessoas que estão passando... Quantos sorrisos, e não apenas felizes, felicíssimos... Tem coisas incríveis: “a vitória emocionante do Brasil”, “ a festa da torcida”, “grande vitória”... sinceramente...

Sobrevoando Sp, centro de BH, recife, Olodum... cantando o hino da Globo. Natural... Bem, a Copa agora é um produto, tem dono, e tem de funcionar... tem um jornal todo para isso, daí vem “o mundo em 1 minuto”...

Eu tb não entendo porque tanta ovação dos comentaristas... "Nós brasileiros cobramos demais" diz o chefe.. praticamente não pegamos na bola, tomamos mais chutes á gol, víamos os branquelas correndo pra lá e pra cá e noso time (o mesmo da Croácia, pode!) só levando... Tem sempre de vir um convidado para falar a verdade! O Bial até que se esforça, mas vendo pelo otimismo do Galvão, parece que foi 6 X 0...

Se Pareira diz que show é ganhar, então vou trabalhar, pelo menos ganho dinheiro...

quarta-feira, junho 21, 2006

Ideologia do Luxo

Na novela “Cobras e Lagartos” a personagem de Thaís Araújo chama um pretendente de “baixa renda”. Não é a troco de nada que o nome da loja é “Luxus”. Lembro de um diálogo que ouvi certa vez no ônibus entre duas meninas com aproximadamente 13 anos, moradoras de um baixo distante. Uma delas dizia:

- Eu vou fingir que vou dormir na tua casa e fico com ele. Ele vai me levar na lanchonete e comprar um hambúrguer e batatas fritas grandes. Ele ganha 70 reais por semana e vou fazer ele gastar uns 30 reais comigo. Depois faço ele comprar uma bolsa que eu vi.

Eu fiquei pensando: é assim que se fazem bebês na adolescência. Uma prostituta sairia mais barato. O que estamos fazendo com nossos pobres, encharcados da ideologia do luxo? Antigamente as pessoas tinham a ideologia da Igreja, e mesmo tendo terras muitas vezes viviam uma vida de miséria e resignação. Hoje mesmo sendo ricos, jogadores de futebol, músicos famosos e novos ricos pensam em consumo estéril e infinito.

Na novela aparece um personagem chamado Foguinho pede dez pratos de jantar, correntes de prata e compra lojas inteiras de videogame.
O consumo agora é infinito. Um carro pode custar 1 milhão de dólares, um quarto de hotel, como o da seleção, 4 mil dólares. (Não há nada de errado em termos conforto, claro, mas o que se vê é uma ideologia do "rale-se os outros", uma cultura da solidão).

Estamos criando o mundo dos VIPS e o mundo dos “invisíveis”. A idéia é de que existem pessoas bem diferentes, com possibilidades bem diferentes, como aparece no seriado A Diarista quando a avó da família onde a protagonista trabalha lhe dá um relógio quebrado e diz: “eu sei que vocês pobres dão uso pra tudo, né?”

Quem trabalha com serviço voluntário já assistiu essa cena muitas vezes, até de órgãos governamentais. É um ciclo que se fecha desde quando o cristianismo criou a idéia de igualdade, opondo-se a hierarquia patriarcal da antiguidade. (Enquanto isso, nessa era do político-ator, uma mistura de Maquiavel com McLuham, como Reagan e Schwarzenegger os políticos conservadores, a cada dia, retornam com as mesmas idéias de “agora faremos melhor” sendo que nunca fizeram...)

As pessoas sem acesso a informações mais ricas acabam aceitando como normal esse mundo onde o “baixa renda” é desnecessário, e tentando adquirir o “símbolo” do alta renda individualmente. É a guerra de todos contra todos?
Ana Maria Braga pra presidente

A televisão precisa de otimismo.

Levantar questões polêmicas pode levar a uma reflexão entediante, e pior: pessimismo não vende produtos. Há uma diferença entre otimismo e idiotice: o otimismo significa que, apesar dos problemas, podemos vencer, e é essencial; a idiotice significa que não há problemas.
Alguém já disse que o Brasil é um país de “tapar o sol com a peneira”; é falta de educação ser direto, falar a verdade ou propor uma solução realista. É melhor fingir que se resolve, fingir que se governa, salvar as aparências. Afinal, quem quer se incomodar, quem quer ter de arcar com o peso da confrontação...

Claro, isso significa que nada será resolvido nunca. Significa que os conflitos reais serão aumentados porque ficaram ocultos, e explodirão mais adiante, num presídio qualquer, numa revolta pelas ruas de São Paulo, em um Rio de Janeiro-velho-oeste.

Então, valeu Ana Maria Braga Cassandra:
“O time todo melhora quando sai o Ronaldo, por que continuar insistindo?”
ela, que não trabalha com futebol,teve coragem de dizer o que estamos pensando, morando de medo de uma Argentina apaixonada e até de um Japão samurai. Esporte é força física e clareza mental, e o que significa um título, um passado ou medo de desagradar os torcedores. (Ainda: falcão é o mais sincero, graças a Deus, mas sinceridade parece até antipatia em algumas circunstâncias.)

O medo de “ferir os sentimentos” de Ronaldo, acaba deixando que as coisas sejam feitas por outros motivos que ao o jogo em si. Ele errou até um chute na bola, errou passes, não está bem. Cuidar dos sentimentos dos outros é fundamental para a vida em grupo, mas no Brasil temos a tendência de valorizar não a competência e sim a nobreza, o título, o nome, o poder, e isso impede que haja mudanças positivas e renovação.

Que possamos ser otimistas porque vencemos a nós mesmos, porque não nos acomodamos com a felicidade incompleta.

Ana Maria pra Presidente.
Do Leão Lobo:


A péssima TV Cultura é o reflexo cultural do Governo Alckmin

Entre as muitas promessas não cumpridas deste Governo Alckmin, uma delas foi a revitalização da TV Cultura. E nesses 10 anos em que o governador esteve à frente do Governo de São Paulo, a emissora da Fundação Padre Anchieta, que é atrelada a esse Governo, acabou virando praticamente uma emissora comercial, com os tais dos “apoios culturais” que nada mais são do que os comerciais iguaizinhos aos das outras emissoras, sem que a Cultura perdesse os privilégios de Estação Pública e nada, ou pouquíssimo, mudou na emissora com todos esses ganhos que ela teve.

Contratações milionárias foram feitas como a de Silvia Poppovic, mas não há como a apresentadora brilhar no esquema restrito da emissora. O próprio bom programa de Rolando Boldrin, “Senhor Brasil”, não tem divulgação, por isso não repercute e em função dele, o bom e popular programa “Viola, minha viola”, da queridíssima Inezita Barroso, que já tinha um público cativo, foi esvaziado, está sendo desprestigiado dentro da própria casa. Está acontecendo com o “Viola”, na Cultura, o mesmo o que está acontecendo com o “Hebe”, no SBT.

Mas o caso da Cultura é ainda mais grave porque a Cultura é pública, é nossa, e agora ainda tem dinheiro de anunciante. Fica a pergunta: para onde está indo todo esse dinheiro se ele não tem revertido em bons programas infantis, por exemplo? A programação continua a mesma, com pouquíssimas novidades. E, na teledramaturgia, só existe o “Senta que lá vem comédia”, cabide de empregos para os familiares e amigos da atriz, autora e diretora desconhecida Analy Alvarez. Mas, para um Governo que prometeu resolver o problema da Febem do Estado e só o agravou, não cuidar de uma tevê pública é o mínimo.

http://www.portaldoleaolobo.com.br/

quarta-feira, junho 14, 2006

O Código Ignorado


Ouvi uma história ótima: uma amiga de minha mãe disse que o filho pré-adolescente foi ver o Código da Vinci e, chegando em casa, lhe disse “porque você não contou que Jesus casou com Maria Madalena?” O mais interessante a respeito do livro é justamente o quanto as pessoas estão mal preparadas para lê-lo. Fica-se com a impressão que as hordas de americanos atravessando o oceano para irem procurar pistas em Paris estão aliando a descrença que caiu sobre a instituição da Igreja, a loucura por novidades que os noticiosos criaram e uma grassa ignorância sobre história. Como a Igreja teria escondido que Jesus casou e João era Maria Madalena?

Deve dizer algo sobre nossa democracia-entre-aspas o fato de as pessoas tomarem ficção por realidade. O que me parece mais assustador é que a educação das massas tornou-se uma política antiquada, já que é considerada gasto e não investimento pelos gerentes internacionais.
O fato de Maria Madalena, mulher rica que acompanhou Jesus “com seus bens”, ter se tornado um símbolo, a mesma prostituta arrependida e –até- a adúltera salva do apedrejamento, fica bem no século XI, quando a onda de mosteiros e peregrinações precisava criar túmulos de santos e patronos, mas não no século XXI.

Maria Madalena era simbólica porque representava o pecador arrependido, a fim com a onda de puritanismo que invadia o cristianismo reformador. Hoje ela representa a insatisfação com as instituições, a vontade de buscar um cristianismo menos rigoroso; em parte porque a Igreja tem dado muita ênfase a uma tradição de dogmas em detrimento de uma atuação mais eficaz no mundo. O fato de os bispos franceses lançarem a determinação de que os seguidores do Papa não precisam usar a camisinha, mas os não seguidores devem, mostra que há insatisfação dentro do próprio catolicismo.

Por outro lado, demonstra a vontade que as pessoas demonstram em relação a história, a sua própria identidade. Um mundo em que cada dia temos um produto novo e uma notícia nova, em que o saber se encastelou em universidades, ao povo sobrou a fé e a insegurança. Muito medieval.
Nós, croatas


Nós, croatas nascemos ouvindo dizer que nosso país é o país do futebol. Nós croatas, ouvimos dizer que em cada esquina desse imenso país há um craque mirim pronto a se tornar o melhor do mundo.

Nós, croatas pensamos que merecíamos um técnico que pensasse que se o quadrado mágico obviamente será oprimido, seria importante jogadas laterais e com “elementos surpresa” de meio de campo. Nós chegamos a pensar que nosso técnico croata não falava muito, mas pensava.
Chegamos a pensar que nosso Fenômeno ex-iugoslavo queria jogar bola: pelo jeito parece exausto, continuando em virtude de algum contrato, de alguma vontade de mãe; fala e joga como um aposentado.

Depois de meses ouvindo que somos extraordinários e que devíamos esquecer nossa vida para viver a vida de 22 homens (são 22?)- afinal, há patrocínios governamentais e de cartão de crédito pagando os minutos sobre a cor do cabelo desse ou daquele jogador- achamos que merecíamos ver nas manchetes: “Melhores jogadores do mundo levam a Croácia à vitória!”

Nós, croatas imaginamos que se nossos políticos são aristocratas, nossos empresários de direita, nossa esquerda de centro e nossa mídia de si mesma, sobraria uma seleção capaz de atacar.
Imaginamos que, se nossa educação pública estacionou nos 8 alunos por sala, e nossa educação privada nos 800 por mês, haveria esperança no time croata de futebol.

Nós croatas imaginamos que, se há a lei do silêncio na nossa mídia, se ninguém pode dar direito de resposta, pelo menos éramos capazes de ganhar de outros times.
Ai, ai, vou morar na Croácia.

terça-feira, junho 13, 2006

Usando tua toalha


Uma amiga minha comenta sobre o namoro-casamento de seu filho- a menina acorda e lhe diz: tia, tem uma escova de dentes que eu possa usar? Eles se conhecem a menos de um ano. Outra pediu-lhe uma toalha. Uma vez o ex-namorado de minha irmã pediu pizza em nossa casa e meu irmão comentou “talvez não seja educado nós comermos”. Eu fiquei chocado: se alguém pede pizza na sua casa na hora da janta, pressupõe-se que seja para todos. Eu será que estamos vivendo uma república de federações coligadas. Parece que é isso mesmo: com Tv no quarto e Internet, os filhos só lembram dos pais para pedir dinheiro.

Mas, ah, ainda tem o namorado (a): aquela pessoa totalmente estranha que sai contigo de férias, toma café com você e lhe leva (se for mesmo bonzinho) para fazer as compras de supermercado. E que muda a cada dois anos. Esse é o lado mais estranho: sem nenhuma tolerância pela frustração, a nova geração, bebendo propaganda em seu leite de colo, brinca de casar como quem brinca de vídeo-game; já ouvi vários especialistas dizendo que o amor agora dura até a primeira briga. Eliminar o tempo de aproximação com a família é outra forma de “atropelar” em direção ao instantâneo; para que gerar intimidade, se pode acabar amanhã?

A família também se protege: tento não me tornar amiga das namoradas de meu filho, disse minha amiga, pois sofro cada vez que se separa. Se o namorado(a) é bom saberá levar esse fardo antigo que significa olhar com paciência as feridas abertas que todos temos, saber incentivar, superar e guardar os momentos de carinho. Se não, viva o amor-consumo: satisfaça seu desejo ao máximo até quando quiser, depois jogue fora.
Copa, copa, copa

Meus amigos devem estar com um sorrisinho sarcástico. Mas até eu tenho de falar de futebol. (Acho interessantes os comentários de Casagrande, Falcão e Arnaldo Coelho, o aspecto técnico; como diria Mário Quintana, “quem não se contradiz não pode estar falando a verdade”). Acho que vou me oferecer para jogar na Copa do Mundo; até agora só vi pelada, o mais emocionante foi Itália e Gana, mais por Gana. A Itália fez um servicinho burocrático, um jogador bom.

A Suécia parecia que nunca tinha visto bola, quase empata com Trinidad e Tobago, essa Seleção sem técnica, mas com violência de sobra. Pode parecer estereótipo, mas a Alemanha não conseguia sair do plano de jogo, e talvez, por chavão que seja, os brasileiros saibam transgredir e, portanto, criar, mais. Não vi um jogo até agora que merecesse ser visto, parece que nada vai além do 1x0. Fiquei decepcionado, pelo menos nessas partidas até terça, com os “melhores do mundo”.
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Afinal parece que a “quebradeira” no Congresso não foi planejada, digo, o próprio Bruno Sergipe disse que não esperava, foi um “estouro da manada”. Afinal, porque o povo estaria brabo com seus “representantes”?
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Alguns números nesta democracia aristocrática não fecham.

- Dizem que se Susane for condenada com o máximo da pena pegará 7 anos, 4 dos quais já foram cumpridos. Dá pra acreditar? Duplo homicídio, pai e mãe, triplamente qualificado, e aquele idiota dos namorado que fica na cara foi levado por ela. Dizem a boca pequena que cada brasileiro tem “direito de matar um”, porque as defesas da lei para aqueles que eram perseguidos pela ditadura nos envergonham e acabam liberando os Malufs para voarem para a Europa.

- Os jogadores Atualmente jogam 75 a 80 jogos por ano, disse Ronaldo em entrevista. Cada jogo de eliminatória, 12 horas e vôo e jogam um dia depois. A única coisa que sei de futebol é que quando eu era pequeno ficava-se um mês todo esperando para ver o Grêmio jogar; hoje envolve tanto dinheiro, publicidade, TV, que os atletas são queimados logo, sua saúde sendo vendida mais caro.
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Agora nos Etázuni um senador maluco propôs a segregação racial nas escolas porque aos seis anos uma professora não o protegeu de coleguinhas cruéis.Umberto eco tem uma Expressão que é “superinterpretação”. É quando um crítico força a barra, usa as técnicas da semiótica para profetizar o fim do mundo. Da mesma força existe e “hiperdemocratismo”: é quando, por exemplo, assédio sexual se torna mais importante que a questão do emprego de qualidade como defesa feminista.

Existe uma tendência atual para esse uso dos direitos humanos contra os princípios da justiça: uma elite de intelectuais, jornalistas e madames esquerdistas se distanciou tanto do comum cidadão que as leis, muita coisa da imprensa e debates acadêmicos vivem no “Brasil 1” enquanto o fogo consome o “Brasil 2”. Nos EUA, ao que parece, também a elite negra chegou a um grau tão grande de requinte que pode se dar ao luxo de ter uma “proteção a priori” contra os confrontos de uma educação na tolerância feita de indas e vindas, mas a única coisa que pode nos fazer criar uma comunicação comum. Eta mundinho dividido!
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Uma maluca da colônia “italiana” no Brasil: se Brasil jogar contra Itália no final, para quem a senhora torce? Itália, respondeu ao repórter. Uma amiga minha disse: o problema do Brasil é que ninguém aqui é brasileiro. Estranho. Alguns amigos alemães que eu tenho, e moram em Porto Alegre, toda vez que ouvem alguém dizer “sou italiano” ou “sou alemão” fazem questão de dizer: o senhor tem descendentes alemães, ou italianos, mas é desta terra. É o velho espírito vitoriano colonialista; aliás, nosso amigo Thackeray diria que um irlandês é muito mais esnobe que um inglês, simplesmente por lamber-lhe as botas.
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Minha fórmula para ver jogo da seleção; finjo que não estou assistindo, e deixo os caras fazerem sua parte. Fiz isso em 1994 e... bem, não me lembro mais se funcionou, mas funcionou em 1998 (ou não?) quando eu e uma amiga ficamos fazendo um vídeo no cemitério. Tudo pela arte! Na dúvida, insisto.

sexta-feira, junho 09, 2006

O que podemos aprender dos vitorianos?
Lendo o livro de Thackeray sobre esnobes, fica claro que por trás de tudo está uma idéia de igualdade. Quando clero, universitários e lordes se sentem mais importantes por serem quem são, são ridículos. Pelo menos para os “cidadãos” da Europa, no período do liberalismo, clímax do secularismo, todos os cidadãos deveriam ser iguais.

É triste pensar que, depois de mais de vinte anos de pseudo-liberalismo corporativo, o esnobe volta a ser um personagem central. Toda a publicidade funciona criando a idéia de que há uma elite – pessoas que se vestem bem, sabem mais e são mais bonitas. Já vi inúmeras propagandas que, claramente dizem “para poucos”, “não é para qualquer um”, “exclusivo”, “alguns vão ter, outros não”.

No seu belo livro “A rebelião das elites”, Christopher Lasch fala dessa nova “ruptura” entre pobres e ricos: os 20% do topo, as classes privilegiadas, se tornaram completamente independentes tanto das cidades industriais decadentes como dos serviços públicos. Cria-se assim uma “aristocracia do talento”; as pessoas que, seguindo o lema anti-estatal de J.F. Kennedy- “não pergunte o que seu país possa fazer com você, mas o que você pode fazer pelo seu país”, não tem instrução ou talento especial, vão sofrer calados ou dar origem ao PCC e ao tráfico do Rio.

É esse incentivo ao esnobismo que se nota por boa parte dos programas. É quase cômico se tentarmos achar esnobes nos dias de hoje: quem está em Caras mostrando o drink a beira do mar; nossa linda Débora Seco falando do lugar que mais gosta em Nova York; conheço filhos de senhoras faxineiras que são esnobes contando para seus colegas que foram ao cinema e comeram pipoca; universitários iletrados e esnobes que falam a toda hora “você leu isso?”; tinha mesmo uma colega que a cada duas palavras falava da superioridade econômica do seu marido e usava a palavra “Paris”. (Anti-esnobes são, por exemplo, Cafu e Falcão. O primeiro, assim como Ronaldinho Gaúcho, estão na galeria dos célebres conscientes.

O segundo, além do papo simpático, simplesmente deu um quarto de hotel a Mario Quintana, quando foi preciso. Ronaldo Fenômeno, oelo contrário, segue dando mostras de estrelismo; já disse que não é negro, depois traiu, ao que tudo indica, sua noiva três meses depois do casamento, e agora, respondendo ao presidente Lula que, emvideo-conferencia teve a infeliz idéia de comentar sobre seu peso, pareceu agredir desproporcionalmente um cargo oficial; o presidente disse que tem se encontrado várias vezes com Ronaldo e sabe que ele está magro, mas lê sempre na imprensa que ele está gordo; afinal, perguntou ao treinador, ele está magro ou gordo?
Ronaldo simplesmente disse que “ele me chamou de gordo, mas muita gente diz que ele bebe pra caramba”, mostrando claramente que se considera acima da figura do próprio presidente).
Foi nisso que deu a revolta secular contra o idealismo cristão- que motivou o ateísmo humanista, de solidariedade pela precariedade, de Russel e tantos outros; parece que, sem alma, o homem não tem um valor intrínseco.

Se a América ofereceu uma fuga das sufocantes classes feudais européias, ela gera a insegurança e a complexa ansiedade para se sobressair como elite, que o jornalista Neal Gabler comenta como típica da sociedade norte-americana; o importante passa a ser a aparência.
Então, o que podemos aprender dos vitorianos? Depois de confundi-los com carolas moralistas, homens rígidos e mulheres submissas, teremos de dar o braço a torcer; de igualdade, parece que eles entendiam mais.
“Apague a luz”. Essa frase banal dita no meio do filme "Caché” (2005. 117 mins. Direção: Michael Haneke)

me pareceu sintomática de uma série de coisas. Mas antes, um a parte que faz parte.
Não acho nem um pouco engraçado quando a empregada da casa em Belíssima é destratada com o bordão “Rezina da Glória, cuzina”, ou o personagem jamanta é tratado como cachorro, por ser feio e pobre.

O filme Cachê, voltando a ele, me diz exatamente isso: primeiro, a sociedade burguesa, mesmo depois da demolição dos valores religiosos, continua firme: agora significa trabalhar, cada vez mais, e não ter tempo. Depois, é melhor esquecer que não demos a “eles” a oportunidade de ter instrução decente.

A primeira cena do filme é uma longuíssima visão da frente de uma casa.
Me lembro sempre (já devo ter dito isso) que quando Bijork e Juliette binoche foram de ganso e melindrosa na festa do Oscar, as revistas simplesmente acharam ridículo e fora do tom. E como também sempre digo, isso representa bem a visão da arte na Europa como “vanguarda”, e a arte nos EUA, pelo menos no main-stream, como “gozo” no sentido Lacaniano, alívio sem evolução.
Outra cena boa do filme é quando, após uma tragédia, ficamos assistindo o protagonista sentado, sem nada ocorrer.

Isso significou pra mim: bem, precisamos de um tempo para REFLETIR.
(esse Caps Lock saiu sozinho, mas é interessante mantê-lo).

“Apague a luz” pode significar: que sobra desse eu ocupado se fico entre a atenção e a espera?
Enfim, sem querer chover no molhado falsamente cult de que tudo que é francês é bom, ou obrigatório de ver e gostar, o filme trabalha naquela vibração sutil que deixa espaço para as coisas serem descobertas, abertas; é um suspense que se cria com detalhes, com uma tensão suave: um “medo” real, porque nada está pronto; “que vai acontecer agora” não significa, ele vai explodir ou levar um tiro (a morte, por sinal, é a síntese do “pode ser assim”) mas “pode ocorrer algo, pode mesmo”.

Bela forma de falar do abismo social entre “franceses” e “argelinos” na sociedade; e daquilo que sempre pode voltar, porque foi esquecido.

quarta-feira, junho 07, 2006

Será que eu ouvi direito? Arnaldo Jabor (uma espécie de ventríloquo que manipula “todos-dizem”) falou mesmo que “a esquerda invadiu com 40 mil cargos o governo?” Não será isso que chamam democracia? Ele falou mesmo que a culpa da depredação do Congresso é do Lula, emendou impropérios sobre a “culpa” por “não saber de nada” sobre o mensalão até a “culpa” por estar “tratando a pão de ló o MST”.

(Só agora ficou claro para mim quem é o Alcaemmim, que disse “falta autoridade a este governo!” Ele já havia dito no caso da Bolívia que o governo deveria ter sido “duro”- assim como as aves exóticas do PSDB, todas botando fogo no que já é explosivo- quem sabe, criando uma crise bem grande, descumprir até o que disse uma vez a consulesa de Bush no Brasil: a diplomacia serve para evitar a guerra; mas só agora percebi que se cair um meteoro no Brasil a culpa é do Lula e que “autoridade” significa algo bem sombrio como por exemplo, prever e reprimir um fato antes que aconteça; quero virar empresário!)

A própria abertura do telejornal dizia que o governo estava “autorizando movimentos fora da lei como o MST”.
Ora, faz anos que estamos assistindo o Jabor achar que é esquerda - pois é de uma época que mostrar mulher pelada era ser revolucionário - e falar senso comum que agrada a elite, mas com ar radical (houve um momento que criticar o Lula gratuitamente era algo como estar na crista da onda do radicalismo, da “oposição”- todos faziam isso); mas poucas vezes vi um editorial mais feroz, só equiparado ao problema envolvendo a Aracruzcredo. O que o MST tem a ver com o MLST, não fiquei sabendo.

É claro que qualquer movimento que se ache no direito de invadir o Congresso e machucar pessoas deve ser punido, mas seria bom pensar :
por que o povo estaria brabo? Em culturas mais antigas, que já cortaram a cabeça do rei, as vezes até estudantes são levados a sério...

até que ponto essas pessoas (alguns rostos de agricultores humildes) não estão a mercê de uma ocupação ideológica alienígena (o famoso não-vácuo do poder, se o Estado não provê educação e inserção na economia, algum poder o fará, seja o líder oportunista e desmiolado, seja o tráfico), que pode ser intelectualmente justificável perante a violência da pobreza, e pode mesmo ser baseada na visão democrática de direito a livre expressão, mas que não se pode saber de fato onde acaba, na execução.

(O próprio líder do movimento, senhor Bruno B. Bruno, disse que era para ser uma manifestação pacífica, mas, ao entrarem no Congresso, “a coisa pegou fogo”; imagina-se o preparo ideológico prévio, tipo “esses burgueses vão ver só”, aliado ao natural desespero da pobreza e a recente onda de repulsa que o Brasil sentiu diante da imoralidade e impunidade no Congresso).

Como, quando o problema é violência- violência do povo- surge na TV tempo; inúmeras personalidades se manifestam chocadas, inúmeros minutos de imagens, imagens, imagens, justo na Tv que nos fez crer que tudo tem de ser dito em 1 minuto, e comentarista é o Jabor...
Muito estranho...
Direto do país do rugby...

As bolhas de Ronaldo mereceram mais espaço na mídia que todas as emendas (que deverão ser votadas hoje n)do Congresso (se a aristocracia decidir comparecer).
Sorte minha que não participo desse tipo de competição de machos primitivos (Grêêmio! Grêêmio! Nós somos campeões do Muuundo!).

É importante que o Universo saiba que existe pelo menos UM brasileiro que não é fanático por futebol (só resta saber onde está...)
Mas cá entre nós, eu nunca gostei de futebol, nunca gostei de ver futebol, e sinceramente fico pensando sempre o porque metade da programação da TV é futebol: deve ser para fazer a esporticracia, como nos EUA.
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Caso Von Rischthzswyxssstopirilimpimpim
Hoje no Hoje em Dia da Record, o advogado de defesa foi explicar por que levantou o dedo na cara do Juiz ontem, chamou-o de traidor e se retirou do recinto, tentando impedir o julgamento. (Com certeza ficou com inveja dos advogados dos Cravejados, que pensaram em não ir antes dele...)

Síndrome da elite-nobre:
Minha cara Ana Ricaman, linda, simpática e inteligente; meu caro Edu Guedes, que peguei quando criança, sou amigos dos seus pais, lembra?; sensato promotor e maravilhosos ouvintes...
As mulheres... fazem tudo por amor! (nesse ponto está com os gregos e Justiniano! Valeu a resposta de Ana Ricaman: matar pai e mãe já é demais, né?!)

Eu disse que a testemunha insubstituível poderia ser substituída, mas o juiz me traiu pedindo que seguisse o julgamento já que não era insubstituível...

Claro, como sabemos, o Direito tem lá seus teatros e é uma briga de tigres, todos tentando achar a forma de colocar na boca da lei aquilo que quer dizer, de modo mais natural possível; por outro lado, todos tem direito de defesa, a ainda, se espera que a defesa defenda; mas esse senhor, que quase mandou Ana Ricaman calar a boca, mostrou mais do que isso: os poderosos não estão acostumados a perder no Brasil.

OS: (Observação suspeita) olha um anexo do Jornal Global reclamando sobre
A não transmissão ao vivo do julgamento: Nos Estados Unidos isso fez com que os americanos tomassem consciência dos seus direitos! Que argumento heim? Nada a ver com transformar o crime em show, não mesmo...

segunda-feira, junho 05, 2006

Perdas e ganhos, Lya Luft, Record, 2003


Ainda não acabei o Livro, mas acho que posso ir falando as primeiras impressões...

Já ouvi sobre ele as mais diversas teorias: “é auto-ajuda com grife!”, Lya Luft é uma escritora burguesa”, “é um livro fascinante!”, “agora que ela começou a escrever mal...”

Bem, para começar, precisa-se de muita coragem para sair do confortável mundo da ficção para o mundo das idéias e opiniões, já que na ficção temos a proteção do simbólico e do obscuro, muitas vezes nem o próprio autor tem a dimensão do que está falando.

Representar através de metáforas a vida parece mais simples de algum modo: tendemos a aceitar mais prontamente uma sugestão, que nos dá espaço de reflexão, do que uma observação, que parece afirmativa.

Ao mesmo tempo, este mundo apresenta tantas teorias, tanta complexidade, que a velha função do filósofo, ensaiar discursos sobre a vida, dar linhas de percepção, parece fazer falta. Falta a figura do intelectual capaz de absorver e devolver com formas de julgamento e possibilidades; a auto-ajuda pareceu transformar tudo na livre vontade do sujeito liberal, a velha e boa consciência clara e distinta, ao poder do super-homem indivíduo. Sem voluntarismo barato e sem pessimismo intelectualista.

O que esse livro tem de bom é, de um lado, um otimismo generoso com a vida, sugerindo que podemos trazer alegria para ela, e por outro lado, a percepção de nossos jogos de auto-destruição, nossa conivência com o tempo da morte diário. Sua visão sobre a velhice criativa parece também deliciosa. (Acho que falta um pouso falar do grande silêncio de um mundo que está além da classe média, de fato, já que quase um terço dos brasileiros está em situação de miséria; mas não se possa resolver tudo agora).

E Lya Luft narra suas percepções com a autoridade de quem fez mudanças drásticas após os 40 anos. (O melhor que eu poso falar dela é que conheço seu filho, e é uma pessoa que trata a todos com respeito e delicadeza). Acima de tudo Lya é uma ótima observadora. Ela me ensinou que o autor não é alguém que vive nas nuvens, mas uma pessoa que vê o que muitos deixaram de ver. Um profeta do mínimo.

Afinal as coisas mais profundas são absolutamente simples, e dizê-las poda parecer muitas vezes ridículo: não se trata de “saber” que a rosa precisa de sol, mas de colocar a rosa no sol. O livro fala disso, tendemos a nos contentar com pouco: Lya abre uma janela para nosso coração, agora, saiamos para o sol.

Rent, Chris Columbus, 133 min., 2006

(Antes de mais nada vale lembrar que, mesmo na baeado ópera do século XIX, "La Bohème", de Puccini, há quem diga ainda na Internet: O elenco é formado basicamente por homossexuais, drag queens, dependentes químicos e sem-tetos.” Nazi!)

Quando o filme começa dá aquela dor no peito: será que vou agüentar ver as pessoas cantando ao colocar lixo na rua, ao dar comida ao cachorro e cruzando o sinal?
De imediato a gente se pergunta: vou agüentar a esse otimismo que canta “conte o ano em amor” logo de cara?

Mas aí a história vai entrando. Nada fácil colocar um musical, feito para o palco, que portanto pressupõe o artificioso, na tele muito mais naturalista do cinema. Entretanto os personagens estão bens construídos, são variados e interessantes, e lá pelos 30 minutos você já está cantando: “Tango Maureen” (a mulher louca da trama).

O mais importante de tudo: a historia não fantasia um mundo de plástico e luzes, mostra a Nova York da virada para os noventa, com o fim do estado de bem-estar, as pessoas nas ruas, o clima de era da catástrofe e a “exploração” do empresariado corrupto.

Percebemos porque também é tão difícil fazer política nos EUA: as pessoas consomem! O mercado engole o sujeito, que se satisfaz em comprar uma TV nova, mesmo que sinta que,no global, está perdendo seus direitos e daqui há vinte anos não haverá mais água.

Mas o grupo segue vivendo, e a cena em que dançam “La vie Bohémien” é sensacional. Maureen mostra a bunda para os engravatados corporativos: queremos ter tempo e dinheiro para transgredir. E os chatos neoliberais que gritam “façam por vocês mesmos” deveriam lembrar que os magnatas ganham isenção de imposto, e eles não.

Principalmente o filme não se enquadra em chavões. É preciso ter fé na vida, mas ali se diz “morrendo na América, na virada do milênio”. Não se tira conclusões fáceis, mas fica um desejo de viver. Nosso os EUA (underground) e o Brasil tem algo em comum: a transformação do caos em arte.
Copa, copa, copa!

É inevitável: o que Pedro Bial está fazendo na Alemanha? Parece que há 180 profissionais da Globo na Alemanha. O Fantástico foi um desfile de transmissões ao vivo da terra da lingüiça, com informações nem tanto relevantes: o que me interessa que Débora Kocher ajudou na computação gráfica (por sinal, sem graça) da rede pra Copa?

Que a transmissão terá uma qualidade X e Y mais avançada que o padrão? Uma fala dos jogadores ao descer do avião – em que Fátima Bernardes se transforma numa novata aos berros “pelo amor de deus, uma palavrinha!”- e os simpáticos atletas dizem, mais uma vez, “estamos preparados e achamos que tudo vai correr bem!”

Depois de ver o quarto dos jogadores- se tem geladeira e piscina- e de ver as áreas do hotel, além do cozinheiro, de saber o que os telespectadores pensam do jogo contra o time senhor dos anéis, de ver o documento de identidade de uma brasileira na Alemanha, de ouvir a opinião do especialista Bial sobre qual jogo será o pior, vejo uma pergunta: “Fátima, como você está se sentindo trabalhando nessa Copa?” “Me sinto ótima!”

Adoraria que pudéssemos pensar em algo como um campeonato mundial, onde seres humanos tentam ganhar, perdem ou ganham, e pudesse continuar levando minha vida nas outras 23hs.

É assim, quanto mais a mídia fala, mais a mídia acha que tem de falar. Mas, pelo jeito, com tanta cerveja precisando do meu interesse, terei de me acostumar com “O mundo em 1 minuto” e com transmissões ao vivo e dos “bastidores” doa caras tocando pandeiro (e, sim, tenho de ouvir o pai Nosso deles!) à 1h da madrugada (e a Copa nem começou).
Estou lendo com grande prazer O Livro dos esnobes, escrito por um deles, de William Thackeray (pela L&PM).
Que adorável é essa capacidade dos escritores ingleses de entrar na intimidade dos outros, nas pequenas coisas que significam muito, principalmente quando saímos daquilo que pode ser considerado bom senso. Isso me lembra muito o que um personagem meu (de origem francesa) diz, em uma novela, sobre o fato de, no país, prevalecer relações baseadas em hierarquias:

- Minha querida, esse país é maravilhoso e cheio de luz; mas não conheço outro lugar do planeta em que a haja mais esnobes que o Brasil! Ah, dizem sempre que os franceses são esnobes! Na França ir ao teatro é parte da cultura popular, aqui parece ser um teatro para mostrar-se “culto”.

A classe média se considera uma raça diversa e superior aos pobres; para um frances ir a Itália é um hábito, afinal apenas devemos dar alguns passos; para um brasileiro de classe média, é ser algo que assemelha-se a um Deus. A maioria das pessoas, entre os jovens mais ainda, parece não saber quem foi Tito Lívio; mas tem de fazer algo que lhe assemelhe aos novos ricos americanos! Oh, esnobes!