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quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Encontro 
(para InFernando)

Uma pin-up desenhada
O teu sorriso amigo
Onde?

Ouvinte da cidade
Jardineiro do tempo no mínimo
Espaço onde vivemos
E não há tempo

Amigo, coração pro mundo
Atento ao que passa
“O cara mais simpático da cidade” - eu digo
Passa tão rápido

Nem o cinza da pedra reflete
Nem o duro do silêncio
Nem o mal, nem a névoa – são da tua qualidade

Amigo, coração do mundo
Lidamos com retratos e, portanto, outros livros
Significados, o real por eles visto
Mas o que significa isso?

E, para a letra te dizer
Seria preciso voar
E todas as cores e paixão
A memória do não é pedra
E o existir é mais amplo
Do que se pode sonhar


Licença Creative Commons
O trabalho Encontro de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Uma pequena diferença

- Para iniciarmos nossa análise - disse o diretor do departamento de investigação - gostaria de deixar claro que o caso envolve uma república asiática que nenhum país do globo deseja ver desestabilizada. Qualquer vazamento de informação colocaria os líderes mundiais em pânico. 
- Compreendo senhor, pode contar com minha discrição - disse Momai.
- O senhor Moon está aqui para acompanhar a investigação. O caso é que o poderoso líder dessa república está com problemas com seu filho mais velho, seu provável sucessor, que tem se mostrado um playboy inconsequente. Por causa disso, seu irmão, que estuda em uma escola renomada na Suíça, pode tornar-se o novo presidente. O rapaz já foi  descrito como "afeminado" pelos colegas de escola. Entretanto... Uma foto comprometedora, envolvendo, ao que parece, uma jovem, foi parar nas mãos da uma importante marchant brasileira Vera Klosto que tem revelado talentos asiáticos no mercado Ocidental. Como ela não exigiu resgate, supomos que apenas deseja ter uma espécie de "proteção".

- O senhor saberia descrever como ela se apossou da foto? - perguntou Momai. 
- Essa é a parte mais interessante. O presidente tinha acabado de receber a foto de seu serviço de espionagem, eles haviam roubado a câmera do fotógrafo. Por segurança, haviam destruído a máquina e mantido uma única impressão. O pai, entretanto, aturdido com o fato, foi capaz apenas de virar a foto na mesa quando surpreendido pela entrada da exuberante figura, com quem havia criado alguma intimidade. Vinha acompanhada por um diplomata europeu. Não faltou a esta astúcia para compreender o objeto sobre a mesa, que mostrava o nome do filho e o símbolo do serviço secreto no verso. Por acaso tinha uma série de amostras do catálogo de uma exposição que seria realizada em Veneza e deixou-as sobre a mesa. Depois de uma conversa de mais ou menos quinze minutos, retirou dali tudo que era seu e mais um pouco e se foi sem que o presidente pudesse dizer uma palavra. 
- O método guarda uma semelhança estranha com o conto "A carta roubada" de Allan Poe - disse Momai. 
- Sim - respondeu o diretor - Suspeitamos que esteja entre os pertences dessa senhora na sua mansão, mas as paredes são cobertas de gravuras e pinturas - no fundo das quais se poderia, por exemplo, esconder o objeto - e sua coleção de fotografias contém mais de 11 mil itens. Não podemos pedir um mandato. Dois homens já conseguiram entrar secretamente na casa em vão. Podemos colocá-lo lá dentro por algumas horas - ela irá dar uma conferência por esses dias em Boston - e esperamos que o senhor possa nos ajudar. 

- Claro. Mas antes preciso ir a um museu. Tenho de pensar como uma marchant - disse Momai - é assim que as intuições surgem. Mais uma pergunta: imagino que o rapaz tenha sido vigiado e acompanhado o tempo todo na Suíça. 
- Sim, ele usou nome falso e era a único garoto do colégio a chegar de carro, com um motorista. Um importante diplomata tinha como função acompanhá-lo. Ele é fanático por tênis e sempre tinha muitos seguranças. 
- Estranho: como alguém pode tirar essa foto? - Momai perguntou se levantando. 

Hélio o esperava na porta da Pinacoteca.
- Espero que seu namorado me perdoe por mais essa - Momai disse.
Eles entraram. Uma exposição de tapeçaria contemporânea, muito colorida, misturava fios, metal e madeira. 
- Andei retomando os contos de Poe, só para me sentir preparado - disse Hélio ao sentarem na sala de esculturas. Encontrei nesse outro conto, "O mistério de Marie Roget", algo que me pareceu interessante. Importa-se que eu leia? - Momai fez um sinal com a mão - "Porque em relação a última parte da suposição , dever-se-ia considerar que a mais leve variação nos fatos dos dois casos poderia dar origem aos mais graves erros de cálculo, fazendo divergir totalmente os dois cursos de acontecimentos, como acontece tantas vezes em aritmética, em que um erro inapreciável, se tomado individualmente, produz afinal, por força de multiplicação em todos os pontos da operação, um resultado enormemente distante do verdadeiro". 

- Interessante. O método de Dupin é partir das superfícies, como num jogo de cartas, das variações de expressão, da fisionomia dos jogadores, do modo como classificam as cartas na mão - para chegar ao verdadeiro estado do jogo. Prefiro a perspicácia intuitiva à indução. Nossa amiga nos oferece um banquete de sensações e dados para analisarmos... Mas as coisas nunca se repetem. Se começarmos supondo que a exposição oculta e não mostra e não que a exposição distrai...

- Não estou acompanhando, Momai.

- Oh, às vezes me parece que, quando eu estou pensando sobre um caso, a natureza toda pensa comigo.
- Jung diz mesmo que não sabe onde começa e acaba o inconsciente... - Hélio disse.
- Pensando nisso, lembro de ter visto o mesmo trecho do conto usado num livro sobre sistemas caóticos e complexos. Poe expressou profeticamente uma ideia hoje muito importante no estudo desses sistemas. Não sou bom em matemática, mas penso que esse artigo dizia que um atrator estranho é uma região para a qual tendem os eventos futuros de um sistema, apesar desses eventos terem muita distância entre si. Além disso, pequenas variações iniciais levam à resultados muito distintos no futuro... Neste caso... Da superfície para a verdade da estrutura, ou da estrutura para a verdade da superfície? A aparência também é estrutura...

Na mansão, paredes de quadros se ofereciam para análise. 
- Por onde começar? Cubismo ou Tachismo? A carta estava muito "à vista", por isso não era vista - disse Hélio. 
- Vamos buscar uma parede secreta. O mais difícil. O atrator, não o evento. 
- O mais difícil não seria um cofre num banco?
- Não para quem quer estar na região mostrar/ocultar, dentro/fora, visível/invisível - Momai passava as mãos pelas paredes. Viu uma tela com moldura oval, dourada, no estilo de "vinheta", com um busto delicado de jovem se fundindo com o fundo negro. 
- As equações são explícitas e deterministas, mas o resultado tem um alto grau de incerteza... Poe: o atrator estranho. 
Moveu o quadro e empurrou a parede atrás dele. Ela girou. Hélio parecia estupefato. Um envelope estava sobre uma mesinha. 

- Ela fingiu expor o objeto para nos confundir, disse Hélio. Ao usar como método uma referência tão clara, estava na verdade direcionando nosso olhar para a carta "manchada e amassada" no "porta-cartões".  
- Pior que isso. Por que alguém iria imprimir uma foto para os arquivos oficiais? São cúmplices? Suspeito que o que resgatamos não seja mais que uma foto comprometedora falsa. Imagine a seguinte situação: o pai é informado pela sua espionagem de que certos comportamentos do filho são notados; pede ao serviço secreto que finja obter uma foto do rapaz levemente comprometedora: por exemplo, ao lado de uma garota com os seios à mostra junto com um amigo. A foto é deixada na mesa quando se percebe a marchant, devidamente identificável. Quem levou à "Carta roubada" foi o pai.
- Claro! De alguma forma se especula sobre o escândalo, mas não sobre a homossexualidade do filho! Mostrar para ocultar...
Hélio pega o envelope e vai abri-lo, mas é impedido. 
- Uma pequena mudança nas condições iniciais leva à resultados que estão muito distantes entre si...

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O trabalho Uma pequena diferença de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, fevereiro 03, 2013

Presente diabólico

O centro parecia deserto, com seus prédios antigos e calçamento de pedras claras. Alguns moradores de rua, um carroceiro, seguranças. Sentaram e pediram um café.
 - Trinta minutos esperando para sair do bar, chuva torrencial. Meu guarda-chuva se desmontara. As calçadas estavam cercadas por rios. Eu vi uma mãe pulando com um bebê de colo por sobre a água. Foi um mês inteiro em dez minutos de tempestade - dizia Momai num jorro. 
- Pai, tudo bem. Hoje vemos essa peça e pronto. Não fico magoada. Não sou mais criança. Conte-me sobre o caso. 
- Só espero que sua mãe não... - ela deu uma risada - Ok. Uma mansão. Uma festa de aniversário. Invasão. Os homens são presos no banheiro. As mulheres, amordaçadas, vendadas e estupradas coletivamente. Terrível. 
- E você desconfia que não foi nada disso. Por causa do poema de Lorca. Realmente, é estranho apenas uma delas ter sido morta. 
- "Tua boca já sem luz/para minha morte". Por que uma secretária escreveria isso na primeira página de sua agenda?
- E você comentou sobre uma reportagem de jornal guardada, na mesma agenda, sobre o comandante da polícia que teria ordenado a morte de uma juíza, e foi pego pela nova lei de armas, que obriga registro de toda a munição, para saber quem a comprou. 
- Outra reportagem falava que a maioria do Congresso recebeu mais de 1 milhão da indústria de armas. E quer modificar a lei?
- Realmente: é muita coincidência. O chefe da moça era o presidente da Câmara, Marcelo Costa, que acusou o prefeito de corrupção e conseguiu sua cassação. Sobre a festa, você parece duvidar da teoria da invasão. 
- Muito fraca. Os donos da casa, dois irmãos, afirmam terem sido amordaçados e trancados em um quarto, enquanto suas esposas foram trancadas no banheiro. Por que todas as mulheres foram estupradas, menos suas esposas? 
- Você acha que a vítima pode ter visto os criminosos? E a "invasão" seria uma espécie de "presente de aniversário" demoníaco? 
- Sim, ao que parece. Não acredito que estou falando isso com minha filha adolescente. 
- Se você leu Conan Doyle, sabe sobre as "tendências hereditárias". Eu fui feita para o crime. 
- Ele também pensava que tudo era previsível porque se repetia, não? O mundo era estável, e, portanto, dedutível sub quadam aeternitatis specie. Não haviam dito ainda: "A mudança é o sistema e os sistemas têm que mudar".
- Você falou de uma irmã da secretária? Vai procurá-la, não?
- Sim. Vamos subir, faltam cinco minutos. 

A irmã o recebeu no apartamento onde ambas moravam. 
- O senhor lembra que, no ano passado, o vereador defendeu publicamente um aumento de 60% para o legislativo?
O judiciário também pedira isso. O prefeito não aceitou e fez uma campanha pela mídia. Logo em seguida, foi julgado por corrupção. 
- Sim, estou ciente. 
- Minha irmã queria sair do emprego. Estava assustada. 
- A senhorita acha que pode ter ouvido alguma coisa? 
- O senhor deve lembrar que ano passado, durante uma greve da polícia, que durou 4 dias, ocorreram 180 homicídios. A maioria deles de jovens, negros, usuários de drogas da periferia. O prefeito estava pressionando por investigação. 
- Obrigado, senhorita. É bom termos quem lembre do dia de ontem. 

Hélio estava empolgado. Tomavam um sorvete.
- Um deles confessou. Eles mataram a moça porque ela ouviu seus nomes. Eles mesmos compraram os materiais para amordaçar e amarrar as vítimas no supermercado da cidade vizinha. Mas tem uma coisa que ainda me intriga. 
Eles juram que a ideia não veio de nenhum dos dois irmãos. Teria sido uma criação do terceiro homem, o André Padilha? Eles ficaram em silêncio. Ele sumiu. 
- Tenho uma teoria: por favor, rastreie o celular desse homem. Tenho certeza de que ele tem envolvimento com o presidente da Câmara. O diretor do Departamento de Homicídios, durante a greve de policiais ano passado, afirmou que havia a suspeita de que 30 assassinatos no período haviam sido cometidos por policiais? E chegou a dizer que o comando da greve poderia ter ordenado as execuções para causar comoção na opinião pública? O vereador Marcelo tem histórico de defesa de grupos reacionários. 
- "Tua boca já sem luz/para minha morte". 
- Os estupradores têm que pagar. E, quando André cair... Não é a República das Bananas, afinal. Nunca duvide do poder da arte - Momai riu, acabando com a bola de chocolate. 

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Presente diabólico de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O fantasma na máquina

- Desculpem o atraso - Hélio disse. Chuva e alagamentos.
- Por que você nos convocou, Momai? Não conseguiu sozinho? - a mulher elegante, aparentando vinte anos, disse de seu divã.
- Pare de irritá-lo, Perséfone. Ele nunca se apaixonará por você. Ainda que seja a única mulher capaz de parecer para sempre uma adolescente - respondeu um homem gordo, de bigodes, com um boné, camisa polo, casaco de tweed e tênis. 
- É evidente, Dr. Orlando. Ele só sente atração por mulheres vulgares - ela disse. E sabemos de algumas histórias de colégio...
- Ele não sabe o que é sexo faz tempo - disse um homem sentado em sua poltrona, alto e magro, muito bem vestido, de cabelos negros desgrenhados, que descansava sua perna mecânica sobre um puff.
- Crianças, crianças - a senhora de cabelos brancos e olhos violeta pousava uma bandeja com bolos sobre a mesa - Vamos direto ao assunto. Um cientista e professor famoso. A morte ocorreu por asfixia. Um hematoma grave na cabeça, caída sobre a mesa. Um papel queimado no cinzeiro e uma caixa de presente aberta. O quarto, trancado por dentro; a mãe e a filha, que moravam com ele, dizem nunca ter notado semelhante atitude. Uma casa muito alta. Ninguém ouviu nenhum tiro. 

- Lembremos do nome "Dyle" ou "Byle", que ele escreveu com as mãos trêmulas na capa de um livro antes de morrer, Albertine - Momai disse. Todas as descrições nos falam de uma inquebrantável força de vontade. Alguns falam mesmo de uma pessoa fanática. 
- Em primeiro lugar - disse o homem alto - é preciso perguntar quem são as pessoas ao redor. 
- Bravo, Maravoglia - a bela mulher falou - Quando fui convocada, fiz minhas pesquisas. O professor Shin Lun é um amigo, especialista em psicologia cognitiva, conhecido pela tese de que "não existem pensamentos e emoções: existem neurônios". Dr. Luiz Paiva, de tendência platônica, estuda a relação entre corpo e linguagem, com influência da antropologia e da psicanálise. Dra. Lisa Pietrovna é especialista em psicologia social e comportamento de grupos. Lívia Kartz é a professora assistente, ambiciosa, que vem ascendendo rapidamente no mundo científico e foi contratada à peso de ouro, depois de um doutorado na Suíça. 

Hélio estava ansioso. Não gostava de se sentir um penetra no Círculo, onde "mentes brilhantes" discutiam de modo ultrasecreto crimes "impossíveis". Dr. Orlando percebeu. 
- Nosso querido investigador chefe... Para nós, você pode contar. Continua escrevendo romances de detetive?

Ele foi pego de surpresa e interpretou como ironia: 
- Pelo menos eu não sou um velho médico sem pacientes, que gasta tempo com golfe e sessões mediúnicas.
O doutor deu um sorriso condescendente e pareceu desviar de assunto: 
- Algumas vezes eu me pergunto: por que as pessoas gostam de mistérios? Em parte, talvez por isso mesmo: provar que a realidade ainda tem brechas, sombras, está em processo. Além disso, um mistério mantém a intensidade da mente aberta, propicia a criação de hipóteses e incentiva a atenção flutuante; criar é um prazer para os humanos. Todos os livros são de mistério: o que vem depois, quem são essas pessoas, que linguagem ainda verei?
- Uma pistola de ar comprimido! É claro! Pela janela... Eu li isso em um romance, eu acho... - a senhora disse, enquanto servia chá. Ele recebe uma caixa com uma coisa comprometedora, sente-se mal, vai até a janela... Talvez tenha sido atingido ainda sentado. Mas não por uma bala, por um objeto inofensivo, até mesmo uma borracha comum, mas que distrairia as atenções... Alguém iria olhar ao redor quando o cadáver tem um hematoma? Mas, além disso, um ferimento enorme com bala de fragmentação poderia nos fazer imediatamente imaginar um atirador. Ou talvez... eles quisessem Momai!

- A caixa! O homem tentou queimar a carta ou foto comprometedora - diz Momai. O papel foi preparado com uma substância altamente tóxica... Lívia Kartz estava certa ao afirmar que o ambiente universitário era asfixiante. 
- Uma análise das cinzas pode confirmar isso - disse o doutor.
- Em uma conferência, há dois anos, ele disse: "As pessoas desejam consolação e acreditam em fantasmas: inclusive o Dr. Paiva. Se eu morrer, vocês já conhecem o culpado" - lembrou Hélio.

- Mas a pergunta é: por quê - disse Penélope, pegando o violino. 
Malavoglia falou:
- O sr. Ryle foi professor de Filosofia em Oxford e autor da expressão "fantasma na máquina", para criticar o dualismo cartesiano. Descartes havia defendido a existência de uma substância "mental" oposta à "material", tanto por não crer que as poucas peças que ele identificava como o cérebro fossem capazes de gerar as combinações necessárias para um pensamento adaptável, quanto para poder definir o mundo como máquina sem alma, e estudá-lo livre da Igreja. 

- Sim, disse Momai - Para Gilbert Ryle, era preciso usar a navalha de Ockham - não utilize teorias além do necessário. Seriam as variadas atividades humanas que nos levam a crer que existe vida mental. Além disso, apenas a ciência poderia nos revelar a verdade sobre nós mesmos. 
Momai levantou-se do sofá com um pulo.

- Ouvi uma palestra do nosso homem na internet. Ele afirmava que nosso comportamento e escolhas podiam ser definidos pelo ambiente e pelos genes. Parecia defender um ponto de vista filosófico de que só é verdadeiro o que pode ser medido e observado. Ele anuncia um artigo bombástico, no qual vai demolir definitivamente todas as formas de dualismo. Pareceu-me que sua defesa de que "os humanos são seus cérebros" era uma batalha pessoal e política. 
- Você está invertendo o argumento e dizendo que não há como provar que "a mente" não existe? Isso me lembra trabalhos recentes sobre a consciência como qualidade emergente de um sistema complexo - disse o médico. 
- Quando conversei com Dr. Paiva, ele me pareceu preocupado com a competitividade do colega - disse Hélio. Ele lhe teria escrito uma carta sombria, mas que havia desaparecido. Outros confirmam uma enorme animosidade entre eles. Ele me jurou que o tal "artigo bombástico" ficaria na gaveta por estar sendo criticado duramente mesmo antes de publicado. Shin Lun me descreveu uma conversa em que ele disse temer pela sua vida.
- Dra. Lisa chegou a falar de "disputa mórbida" entre eles - Momai completou. "Se quer achar malucos, procure entre os psicólogos", ela disse. 

- Parece que alguém quer evitar a desmoralização de uma teoria. Um dualista fanático. Querendo eliminar um cético materialista - Penélope disse.
- Quem mataria um cético? - Momai andava pela sala - Nos assassinatos do "psicopata profeta", uma morte, a de uma estudante, estava ligada ao pensamento de Mandelson - "Fé privada". Outra, a de uma empresária, à visão de Spinoza: "Deus é natureza". Estava falando da secularização do mundo e a culpando pela "libertinagem" e "capitalismo selvagem". Um "desvio" de uma sociedade secreta. No caso mais recente, imaginei que o morto fazia parte dessa organização internacional.
- Então aqui teríamos um terceiro "desgarrado" do time, pronto para desmentir o positivismo com sangue? - disse Lady Albertine. Digo isso porque a sociedade secreta se exporia demais agindo ela mesma.
- Ela pode permitir. Talvez seja um inimigo mais poderoso. Ele quer o jogo. Enquanto alguém pode ter convencido o professor de que estaria em perigo - disse Dr. Orlando.
Penélope largou o violino:
-  Ele recebeu a carta que ele mesmo havia escrito para Dr. Paiva - que rede poderosa! - e que podia criar um vexame. É insano, por isso, provável. Ele mesmo estava convencido da torpeza de seu colega. Como afirma o provérbio: "caráter é destino".

- Vamos procurar sinais de um atirador. Na frente da casa há um prédio vazio. E buscar quem poderia ter preparado o papel com a substância nociva. Mas eu acharia uma solução bem interessante para o incomum trancamento da porta. Obrigado, amigos. Até um dia. Vamos, Hélio. Temos trabalho pela frente.
Momai e Hélio saíram rapidamente. A chuva continuava. 
- Ele nos procurou por estar inseguro? Eu me preocupo com a tal sociedade secreta - disse Lady Albertine. É bom ficarmos atentos. 
- Momai nunca deixará de parecer um fracassado perdido numa cidade insalubre e inviável - disse Malavoglia, acendendo um cachimbo. 






quarta-feira, janeiro 30, 2013



O antiSherlock

Momai estava de férias no sul, em uma prainha remota, mas recentemente incrementada com lojinhas, supermercado, caixas de banco, um hotel, cheia de casas com flores e gramados. Um livro sobre impérios antigos, vinho. Era seu refúgio contra aquilo que as pessoas continuavam chamando de cidade, São Paulo. Sua filha havia fugido com o namorado, encontrada vendendo artesanato em Floripa. Quando estava já perdendo seu eu no meio do caos metropolitano... Havia chegado presunto novo, um extra como consultor do "serviço secreto", a polícia de inteligência.  Nessa cidadezinha, o crime mais terrível era o desaparecimento de um cão da vizinhança. Tyr, o deus da guerra, dormia tranquilo na sua carteira.

- Sinta-se honrado: parece que os crimes gostam de você – Hélio dizia no celular. Estava vindo, o caso de um rico empresário na serra gaúcha fizera com que a polícia solicitasse consultoria especial.

O homem morrera de causa desconhecida (não foi coração, nem objeto cortante, etc.) em um ambiente “hermeticamente fechado”. Nenhum sinal de arrombamento na casa. Fora encontrado nos seus aposentos pela sobrinha – no meio da noite, ela ouvira, do seu quarto, que era conjugado, um grito desesperado. A porta do tio estava aberta e ele agonizava junto a ela. Apenas pode dizer: “Callipolis”. Neste momento, chegou o cunhado, um alcoólatra desprezado por ele, que passava as noites fora.

Na velha mansão os recebeu a governanta, Dona Schultz, uma senhora altiva, com olhos azuis frios e um colar de pérolas um pouco extravagante para sua função.

– Ele era um tanto paranoico. Temos um alto muro que cerca toda a propriedade, com câmeras e cerca elétrica. Há mais ou menos 15 anos, bandidos entraram nesta casa e, desde então, mandou colocar barras de ferro na janela e nunca mais dormiu sem trancar as portas. Se tocar nessas paredes, como fazem os detetives de filmes, vai ver que são sólidas como as de um castelo.
–
Havia um sabre na parede e uma vela sobre a mesa. E se faltasse luz?

– Ele tirou as coisas do lugar? Parece arrumado.
– Sim, ele quebrou um abajur que ficava ao lado da cama, com certeza tentando se levantar, derrubou esta cadeira e abriu a porta deixando cair a chave de ferro.
–
Momai olhou rapidamente para a cadeia, a chave e as barras da janela.
– Com isso ele chamava a senhora? - apontou uma corda que, passando pelo duto de ventilação, descia até acima do travesseiro.
– Aconteceu apenas duas vezes nesses anos todos. Ele temia um colapso no meio da noite. Ela vai dar no meu quarto, passa por uma saleta ao lado. Se foi atacado, por que não me chamou?

Depois falou com o jardineiro, um homem soturno, meio delirante, que tinha certeza de que vira personagens no jardim que há tempo espionavam o patrão.
No enterro, Momai observou a sobrinha chorosa, com seu cabelo lilás e piercings, o cunhado ainda vermelho, que parecia nervoso, e a governanta.

– Eles tiveram um caso? - perguntou à jovem.
– Sim, mas não guardavam ressentimento. Quando jovens, viajaram juntos para a África, onde ela trabalhou como enfermeira voluntária. Ele a contratou. Ela o serviu mesmo depois que começou sua relação de uma década com Giulio, um marchant italiano do qual se separou há um ano. Andava depressivo.
– Você vai herdar tudo?
– Sim. Não é maravilhoso? Meu pai virou um trapo depois que mamãe morreu. Meu tio me explorou anos, um cárcere privado emocional, e agora me deixa livre. Apenas o sítio ficou em nome de Giulio.
– Ainda: a senhorita foi a primeira pessoa à entrar no quarto. Teria alguma coisa especial a descrever?
– Não. Nada. Ah, sim, talvez. Depois da perícia da polícia, o quarto havia sido liberado para a limpeza. Achei aquilo muito estranho. Inclusive, tive a impressão de ver Dona Schultz limpar até mesmo a cadeira, as grades e a corda da campainha. Bizarro.

Hélio perguntou, enquanto Momai tomava seu café com cuca (nunca encontrava isso em São Paulo):
– Callipolis é a cidade ideal de Platão?
– Exatamente. Eu lhe disse, quando previ que o deputado Coriolano estava organizando um grupo de extermínio, que a coisa era maior.
– A polícia acabou investigando o caso. Foi bom. Pelo menos ele foi afastado pela comissão de ética. Mas agora... Quem sabe o companheiro pode nos dar mais alguns fatos?
– Hélio, você sabe... Não se pode criar ciência amontoando fatos. Eu crio a mais bizarra teoria de que sou capaz e, se for a mais provável e nada a desmentir, tomo-a por verdade. Sou o antiSherlock.

Giulio contou, por webcam, que tinha certeza do assassinato.

– Ele tinha ficado com a maior parte de nossos quadros mais valiosos. Provavelmente íamos iniciar uma batalha judicial. Não vou ser rude, era violento e irascível, mas um bom homem. Estaríamos juntos se... Bem, só posso dizer que havia segredos, telefones secretos, cartas com lacre, havia um encontro anual inevitável em alguma parte da Sicília e que nunca pude saber o que era... Não posso viver com mentiras! Foram dez anos de felicidade, mas... Eu simplesmente sinto que não sou importante.

A perícia analisou a corda. Dona Schultz teve prisão preventiva decretada. Cartas ambíguas, mas importantes, foram encontradas em uma parede falsa do quarto.

– O último caso me fez pensar numa organização internacional, agindo por convicções filosóficas. Para Platão, o governo devia estar na mão de reis-filósofos. Não é improvável que ele tivesse decidido abandonar a causa. Quanto ao assassinato, a única forma de algo entrar no quarto seria por esse duto de ventilação, pela corda. Logo pensei em algo que escorreu por ela, mas desapareceu em seguida. Como numa obra antiga. Um veneno vegetal mortal, desconhecido, que tivesse de alguma forma evaporado. Mesmo assim, ela teve o cuidado de limpar a corda...

– O assassino está ligado ao último “psicopata profeta”? Mas como...
– Ele enlouqueceu e expôs a corporação. Podiam fazê-lo outra hora? Existem casos em que o estado presente determina completamente o futuro sem parecer fazê-lo, aparentando ser aleatório. Berkeley dizia: “ser é ser percebido”.  Agora, eles sabem que eu sei.

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sexta-feira, janeiro 25, 2013


Uma cidade

Adeus, prefeito. O melhor dos últimos 40 anos. Muitos cravos e margaridas nos canteiros. A praça, conhecida por ser escura e deserta, foi reformada, com calçadas ampliadas, e a população passou a circular e a sentar nos bancos ao fim da tarde. Foi o que mais fez casas populares. Trocou a lama e os buracos por asfalto, asfaltou mais que a capital. Reformou prédios históricos. Mas o jornal da cidade não gostava dele.
- A saúde é o fundamental – dizia o editorial quase todo dia – e o hospital tem filas imensas!

Só que todos os filhos de Dona Sônia haviam nascido naquele hospital, muito bem atendidos.
- Eu sou bem de vida, podia pagar. Injustiça não, comigo não – ela dizia aos quatro ventos.
A população, indignada, agitava-se nos bares e esquinas. Até Seu Otávio, comerciante antigo, em frente à praça, dizia, vendo as flores recém-plantadas:
- Mas olhem os outros candidatos! Um fazendeiro grosso, que governou a cidade por anos sem mudar nada! Uma madame desvairada que só pensa em compras e intriga! Um advogado que olha todo mundo de cima só porque seus avós são europeus!

Seu Manuel, plantador de maçã, de 82 anos, completava:
- Comunista, mas trabalhador...

Os jovens vibravam com um centro cultural embaixo da Igreja: cinema de graça, biblioteca, música clássica aos sábados e a história da cidade nas paredes. Elisa, advogada recém-formada, que passara 12 anos fora e abrira um escritório recentemente, colocou as mãos na cabeça:
- Vamos voltar a ser o fim do mundo!

O prefeito havia comparecido a uma inauguração no período eleitoral dez anos antes. Alguns panfletos antigos com as obras realizadas foram distribuídos nas casas durante a última eleição. O caso acendia debates: teriam escondido os panfletos para derrubá-lo? Seria inteligente fazer isso por alguns votos? Ele realmente era corrupto?

Dona Berta, empregada doméstica, disse à sua patroa:
- É, se errou tem que pagar; não votei nele, nem gosto desses meninotes que querem já ser prefeitos; mas dou graças à Deus da minha rua não ser mais de terra, senão... Está certo, está certo, mas no meu coração... Eu estou tão triste. A gente já viu tanta obra errada, tanto ladrão grande... Ai, o povo! O povo, sempre sofrendo! E, além disso, graças ao hospital, agora vou voltar a ter meus dentes.
A cidade ia silenciando enquanto o sol se punha. 

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quinta-feira, janeiro 24, 2013


Um boi que assiste

O cru é o mundo
(vivo, que se esconde)
E a linguagem é sua energia
(tanta ansiedade nos homens que passam)
O ar é obra do trovador
Só a rede faz o peixe
O amor, a guerra e o dia
(É a fantasia que cria a noite)

Palavras, nas cavernas, nas baladas, o canto do corpo
Palavras que reúnem o espaço
São as imagens as verdadeiras verdades
Na tela do pintor é que o mundo se completa
(E tu, pastorzinho, é quem as aparta
Pulando da cama para dar fim aos fantasmas)
Não podemos compreender o mundo sem seu retrato
O cru se oculta sob sete peles heterônomas
A seiva, sua calma primal.

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sexta-feira, janeiro 18, 2013


Raízes

Nunca pensei a fronteira
Barrancas do Uruguai desvi
O pasto nostálgico na minha alma
É um uivo lento que herdei sem pedir

O pasto, o pasto lento
O sonho, o sonho escuro
E eu corro, guri-cavalo
Lendas, mortes, lamentos 
(e a grama cresce, boiosa
E a vida passa – o tempo)
Alguma coisa de mistério

segunda-feira, janeiro 14, 2013


Sete flores

Onde andam as rosas?
Que são só ausência
Rosa, se te vejo
Nem sei como agir

Atrás de um portão
Em terra verde orgulhosa
Pendendo em cachos no vento
Só em pensamento

(E o belo  traço
Limpo e certo
Tecido na noite
Poesia de linha e pouco
- Quando esquecida e vaidosa
Tu lhe apontavas a origem -
As rosas não tem mais fio
Que as liga à última estrela)

Rosa sem odor
Rosa programada
- Para uma vida só de verão
Vida de quantidades -
Rosa tão cara
Mundo sem rosação
Tudo nos separa

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domingo, janeiro 13, 2013


Cidade Baixa

O plano era derrubar tudo e criar um novo bairro, chamado Cidade Alta. As casas antigas, o caminhar pelas ruas verdes e a vida boêmia seriam substituídas por “progresso”. (Érico Veríssimo, em “O lírio do campo”, mostrou como os espigões podiam ser fatais...)

Ele saía de um jantar romântico. 25 anos, cabelo castanho escuro, 1,75, ativo liberal. Estavam felizes e levemente alcoolizados. A Rua da Praia era toda dourado com suas árvores altas. Um carro veio em alta velocidade. Beckett é sempre igual: escuro, cara branca, será que em todo lugar é assim, ele disse dois minutos antes, Eu gosto.

Foram quatro meses dentro de casa. (Morte: Se n é a catástrofe final, n+1 não pode ser a catástrofe final; se n+1 não é a catástrofe final, (n+1)+1 não é a  catástrofe final. São uns instantes, aqueles momentos de branco em que você segura o pinto e espera o xixi e pode pensar: está tudo perdido, acabe logo com isso. Se o amor é filho de deuses, no mínimo deveria ser um semi-deus. “O fim está no começo e no entanto continua-se”.) Seus amigos (Vera – loira, livro preferido: Paris é uma festa, Sagarana, filme: Morangos silvestres, viciada em videogame, pós-roqueira, peitos grandes, falante compulsiva, poeta, formada em Letras, manicure; Cesar – advogado, grisalho, ex-amante, violino, jazz, O Gordo e o Magro e O capital, vizinho, você precisa de um emprego de verdade, é inteligente e bom) estavam preocupados. Um passeio no shopping? Um desconfiava do outro, era necessário.

Quando vai cair a última casa, caem os panos, um fim para nenhum conflito, como será viver nessa prisão, Cidade Alta, preciso morrer antes.

Foi assim que se conheceram: estavam girando o gôndola de livros de bolso. Seu celular tocou.  Não tinha forças. Uma das coisas que adorava fazer com ele era tomar chá com “biscoitos Natal” - caminhar à beira do Lago, brigar um pouco e fazer amor no frio. Tenho que comprar pão e uma cueca nova. Lembrou de Melissa, ficaram juntos uma semana, por que lembrei dela agora, ela usava meias brancas na cama. Abaixaram os olhos, como quando as coisas são grandes. Silêncio, outro olhar, vou sair, ele falou alguma coisa, você também gosta de Thomas Mann?, telefone, bebida, foi bom pra você. Ok. Tudo vibra, tio Heráclito, ou, como disse Cesar, parece haver um movimento intrínseco aos níveis mais elementares da matéria, mesmo no zero absoluto há energia. Tudo que é duro desmancha no ar.

(Pensava sempre num jogo impossível: as regras mudam com o tempo: no início do jogo, os peões comem as peças em L, os nobres ficam imóveis dependendo de seu vizinho ou comem uma casa para frente; depois, isso se inverte, quando resta apenas a metade dos peões; no fim, os peões podem escolher qual seus “modos” e o rei ataca em todas as direções ou sai do tabuleiro).

Ele voltava à ativa. Seu celular tocou. Um cliente no outro lado da cidade. No taxi, observava os casais de namorados, as casas baixas tornavam a vida mais humana? Não há mais natureza, lá fora é só poeira e a destruição completa, só existe sono, despertar, noite e manhã, ele disse. No futuro, seriam implantados chips para monitorar nosso batimento cardíaco? Em centrais de controle? E quanto aos miseráveis? Receberíamos mensagens quanto ao nosso desempenho profissional semanal, nosso progresso rumo ao “sucesso”, sobre nossa performance sexual média, gráficos sobre as melhorias semanais do governo e novos empreendimentos imperdíveis? Adeus Cidade Baixa. Quantas histórias ficam grudadas em uma parede? Como seria quando cada prédio de 15 apartamentos se tornasse uma torre com cem? Os vereadores falavam em “requalificação”, “atrair público novo”. As leis existem, e daí? Os escravos viveram ali. Nesta casa, Getúlio Vargas começou a planejar secretamente a Revolução de Trinta, lembra. Tudo tem que melhorar nesse mundo - dizia um vereador.

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quarta-feira, janeiro 09, 2013

Maria 


1
Eu fui sua aia na França. Eu vi quando ela dormiu como uma égua fogosa com o rei e outros cavalheiros.
O rei inglês percebe seu sorriso na corte. Ele ordena que ela vá ao se quarto. Ela resiste, discutem em particular durante uma caçada.

O marido joga-lhe na cara sua antiga ligação com o rei. Ela chora. Entrega a ele seu bebê com raiva. “Seus filhos terão um nome graças a mim”.

Sua irmã retorna à corte. Ela incentiva que se case com o rei.

Os pais a isolam da família devido aos boatos sobre seu passado.

A irmã aborta. Manda chamá-la. O rei a está traindo.

2
A princesa, a maior beldade de seu tempo, quinze anos. Ouro sobre tecido vermelho. Os navios foram desviados pela tempestade. Eu fiquei com ela quando todos a abandonaram. Sua comovedora carta, quando, viúva depois de três meses, foi encarcerada como manda o costume, dizia: “Agora peço à Vossa Alteza, meu Irmão, que me deixe retornar à minha terra e me case por minha vontade, que obedeci sua vontade como serva fiel”.  

Soube que minha dama estava na corte e que o rei demonstrava interesse por ela. Pedi que intervisse para libertar-me e que eu pudesse casar com o duque da minha escolha. Eu retornei depois de longa negociação, pois alguns queriam que meu casamento representasse papel junto aos Habsburgos, tendo sido obrigada a dar minhas joias ao meu rei.

Nós nos separamos quando minha irmã (funesta Fortuna a nossa) se tornou favorita do rei – sua família desejava outra coisa para o irmão. Mesmo lutando pelo casamento, sou afastada da corte depois dele.

A duquesa, minha amiga antiga, me escreve dizendo que está muito doente e dá a entender que seu marido está interessado na noiva do filho, de dezoito anos. Quando ela morre (o filho a segue em pouco tempo), o caixão baixa na Igreja de Santa Maria, destruída pelos iconoclastas uma década depois. Pela vontade de Deus, seu corpo é resgatado.

3
Ainda jovem, fiquei conhecida como devassa. Na França, se vivia com muito mais liberdade; a corte italiana ensinara a vaidade, o culto à beleza e o amor carnal aos nobres. Eu me diferenciava apenas por uma língua ferina e por não deixar um homem ignorante sem resposta.

Dançam. Ela corou quando ele falou ao seu ouvido. Seria rainha?

Os boatos de que estaria grávida do rei não tinham nenhum fundamento, mas seu filho Henrique tirou o sono daqueles que pensavam que um varão ilegítimo podia ascender ao trono.

A irmã mais nova, levando em conta como o rei desprezara sua amante, exige que ele se divorcie quando percebe seu interesse.

A irmã sofre com a peste e manda chamá-la. Pensa se não seria um castigo e conta um sonho em que viu a si e a seu pai serem enforcados.

Ela se casa em segredo com um serviçal de seu pai.

Sua irmã sobrevive e casa-se com o rei. Ela é banida. Escreve cartas implorando ser aceita novamente na corte.

Ela se desespera vendo os dois sendo acusados de traição e presos na Torre. 

Herda ricas terras de seus pais e seu filho, Henrique, se torna importante conselheiro da Rainha.



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terça-feira, janeiro 08, 2013


A morte de Ivanov

Em silêncio, à mesa rústica, à luz de uma velinha fina em um candelabro de prata, ficava o autor. O chá estava frio, jornais espalhados pela mesa. Sentia aproximar-se uma crise. Ouviu uma música. Sua Bíblia velha, por um momento, lhe trouxe à mente os dez anos terríveis na prisão e na infantaria no gelo. Sentiria novamente seu corpo se duplicar? Novamente aquele poder lhe tomaria, o que ele chamou de Deus? A claridade que tudo transfigura, um êxtase sereno, o sentimento de ter entendido e justificado a vida e a esperança. Mas não: aldeias incendiadas, filas de homens fuzilados, centenas de camponeses enforcados, multidões caminhando na neve em pleno inverno. Tentou em vão mover o corpo, paralisado. Onde a liberdade pode nos levar? Um estudante atira no czar. Um ativista volta de Genebra com um mandato para organizar uma sociedade secreta. Eles matam um dos membros que decide abandonar o grupo. Passam mujiques levando machados/ Algo terrível vai acontecer - ouve.

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segunda-feira, janeiro 07, 2013


Na casa de chá

Uma tarde muito quente, sentamos em uma casa de chá e ficamos observando as flores e ouvindo os passarinhos da praça em frente. Nós estávamos trabalhando na abertura da Avenida Farrapos na capital, e eu vinha mostrar a serra ao meu colega. O movimento surpreendia para uma segunda-feira: os moradores da cidade vinham em busca do pão caseiro, das cucas e pastéis para um chá da tarde, e os forasteiros, mais em busca dos doces artesanais.  A dona, uma senhora gorda, loira e de grandes olhos azuis, apareceu para recolher louças, e meu amigo começou a perguntar algo; logo começamos uma boa conversa:

- Essa casa começou com meu pai. Eles passaram muito trabalho como colonos e ele queria uma função mais adequada para minha mãe - expliquei que os primeiros alemães haviam chegado há cem anos. Eles se orgulhavam da biblioteca pública, da faculdade e de não haver analfabetos na cidade. Tinham até um banco dos moradores. Ela continuou - Tanta gente interessante já veio aqui. Tem gente importante que sempre volta, clientes que param na cidade para tomar um café e comer uma torta.

Comentamos da cidade, de como era florida, calma e agradável. (Eu percebia que ela olhava para os lados, mas ficou tranquila quando viu que os funcionários davam conta dos clientes). Falamos sobre o crescimento inevitável, do nosso trabalho, que, planejado desde 1914, só saía agora, sobre Jango e os novos espigões da capital.

- Que horror, fujo de cidade grande! Se eu pudesse ia para o fundão onde morava minha mãe! E essa coisa de construção... Lembro de um senhor que veio aqui há alguns anos... Ele trabalhava na modernização do presídio – iam criar um controle dos presos que entravam e saíam. Isso porque eles viviam transferindo presos de um lado pro outro, e onde saíam dez, chegavam oito... e quem diz? Não se conseguia fazer! Peixe grande ia perder... Depois ele trabalhou nas estradas. Iam fazer o mesmo para controlar os contrabandos nos postos... “O senhor veja, veja que todo funcionário aqui tem carro. O senhor acha que isso vem do salário deles? Não, temos de demorar uns anos pro pessoal se adaptar, senão não sai projeto nenhum” – disse o responsável. Segundo ele, levou 10 anos. Ele contou que estava em uma reunião com quatro vereadores e um deles por nada queria aceitar o projeto. Outro disse: “Liga logo pro teu capo e pergunta o que ele quer. Vai que o cara te apaga”. Falou assim, na frente de todo mundo!  Acabaram diluindo o tal “controle”. Dizem que os comunistas querem tomar o Brasil, mas eu te digo, quando o Jango fala de reformar o sistema penitenciário... O Jango é estancieiro! O senhor sabia que “eles”, “eles” querem vender o banco do estado? Dar, eles querem dar de graça!

Ela pediu licença e saiu com um sorriso. Comemos nossas tortas de morango um pouco melancólicos e pensando que são surpreendentes os homens. 

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domingo, janeiro 06, 2013


No cemitério

Fazia mais de uma década que eu não retornava à minha cidade natal. Eu chegava à frente desse túmulo com um misto de reverência e nostalgia. João Fernando Peixoto de Andrade, escrito na pedra. Uma inteligência brilhante, um homem que poderia, como se dizia à época, ser de “Estado”. Seu sobrinho, ao meu lado, me guiara até ali.

Aposentei-me como advogado, mas na época de minha juventude servira como soldado. Durante os anos de nossa adolescência, fôramos amigos inseparáveis, mais que irmãos. Descortinava-se para nós o nome de filósofos antigos, de literatos franceses, nos quais um introduzia o outro com frenesi, e discutíamos até mesmo o ocultismo, a sociologia e o positivismo, e as seitas herméticas e pitagóricas. Ele tratava com pessoas de todas as classes com eloquência e simplicidade dignas de um diplomata. Conhecia tudo e demonstrava modéstia que encantava a todos – no íntimo, eu pensava que não era páreo para ele, e sofria por meu orgulho em não admitir publicamente sua superioridade. Escrevíamos poemas, Lamartine, de Nerval, Apollinaire e Verlaine esquentavam nosso sangue juvenil. Quantas vezes chegamos a dormir encostados para fugir ao frio das noites nos capões, depois de uma caçada ou pescaria, enquanto nossas roupas secavam ao fogo.

Ambos entramos no exército na mesma época. Ele, condecorado por bravura em seguida, logo já tinha sua cota de maragatos mortos. Eu seguia sem volúpia minha vida de soldado raso. O destino quis que ele se tornasse meu superior, bem na época em que eu casava com uma moça escolhida por minha família, mas que me deixou contente. Eu mesmo tratei minha esposa como um cavalo faminto, talvez por uma educação demasiado puritana e uma juventude toda de freios curtos, e ela, apesar do interesse inicial, logo me pareceu fechar-se e esconder algum segredo. Entretanto, na minha imaturidade, achava até indecoroso tentar desvendar as tristezas do coração feminino, às claras, não tendo sequer paciência para isso. Eu procurei meu amigo assim que a novidade do casamento passou, pois sempre me vinham à mente nossos bons momentos, mas ele se tornara frio e distante.

No trabalho, reprendia com severidade meus erros comezinhos e chegou a me humilhar na frente do batalhão. No início, porém, essa brutalidade era temperada ora com uma discussão sobre Wagner, ora com o comentário sobre uma nova crítica ou livro de beleza sublime (fomos uns dos primeiros a ler Proust, ainda em francês, e se discutia se seria reflexo de um esnobismo decadente ou o maior romance da literatura do século). Mas, por vezes, eu o via olhando-me com uma dureza assustadora. Pensava se isso não se devia ao seu leito frio, mas não tinha coragem de tocar no assunto. Percebi que cheirava à uísque pelo menos uma vez por semana. Eu o vi dar socos e bater a cabeça na parede, numa madrugada, chorar bêbado como um miserável no canto do banheiro, e, certa vez, tive de defender um pobre cão de sua violência. Começara a me interessar pelo violino (somente minha total falta de talento me faria desistir finalmente) e pelos casos sensacionais e polêmicos do tribunal - minha paixão se acendia, obliterando todo o resto. Minha mulher cedo contraiu uma doença que exigia constantes cuidados e minha alma se tornava também instável e sombria.

Certa vez, por um descuido meu, a vida de colegas foi quase posta em risco, mas eles mesmos tomaram isso como falha de avaliação ou percepção confusa; enquanto meu general puniu-me gravemente condenando-me a um mês de solitária, segundo se disse, instigado pelo meu “amigo”. A partir daí foram inúmeras as armadilhas em que me meteu, e eu passei a viver desnorteado, sem saber direito em quem confiar e onde pisar. Percebi também em mim um pensamento mórbido e obsessivo por sua pessoa – quais os motivos, como essa transformação se dera, onde eu errava e onde ela erraria? Sua foto nunca deixou de adornar minha cômoda, como a de um modelo de erudição e linguajar elegante, o que irritava sobremaneira minha mulher. Por fim, abandonei meu serviço, passando a morar novamente na cidade vizinha com meus pais, o que durou um ano.

Em breve, minha esposa veio a falecer, e achei-me em negra desgraça - pois, como me diziam, uma casa sem descendência é como um capim seco – sombra apenas amenizada pelo estudo infatigável das leis. (Mais tarde adotaria duas crianças, filhas do meu empregado). Além disso, nas noites, insone, dizia para mim mesmo que nunca amara essa mulher verdadeiramente, mas fora o tempo todo egoísta e inacessível. Quanto ao nosso homem, quanto mais subia, mais amargo e cruel a todos se mostrava, e parece ter repetido aquela forma de agir; uma conspiração sua logo foi descoberta, tendo sido expulso da companhia. Ouvi agora que João foi morar numa casinha num mato e viveu pobremente (a criação de um tipo de cão grande de caça parece ter sido sua renda e, talvez, algum contrabando), muito solitário, arrastado pela bebida, até seus últimos dias. Pelo menos uma vez por semana, tiros eram disparados no lago vizinho, assustando à todos.

- Que estranhas emoções se aninham nos corações humanos, quantas cavernas escuras – disse o sobrinho. Encontrei três cadernos grossos cheios de sonetos na sua tapera rude, dedicados ao senhor. Apesar do ódio, prevaleceram as lembranças de ensolaradas conversas sobre as possibilidades de uma vida a ser escrita – disse, entregando-me o material ricamente encadernado. Eu sentia o mesmo, assim como um incompreensível remorso. 

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domingo, dezembro 30, 2012

elegia para a metrópole



0

Ah, bela, engenhosa Fidalga 
vento-ideias, continente-ânsias
(os escravos viram bicho para sair do trem enlatado
o escravo que cuida da segurança e repõe mercadorias no supermercado
ficará parado no tempo por uma cama quente
os deuses da guerra com as mãos manchadas de sangue
debatem que não podemos mudar, não podemos tirar
os homens não partidos mas emparedados em cimento quente
porque vivemos no século XVIII, vivemos entre bons proprietários amigos)

São Paulo, caminhos a urgência do planalto e os poetas empilhados na terra
alimentando nossa em potência infância
pátria dos que correm o mundo com o teatro
cor da lona de circo, trocas, antigas de trilhas -
força e reencarnação - do pensamento
castelos de sonho brotando do osso adubo
teus anarquistas, teus presos, teus rebeldes
abolicionistas carregando um herói morto
e os ieieies da Augusta e Wisnik
um lado que vibra e flutua com o tempo - e ordem mumificada
o deus Hermes abre os livros em terras puras
contra a Serpente gigante que tudo congela
começam sombras e aventuras

I

Ah, bela São Paulo, te olhar com olhos serenos
Tua alma é serpentear e exibir para procriar
Tanto me deste, me tiraste – eu brotando e gemendo
a violência do inferno que arrasta para a não existência
(possa eu retomar o rito e olhar o dentro de silêncio sem medo de definir o certo)

Sinfonia no tempo, energia crua do raio, que tudo renova
Amiga do conhecimento, amiga e irmã desonrada e fodida
As fachadas da tua antiga glória - olhar onde se compra e se vende
Alegria da instabilidade, onde teus czares refazem caminhos
Camada sobre camada de flores plantadas que ninguém apaga
Enquanto teus reis tentam um novo mapa, vender a terra, controlar
O hoje como violência, a folha na roupa, o salto do salmão

Dança dura e esperança
O sentimento de um cão
O inferno do pobre, o purgatório do guerreiro, o paraíso do parasita
Eu te desejo muitas árvores, e a graça da tua história que salvará as almas mortas
(Andam fantasmas ladrões de alma, gritando pelos vidros espelhados)
Quando a gente ama, vira poeta

II
A intriga, a sombra, a vaidade
(Nascidas da solidão? que a arte alivia?)
Eu acuso a aristocracia delirante
Meu amor não é olvidade
Feita de sementes, e de duro embate
E onde tudo brota, deseja e espera ardente
Eu conheço o sombrio medo da cidade
Uma fétida Medusa, um jovem poeta? entre da gente os passos
(que olhar de pedra te fez? quem criou teu desespero?)
Insetos venenosos proliferam
Uma doce melodia tu cantas, manda um Rato

III
Rainha dos velhos tempos engravidados
Que seriam teus campos semeados
Se tua nobreza os olhasse brotados
Eu acuso a aristocracia brilhante
E a diplomacia e a condescendência de amabilidades mofadas
Por que Fiódor, eu não posso descrever paixões do céu e da terra, luz e sombra como tu?
Por que eu navego em tempestades de copo e tudo ao redor tornou-se trivial e conversa fiada?
Por que não existe o erro, a filosofia, a política, a sociologia e a religião são imensas, dão sono e sobem muito alto para nós?
A minha geração não tem inimigos porque é frígida, ama o sucesso e o sono
Treme em desagradar os poderosos, em derrubar e lutar pela luta
O mau gosto: um ponto de vista.

IV
Máquinas gigantes, multidão, cancan do girar infindo
Um povo forte espatifado e uma nobreza doentia
Um pouco analfabeto sem dentes pop e violento
Um pouco internacional belo filósofos e violento
Deixai as massas apodrecerem?
A febre individualista de uma cidade que tem medo de dizer-se
O deixar ir e a paixão do coletivo
Terra de Heráclito, onde conflito, discórdia e guerra
Esconde uma pulsão maior – eu louvo teus cantos diversos
Deusa de aço e corpos suados e peixes no Tietê
Tua ousadia, teu espírito bélico, tua sujeira e maldade
Maracas tonificadoras, deixe o pensador gozando no alto monte
Teu manto de pedrarias e de sonhos e jade
Tuas ruas, dedos de ouro, flores, cavalos marinhos
Em cada cérebro tua dança selvagem lavra, apodrece e germina
Viva tua gula pelo novo, tua distância, teus ganchos para nervos excitados
Gerações fizeram teu banquete, com pó, sangue e coração cortado e aberto
Agradeço tua boca que me devora, onde tudo se cria e copia, mar
E, esse incessante tambor que mostrou mais e diverso,
Prazer da régua, universos, logro, saber por outros logos
Lutemos por organizar sendo o centro móvel com o passado
Salas vazias, corações de plástico - tornei-me japonês, os anjos dos mil cantos da terra
Onde todos são índios, os olhares aceitam apesar de tudo
Quantas janelas para vidas, quanta fúria descoberta, como se pode ser humano
Caiam as cataratas do esquecimento sobre a tempestade que me desloca na parada
O céu, teu céu foi preso em cinza e leis, mas os deuses de ferro também caem
Amo-te, mosaico máximo, defende tua liberdade!

V
Mas os palhaços sádicos chegam com sua barraca
 - A rica pensadora livre com seus cachorrinhos e contra o comunismo
O grande político que vive de engenharia e partidas de vôlei
O fanático jovem que despreza a política para fazer a revolução
O jovem repórter assustado sem tempo para pensar e descobrir
A futilidade, a arrogância e a raiva dos duendes maus
Não são esses: pó luminoso e asas azuis em pés de fada
E os tigres que falam e as pedras cantoras; rios de chocolate e atores
Que olham da Lua e da Lua choram e riem, o peso
Vida dupla, vida detetive, sanfona e sapateado com sarcasmo
Porque a razão faz tudo mover-se e circular, eis a força!

VI

São Paulo, a chuva no dia imundo
a dor do saber contra o reino morto
Mário onde cabe o mundo

e um instante de pura alegria
memória viva e desejar
caos e poesia

catedral de forças
aranha incansável
tece um eu de milhares

teu passo agitado por entre casas
perder-se, ouvir, o sonho
um pouco de chão e outro de asas


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terça-feira, dezembro 25, 2012

Força maligna 


Eu estava exausto e desnorteado. Que outras torturas sofreria? Viriam o carrasco, o espião, o homem de fé perturbar meu corpo e mente? Meu vigia começou a contar sua história delirante: “No início, eu tinha uns 18 anos, ligaram para meus pais da escola pedindo que eu não fosse. Logo eles escondiam pessoas e queimavam livros. Os jornais estampavam: Um dia glorioso para o país! Eu parei na esquina para falar com colegas. Um policial se aproximou, furioso: Mais de dois é comício, disse. A universidade foi cercada. Começamos a tomar drogas num gesto louco de rebeldia. Fomos levados para um campo de trabalho, ou, como descobrimos depois, de extermínio pelo trabalho. Tirávamos minérios da terra, vivíamos sujos, sem comida, sem remédios, apodrecendo. Os piolhos nos sugavam e cresciam. Eram muitos, na confusão mental em que estava, e tendo ouvido falar que inquietações nervosas geram alucinações com insetos pelo corpo e infestando as casas, pensava se o inferno não seria  fruto da desorganização de nosso cérebro. Muitos choravam e tinham ataques de fúria batendo a cabeça na parede, ou começavam a tremer, ou falar com os mortos com os olhos fixos. Um deles chamava pela mãe a noite toda, mas nós nem ouvíamos mais. Começamos a comer os piolhos infectos no nosso desespero. Meu pai, por fim, descobriu meu paradeiro e comprou os guardas para que eu fosse transferido para cá.” Eu lembrava da criança alegre que fora e de como gostava de andar à cavalo e comer amoras no campo. Que outras torturas sofreria? Naquela noite, quem viria perturbar meu corpo e mente?  

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domingo, dezembro 09, 2012

Homoioi


A velocidade cerca torres e mármore
Velho que anda como um animal faminto
Como contar-te tão carne sem ritual no abate - um moralista, realista, servo da fábula
eu, bufão da cidade, nem amo nem escravo, sacerdote do deva Fala
responsável por sacrificar com elegância para que as almas do Geush Urvan circulem -
e agora a chuva
Teus pés inchados vermelhos na pedra fria
De uma cidade nova, que faz tanta beleza
- A natureza existe já como cultura
são as máscaras que fazem o homem
os impulsos elétricos emitidos, a identidade
máscaras - ideal sobrenatural do ser
- o que troca moedas de diversos povos
sendo ele estrangeiro, varejista da agorai
é Hermes, pai das redes e dos novos produtos -
e você que não sabe o que é Decadência
e você, que cresceu como uma folha riscada em dois lados
não leu a Bíblia, você que não conhece vorticismo, Melancolia e simulacros
tua troca é um espelho horrível, metal sujo e ossos no cimento -
Velha senhora, roupas imundas, homem doente
Tuas unhas sujas, teu cheiro, teu olhar triste
pernas descarnadas no meu caminho que não quero esquecer
Mãe dos desejos vãos, Terra sem Dono
A decadência de uma metrópole brilhante
Brasil Paraíso onde o vento e a mata virgem
Que preconceitos, que arrogância metálica
Produz tua invisibilidade?
- A miséria não produz arte: o trigo russo, o vinho fenício,
perfumes e vasos pintados, ouro e prata e plumas, sim -
Que orgulho, que ignorância mortífera
no mesmo sempre ainda tema da guerra
- açoitados dolorosos quebrados em nossa semiótica e o Teatroclássico e fazeroquê
circulando entre hilotas ensinados a comprar motos e armas e aristocracia complaining em piscina de pérolas e livros e os pássaros cantando -
Nos acostumaram à misturar rebeldia nova e ferro velho
- o ignorante despreza, o erudito aceita e deseja -
Dandismo Luiz XV em noites, água, flores e veludo
Enquanto mais uma noite fria te açoita,  homem antigo


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