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terça-feira, outubro 15, 2013

Sobre o inferno 

Eu, Leonardo Flynn. Percebo que estou chegando na idade em que Rimbaud faleceu. Meu caro menino, meu amado, belo, depravado menino. O que seria de nós sem você? Você nos mostrou que para descrever a realidade, precisávamos conhecer e descrever a nós mesmos. 

Mas também essa fome de novos mundos, essa corrida pela vida, que eu, sr. Henry, reconheço nos bons autores. Essa poesia-prática que devora a Índia, a Arábia e a África, a suspeita de que há outra forma de ver. Vocês destruíram um império com suas frases de fogo, e ainda queremos esses mesmos deuses.

Eu te descobri tardiamente, os livros em minha casa não eram de literatura, mas a feira do livro de minha cidade era movimentada e rica e toda a cidade amava os livros. O som do teu nome magnético, assim como os de Shakespeare, Proust e Joyce, pegar um pouquinho de pó dourado daquelas auras. 

Eu, sra. Parker, penso que, de certa forma, eu também fui um jovem precoce para minha época (mas talvez não hoje, com os bebês e suas telas-de-toque). Aos 11 anos escrevia histórias em quadrinhos, minha primeira peça foi aos 15. Digo isso porque sinto que nós sempre subestimamos e, portanto, subjugamos as crianças e os pré-adolescentes. (Mas isso também pode ser apenas esquecendo delas ou dando tudo que querem). Já nesse tempo, eu pensava que a geração romântica e o jovem gênio de 17 anos eram meus aliados secretos. 

Com 15 anos, você estava em círculos boêmios de criadores. Sim, os artistas conviviam, tomavam café juntos e depois liam jornais e cantavam e falavam do mundo. E se amavam. Pobres, talvez miseráveis, mas em bando. Isso foi negado à minha geração (yuppie). Os "intelectuais" estavam muito distantes e os boêmios eram parte da burguesia. Um mundo de solitários, trancados em suas casas, com medo e aparelhos eletrônicos, um mundo sem ideais. É de mau gosto querer mudar. Temos tanto medo de sermos excluídos que servimos às hierarquias agradecidos. O inferno agora é ignorância bem informada. Talvez seja o espírito gaúcho, a ética do trabalho, o medo do invasor, e o gelo do tempo onde não há espaço público, muitos artistas com quem convivi eram francamente hostis.

Outros nem tanto, eram hostis só nos momentos cruciais.
Talvez ser vidente seja propor a vida como o mais urgente valor.
Penso também nas suas vogais. Nunca concordei com suas cores. Nos meus primeiros cadernos já escrevia sobre isso e fiquei chocado quando li o poema. A para mim tem tons alaranjados, lembra atividade e força. E é azul claro, quase branco, é sereno. I é amarelo, irritado, rebelde. O é branco, formal, ordenado. U é preto, profundo, ursino.

Você sempre foi um marginal por vontade própria. Contra as escolas mofadas e decrépitas. (Eu, talvez, marginal involuntário, incluído-excluído em turnos, porque meu mundo é mais perigoso, cheio de seitas fanáticas, e está mais difícil obter passaporte). Agora o sistema é global e um verdadeiro debate é impossível, porque felicidade é um sabonete e metal veloz, porque já nos deram a crítica com a crítica da crítica, porque a educação ruiu e as comunidades perderam sua diferença. Nossas elites deixam o povo sem transporte público e hospitais, dão migalhas de igualdade e defendem os direitos humanos na televisão.
Elas deixaram os pobres tão excluídos que eles criaram planos de carreira no crime e movimentam milhões, mas não vemos um movimento no sentido de sair das soluções de relações públicas.

Minha geração não tem mais contra o que lutar, somente contra o sentimento de que tudo já foi feito e está sendo vendido barato, que a vida mesma é secundária desde que você tenha algumas coisas. O conhecimento é uma forma de agressão. A natureza pode desaparecer. 

Agora que tudo parece e é vendido como muito estruturado, racionalizado, em franco progresso, os marginais são todos nós, vivendo como que à deriva, em um mundo dominado pela nobreza orgulhosa e bem articulada, com artistas que não conhecem a diferença entre opressão e libertação, uma tolerância e rebeldia que beira o fascismo. Nós já vimos tudo, e achamos que compreendemos tudo, somos cínicos e conformistas. Não temos mais um inferno para nos salvar. 

A desordem dos sentidos seria um bom veneno para a altivez petrificada, mas pode ser a forma mais acabada de acomodação. Enquanto isso, continuo marginal, porque o que busco não é o que se oferece. Mas quase não há mais esse mundo "outro", essa crítica ao modo de ser, essa problematização de toda a cultura e seus valores. Separamos "arte" de "ideal", mas podemos ter nos fechado numa caixa de chumbo, nem a posição temos para criar nossa teia. Abandonamos o dogmatismo (pseudo)marxista e ficamos vazios. 

Depois de vocês, o artista não tem uma lição à ensinar, ele quer duvidar e escutar, preservar através da destruição. Vocês adoeceram de morte o empreendedor guia que tinha como missão salvar os povos pelo trabalho. O sacrilégio, a preguiça, a luxúria são mais importantes que "Declarações de Direitos do Homem" feitas de domesticidade e honradez empobrecedoras. A realidade, que já estava pronta, no máximo uma questão de tempo, explode e a "razão" deixa de ser a "lógica do real". "A ciência, a nova nobreza!".

Ainda sobre você duas memórias:
Uma amiga pediu que falasse de você numa ONG da periferia. Quando contei seus erros e loucuras, pareceu ter sido imprudente. É como se ainda a "beleza" do poeta se misturasse a uma moralidade santificadora. Talvez o ícone medieval nos remeta ao alto, enquanto a lama toma conta do mundo e suas fraquezas. A descoberta da essência das coisas como trajeto incorrompido rumo ao acabado. A negação do tropeço iluminador. Da força dos objetos, sua teoria. Que o poeta ensina esse acolher da fragilidade, para que possamos andar em ziguezague, quando não temos certeza de nada, buscar esse desconhecido em si mesmo, uma voz pessoal.

Quando abandonamos os versos dos outros, já somos éticos. Porque fazemos coisas terríveis pela ambição de sermos parte de algo, de termos uma palavra de consolo, de estarmos de acordo. O que as pessoas chamam de "Rimbaud" pode ser ainda uma espécie de marca perfeita, um dogma, contrário a tudo que nos foi dito sobre a verdade do inesperado, do tumulto (ou, ao contrário, sua mitificação). A ética da arte é dialogar com o estranho da vida, querer abraçá-la, reconhecer seu rosto. 
Isso me mostra a incompletude desse nosso Brasil, sempre avançado, mas deixando pelas calçadas pedaços arcaicos.

Outra cena: lemos poemas franceses num bar, eu lia em português e um amigo no original. Abrimos debate. Uma moça que viveu muitos anos na França começou a falar sobre esse lado trash de Rimbaud. Meu amigo, de origem francesa, pareceu ofendido. Eu tentei confirmar, e daí?, mas não adiantou. Ou seja, a França, que foi nosso modelo de "civilização" na virada do século ainda é um ideal, um mito. Pior, a união do "belo" com o "bom" (mas um modelo pré-fabricado de "bom") é perigosa, porque os fascismos justificam sua violência pela beleza de sua pureza e ideais. Foi isso que sua geração mudou. A intensidade e a franqueza se tornaram valores e as coisas desse mundo ganharam seu direito à existir. Ainda somos colonizados. 

Mas se minha época é de confusão, individualismo e impulsividade, também porque nosso poder é suave, "liberal" e controla completamente as formas de participação e diálogo, posso dizer que vejo jovens absolutamente honestos e firmes, que vejo rebeldia real e mais disposta a jogar tudo, que novamente as velhas soluções parecem impossíveis. São ciclistas-ativistas, blogueiros, veganos, transgêneros, feministas radicais e gente que cria dinheiro local. Que ousam desafiar o que já foi decidido. Querem novos métodos. São videntes, mas não acham que sabem o caminho. São mais abertos à diversidade e não estão ligados à mesquinharias. Em um mundo que esconde de nós a verdade com tanto empenho, e corta as continuidades com sua instabilidade e rupturas, espero que esse espírito rimbaudiano viva da sua conexão com o passado e a razão, agora mais humilde e disposta à mudar. 

terça-feira, setembro 17, 2013

Aristóteles - uma introdução

Aristóteles foi um grande sistematizador do pensamento antigo, levando sempre em 
consideração as opiniões dos pesquisadores anteriores a ele. Através de uma equipe de 
colecionadores pôde classificar de modo eficaz uma série de dados, dando impulso assim à 
biologia, psicologia, astronomia, etc. 

Para os gregos, o universo estava em equilíbrio e harmonia, era o “cosmos”, em 
oposição ao caos primordial. A terra estaria rodeada de inúmeras esferas celestes, 
móveis, formadas por um quinto elemento ou éter, a primeira das quais seria a que dá 
impulso ao movimento que chega até o mundo sublunar (formado pelo fogo, água, ar e 
terra), regendo as cheias dos rios, marés, configurações dos continentes e mares. 
Influenciado pelo neoplatonismo que penetrou a teoria aristotélica no mundo árabe (o 
princípio motor torna-se Deus Criador), no aristotelismo da Idade Média européia as 
emanações do divino permeavam o mundo terrestre, cada ser era provido de uma “forma 
substancial” (estrutura abstrata do ser, que se manifestava como qualidade, frio, calor, 
etc.) 

Além disso, das causas pelas quais as coisas existem (material, motora, formal e 
final), a mais importante é a causa final, ou seja, o fim ou função pela qual existe: “A 
natureza não faz nada em vão”, ou seja, é perfeita e tudo responde a uma necessidade 
específica. Nos séculos XVI e XVII, a Igreja tomou esse aristotelismo arabizado como 
cavalo de batalha, pois um mundo mecânico sem Deus parecia surgir das novas 
descobertas científicas, como a mobilidade da terra ao redor do Sol, onde a mera 
extensão e jogo de forças justificariam os movimentos dos corpos. 

Também um novo método científico vai tomar o local do silogismo aristotélico 
(definição por relações de conceitos); através de comparações numéricas se pode testar 
as hipóteses, verificar as relações entre as medidas físicas. Para os sábios escolásticos 
medievais e os aristotélicos, para se chegar à forma científica usava-se à indução: vendo 
casos particulares chegava-se, por abstração, a uma definição precisa. Para os gregos 
havia uma ligação natural entre os homens e o universo, de forma que ter uma definição 
precisa de algo era conhecer a sua realidade última. Galileu terá de mostrar que, por falta 
de instrumentos como o telescópio, as definições de Aristóteles informavam pouco sobre 
o mundo, muito mais qualidades sensíveis (úmido, por exemplo), do que quantidades 
mensuráveis e representáveis matematicamente. 

Aristóteles influenciou mil anos de pesquisa científica no ocidente. Em que outros 
aspectos podemos perceber sua influência? 

Alguns conceitos base de sua filosofia: 

SUBSTÂNCIA 

Sobre o ser (“Aristóteles”, p. ex.) pode-se perguntar: 

O que ele é? 
Quais suas qualidades? 
Onde está? 
Como se relaciona com os outros? 


Cada tipo de pergunta quer um tipo de predicado (kategoria): de quantidade (tem um 
metro e sessenta), de relação (é filho de Nicômaco), etc. Haveria 10 classes. Também são 
vistas como “categorias do ser” classes das coisas “que existem”. Isto porque tem de haver 
alguma coisa ao qual o predicado se refere. Aristóteles é saudável. A saúde tem de existir. 

A primeira categoria, que corresponde a pergunta “o que é isso” é a de substância. 

Mas há muitos sentidos de dizer que as coisas são, e há tantos sentidos de “ser” 
quanto as categorias dos seres. 

Mas todas existem com relação a substância, pois é preciso que ela se mova, seja 
colorida ou tenha tal tamanho. A substância pode ser “distinguida individualmente” e 
“separada” , permanecendo essencialmente a mesma. Para os pré-socráticos as matérias 
eram substâncias ( como pó fogo ,a água, etc.) , para outros os átomos, os números 
(pitagóricos e platônicos) e para outros os universais abstratos ou idéias, como para Platão. 
Para Platão as coisas são brancas porque partilham da brancura Ideal, enquanto para 
Aristóteles as coisa brancas existem antes da brancura em si. 

Para ele substâncias são os animais, plantas, astros, artefatos como mesas e cadeiras: 
os objetos materiais de tamanho médio. 


METEORIOLOGIA 

O mundo sublunar é constituído de quatro elementos-terra, fogo, água e ar-
correspondentes a quatro qualidades primárias-secura, calor, umidade e frieza. Cada 
elemento tem um movimento para seu “lugar natural”-fogo para cima, a terra para baixo, Os 
corpos celestes são constituídos de uma quinta essência, ou quinto elemento, sendo divinos, 
vivos e inteligentes, e fazendo girar o universo. 

Alguma fonte imutável da mudança, estando fora do universo, incorpórea e, tem de 
iniciar o movimento, e “inicia a mudança como objeto de amor.” 

PSICOLOGIA 

Todas as coisas vivas são possuidoras de uma psique, uma força animadora, que 
podem ter faculdades simples como nutrição, como as plantas, ou estas , percepção e o 
desejo, como os animais, ou estes e imaginação que cria o pensamento, como os homens. 
Ter alma significa possuir uma habilidade, é um conjunto de potências e capacidades. As 
realizações não podem existir separadas dadas coisas que são realizadas. As almas são 
capacidades físicas. 

Há dois tipos de pensamento o ativo – separável do corpo, imortal e impassível, e o 
passivo, que depende da percepção. 

CAUSAS 

Buscar uma causa é buscar o porque de algo. A resposta é Isto porque Aquilo. Por 
causa de quê troveja? Porque A é B? Porque S é P? S é P porque Y. 

O vínculo que liga S a P é p termo médio. 

"porque S éP? por causa de M. S é P porque S é M e M éP."Porque as vacas(S) têm 
vários estômagos (P) Porque são ruminantes (M) e os ruminantes têm vários estômagos. 


Quatro causas : material, motora, formal e final. 

Material -constituinte a partir do qual uma coisa vem a existir: bronze 

Forma e organização - o rosto tem três vezes o tamanho do nariz 

Motora - fonte do primeiro princípio ou mudança: pai é do filho 
Final -espécie de meta, em busca de que se dá: exercício para ter saúde. 

Causa como forma-estrutura-organização -o que é e porque é são a 
mesma coisa: "A lua é eclipsada porque é privada de luz ao ser ocultada, e as coisas privadas de luz 
ao serem ocultada são eclipsadas" 

Causas finais ocorrem tanto nos produtos de atividades humanas, como 
na natureza: são “aquilo em busca do quê.” 
Silogismo: 

A) estátua é de bronze 
B) bronze é maleável 
C) estátua é maleável 


VIRTUDE E INTELIGÊNCIA 

A pessoa que desenvolveu virtude (arete) e inteligência prática (phronesis) que levam à 
ação correta, desenvolveu capacidade biológicas de modo correto devido a vivência numa 
comunidade (polis) onde a lei a justiça imperavam, onde a Dike (justiça) ordenava a cidade 
fazendo julgamentos justos. 

A ética de Aristóteles é baseada na eudaimonia e arete. Arete é “bem” ou “excelência” 
e eudaimonia é realização, sucesso. Ele deseja compreender o que nos leva a realizarmo-nos 
e a fazer sucesso na vida. A eudaimonia requer um fazer, realizar atividades, não é um mero 
estado de espírito. É agir de acordo com a excelência. Existem excelências de caráter como a 
coragem e a amizade, e existe “o divino que habita em nós”, ou seja, a razão, que nos impele 
a saber o que é bom e mau, e à atividade intelectual que atinge a excelência nos traz a 
realização e o sucesso. 


A raiz da palavra está ligada a “ser favorecido por algum deus”, ter sorte, e está ligada 
parte divina em nós, a razão (nous).A razão na Grécia tem uma relação sutil com a ordem e a 
beleza, a harmonia. O Universo era ordem, era kosmos, como uma jóia muito bonita feita por 
um artesão. 

Outro significado seria o de viver bem e ir bem , ou seja dirigir nossa vida 
racionalmente para guiar nossas paixões como quem guia um barco. 
Realizar o que somos na essência através de obras: “o bem para o homem vem a ser o 
exercício ativo das faculdades da alma em conformidade com a excelência” 

Justiça 
- o bem da polis exige as virtudes da soprosyne e da dikaiosyne. 
- Dikaiosyne é justiça corretiva e distributiva 
- A democracia é não-seletiva e a oligarquia não distingue pela virtude 
- os papeis sociais influem na virtude, por exemplo artesãos e mulheres, 

estas últimas por não terem controle nas emoções 
- é papel da cidade treinar seus cidadãos no exercício das virtudes 
- os cidadãos deveriam com a idade aprender a fazer decisões justas e isto 
exigia que tivessem todas as virtudes que iriam julgar, a começar pela justiça, 
“virtude em com que um homem desempenha seus papéis sociais projeta-o 
finamente para o aperfeiçoamento de sua própria alma na atividade contemplativa.” 
(MacIntyre, p. 122) 

Aristóteles no Séc. XX 

O filósofo grego tem sido retomado no século XX, desvinculado de sua roupagem 
cristianizada e neoplatonizada, sendo inclusive base de uma filosofia positivista, ligada ao 
filósofo Wittgenstein. Está mais claro hoje que Aristóteles não via o ser de forma tão abstrata 
como a interpretação árabe deu a entender, sob influência dos testos da época helenística 
grega. Conforme o professor Fernando Santoro: 

“Aristóteles é sem dúvida um dos filósofos mais presentes no séc. 
XX, seja pelas profundas transformações ocorridas nos estudos de suas 
obras e na interpretação de seu pensamento, seja pela influência direta na 
formação e discussão das principais correntes de filosofia 
contemporâneas, entre as quais a fenomenologia, a filosofia analítica, o 
pragmatismo, o neotomismo e a nova retórica, para citar apenas algumas 
das correntes onde as fontes aristotélicas das questões e dos métodos 
são evidentes”. 1 

Bibliografia:

Aristóteles, J. Barnes, Loyola
Justiça de Quem? Qual Racionalidade? MacIntyre, Loyola
De La religion a la filosofia, Conford, Ariel

Afonso Junior F. de Lima, 2008

1 Disponível em: http://www.ifcs.ufrj.br/~fsantoro/ousia/artigo_aristotelismonosecxx.htm

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Este trabalho de Afonso Jr. Lima, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Pyton


Eu guardava o antigo oráculo junto à fonte do bosque de loureiros ao pé do monte. Eu nasci da própria Geia profunda. Eu descia até a caverna-útero para escutar as sombras e guiar os viajantes. Porque todos precisam de uma luz escura. Essas deusas de coxas duras gritavam e dançavam ao som de Dionísio, mas ele as ensinou regras e proporções. Como paga, o furioso mestre da memória - dos adivinhos que olham além e sabem o que foi, o que é, o que será - exigiu o jogo, o recitar da poesia, a cítara e a flauta, som de meninos em roda no altar. 

Dizem que eu persegui Leto, grávida dos gêmeos, e por isso ele feriu-me com setas de prata e de minha pele fez um trono para uma nova profetiza. A verdade é que queriam por fim à palavra de Geia e estabelecer uma nova palavra. Com lógica nova, colocam cada um em seu lugar. Com a retórica de evitar a vaidade do combate e a ganância do comércio, pregam a austeridade, a disciplina, a severidade para consigo mesmo, a fuga do prazer e o esforço ascético. Sua razão de ouro é falsa, magia negra. 

Não acreditam mais que devem pagar tributo à Noite poderosa e à vasta mata. Que o mundo exige reconhecimento, que tudo pede equilíbrio. Não pensam mais que o invisível derruba, vindo por trás, de rasteira, a alma adoece, a raiva aniquila, a sorte e o acaso podem derrubar um carro em batalha ou naufragar o belo guerreiro de mais alta linhagem. Os nobres aprendem a falar e isso lhes garante a verdade nos debates, com orgulho esmagam razões alheias. Eles podem tudo, mas não cultuam seus mortos, e os espíritos se ressentem. Eu estou ao lado da Senhora das colheiras e enlouqueço Diomedes que feriu Afrodite. Eu sou um Dragão-Fêmea e, com as Eríneas, não deixo o mortal dormir em paz. Eu grito nos ouvidos dos criminosos continuamente seus crimes e faço com que sua vida perca o sentido. 

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segunda-feira, agosto 12, 2013

A criadora

Eles se chamam de Estado Francês. ela faz aniversário. C olha o azul liso e sem fim. Trabalho, Família, Pátria esculpido sobre as antigas palavras de 1789. esse homem quer roubar meu trabalho. salário de aprendiz. um velho diz que ela copiou seu mestre, ela atira a obra ao chão. As leis raciais começam a funcionar. aniversário do histérico. C anda pelas pedras claras. quando as amazonas chegarem, o padre disse, a arte será apenas delicadeza. eu não sou mãe nem esposa. C, na cama, sente frio. ele nunca vai largar a mulher. uma mulher não pode estudar o nu, o padre disse. Pode-se dizer que a seleção natural realiza seu escrutínio dia a dia, hora a hora, pelo mundo, de qualquer variação. trabalho doze horas por dia, suja, mãos duras. uma mulher não tem força para esculpir o mármore, o padre disse. o filho foi morto. escreve cartas. não me amarrem, não me amarrem. Rejeitando aquelas que são ruins e preservando e fazendo prosperar todas as que são boas. eu merecia algo mais, reclamo a liberdade. azul liso e sem fim. esculturas esquecidas nos móveis, malditas, são repartidas no inventário. natal. o funcionário do museu visita seu ateliê, elogia as três figuras nascidas do rompimento. aniversário da esquizofrênica. ela rasga a revista com: - Quando casares, senhorita, então criarás a beleza. C olha a parede de tijolos. quer roubar meu trabalho. Sobrevivência do mais apto: seleção artificial. as pessoas caminham na exposição e sorriem frente às obras. ela vende as últimas esculturas e vive solitária em seu quarto. C fica sem comer e morre.

domingo, agosto 11, 2013

Pai
Eu não te entendo
e você nem sei
mas existe algo além
Pai
você Flash Gordon
eu He-Man
mas existe algo além
Pai
Devem existir feridas para os psicanalistas
e jardins talvez
existe algo além
Pai
Você viu a escuridão que eu não vi
você conquistou a cidade em que eu nasci
você sabe coisas que eu não sei
e debate com os passarinhos
você não usou camisinha
e talvez seja por isso que
eu não tenho limites e nem norte
mas existe algo além
no feminino do teu canto noturno
no repente na roda sob o minguante
falo diplomático pós-freudiano
sorvendo o mate em gargalhadas
oferecendo um botão de rosa branca

Eu não quero que você seja perfeito
porque eu não sou
somos os possíveis que não ganharam o mapa
e nos restou colocar os ouvidos na terra negra
eu durmo ainda ao teu lado antes da noite crescer
eu eu diminui para o bem da humanidade
finalmente, eu perdi o interesse pela vitória
eu tenho preguiça de achar culpados
e a nós, que acabamos, não nos é dado
eu não sou mais o Senhor do Juízo Final
entre o você imaginado e o eu imaginado
criamos essa terra de alguém

Quantas peles têm uma cidade?
Quantas formas de ser humanidade?
você é toda a linhagem
de sábios, guerreiros, bufões
Essa onda orgulhosa e rebelde
Ensinando
que tudo tão profundo é relativo
que existe a justiça e precisa existir
que é preciso transformar
existe sempre e ainda
um céu estrelado
o chão rachado
e o silêncio
Você me disse: filho um poema
é feito de ontem e de hoje
Pai
tua lição não está à vista
e eu demorei
Mas ficou uma semente no unicórnio
do berço
de sempre ter um começo, existe algo além.


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quinta-feira, agosto 08, 2013

Julgamento


Eu lembro da cortina com pássaros vermelhos. A cortina com pássaros - mortos? No livro ao lado da cama. Na Bíblia está escrito: a palavra de Deus é viva e afiada e julga o coração como uma espada. Versículo 12 de Hebreus 4.  (No inferno: e ela passava batom nos domingos e recebia o namorado). A Bíblia diz: os estupradores merecem castração química. (Sujeira: e ela queria por peitos). Eu li no jornal o caso de uma moça que parecia possuída – o médico dizia - o desejo de transcendência pode ser pelo sangue ou pelo sexo, transcendência pelo sangue. Dizem: 87% receberão mais de um tiro. (Eles suavam. Quase sem barba, ela era uma rainha, ganhava presentes e sempre conseguia cigarros e até uma vodca pra quem podia pagar). A Bíblia diz, Mateus 10: Não penseis que trago a paz. Sim, as angústias não produtivas são monstros. A Bíblia diz: Não existe essa coisa de melhorar o preso na cadeia. (Ela gostava mesmo era do cara que tinha sido ator pornô, ele não era bom de cama, mas trazia flores que a namorada lhe trazia). Diz que, sim, todos sonhamos em ser policial ou assassino, assassino medieval entrando em Jerusalém contra os árabes sujos de sangue. Falcão, águia.Transcender. Uma alguma lógica. Dizem: 90% das mortes serão com tiros na cabeça se amarmos nossos irmãos. Ela diz: no seu lar a violência era algo belo. (E ela diz que no seu lar a violência era banal). Ela diz: é preciso matar psicopatas, preguiçosos e pessoas no corredor direito do terceiro andar. Na Bíblia de capa vermelha da minha mãe: não leve desaforo pra casa, não sustente vagabundos, sorria e despreze com elegância. Dizia: não sabemos entender angústias não promissoras. Não sabemos andar no labirinto. Cave com as mãos sua terra, cruze o rio com suas próprias botas, mate com uma faca sua própria vaca, tenha uma lógica, uma pobre, rota e suja alguma lógica. (Ainda maquiada, tirou a roupa, mostra o pau pequeno, em sinal de rendição. Tiros). Ela diz: oferecerás um pássaro pelo pecado. Dizem: Seja um guerreiro. A Bíblia diz: matem.

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terça-feira, julho 30, 2013

Colonial

Doce mar, gente do pátrio Rio assim 
na vida tão encurralado talvez 
num bar com amigos atacado onde 
vemos ninfas cantar, pastar o gado

não nos amorne o esquecimento frio
nos cale também o gás sombrio 
com tanto medo do próprio Estado

morrer em casa ainda é vida
na janela sentir o estouro 
no tiro livre do vasto campo
abatida rezar pra não ter sangue 
no couro a injustiça é chama que não 
cicatriza tudo indo bem, e ainda manda
o ouro 


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Desaparecido

Eu queria falar do vestido puído
do branco do campo
da casa oca e do tempo lutado
entre o sistema doído e o íntimo 
sufocado
Mas o que posso é o soco 
do mundo palco
pão pouco 
na casa pouca
sempre
palafita vida 
sempre
trânsito 
para talvez alguém
cidadania aflita
para verificação
cidadão corpo
estudante marginal lei em desaparição
a multidão de formigas focadas
os gritos de esperança cortados
as línguas em trabalhos de eras 
suturadas na multiplicação, rompidas 
quando irrompe o fogo em preto e branco 
procedimento puro. boi
o vidro azul que cobria denso profundo
inferno. sombra antiga
da república. um silêncio de tempo deslizando 
frio. arte incriada das gerações 
pela flor da bala rasgada. hábito de guerra 
na prateleira e monótono sumiço 
Os sonhos do corpo em desafogar-se
Do caminhante da rua em sentir-se em duração
cavaleiro pedreiro em ser andante e amar pele geral
Sem ser apócrifo seu sonho, gemido desgosto
exterminado em enfermidade longa
transitar do quase-homem para o zero-quase
invisível ser sem relação 
Eu falaria da vaga do horizonte
e do sol que irrompe
mas não. 
Segurança


Ele estava cansado das humilhações do gerente. Trabalhava em dois empregos de dia, um à noite. Aquele cara não tinha nada a ver com segurança, foi colocado lá por ser um mauricinho puxa-saco, pensava. E, um dia, o banco foi assaltado. Troca de tiros. O gerente feito refém. Ela está em carne viva, disse a médica. Meu marido está desempregado, a chuva levou um pedaço da casa, tá chovendo lá dentro, a mãe justificava. Meu marido tá sem emprego faz tempo, hematomas no seu corpo confirmavam. Ele lembra da mãe falando que "água de rato" ia matar um deles, se pelo menos soubesse ler, faltava comida e leite. Um barulho. Ele atirou no peito do gerente, que caiu. 

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sexta-feira, julho 26, 2013

One

Esses registros foram encontrados muito tempo depois do ocorrido. M.T. era astronauta na estação Centuria 17P33. Uma tempestade elétrica o deixou sem comunicação com a Terra por mais de um dia. Quando retornaram seus equipamentos, não havia resposta alguma. Depois de uma semana, decidiu aterrizar. Ele conta que não encontrou ninguém na plataforma espacial que comandava a estação. A central e os escritórios também pareciam estar vazios. Tentou ligar para os amigos, os parentes, sem sucesso. A TV também havia parado de transmitir. Ele iniciou uma busca de carro por outros seres humanos. Ninguém nas ruas e nas estradas. Sua casa parecia deserta. 



Relata que o primeiro mês foi de sofrimento, mas que a esperança ainda existia. Vastas paisagens, silêncio quase absoluto, apenas os pássaros e o vento. Percorreu o país comendo o que encontrava em mercados de estrada e abastecendo-se livremente nos postos que encontrava. Uma sensação de paz se misturava à angústia. Nenhum sinal de pane, catástrofe ou doença. Atravessou metade do estado não encontrando ninguém. Finalmente, voltou para uma casa que tinha no campo e lá ficou. 

Decidiu plantar para distrair-se. Leu muitos livros. Começou a criar companheiros imaginários: a cadeira Senhora Tulls, o bule de café Sr. Piccard, a poltrona Lady Maus. Os animais lhe faziam companhia: cavalos, porcos, pássaros. Muito trabalho. 


Mas um dia acordou e viu um homem que se apresentou como Samuel. Era um perfeito cavalheiro, em suas roupas muito antigas. Eles tomavam chá e falavam sobre a evolução da raça humana. "Sabe, amigo, como a natureza sempre seleciona os melhores, vamos progredir indiscriminadamente". Achava estranho ele não dizer: "infinitamente". Samuel era um bom amigo, mas, um dia, ao caminhar sozinho próximo do rio, teve a impressão de ouvi-lo gritar. Voltou correndo à sua casa e nunca mais o viu. 



Por outro lado, buscando ao redor da propriedade, encontrou uma espécie de caverna. Sua entrada era pequena e coberta de vegetação, mas resolveu entrar depois de sentir o vento sair pela abertura. Nunca havia sabido de sua existência. Dentro dela descobriu paredes pintadas e polidas. Eram como letras, mas não pareciam formar uma língua, nem tampouco uma história por imagens. Continuou buscando em seu interior. Qual sua surpresa quando, dois dias depois, ouviu a fraca voz de uma menina, de aparentemente 14 anos, que parecia agonizando mais ao fundo da caverna. 


Levou-a para sua casa. A menina estava muito fraca e dormiu durante 24h. 
- Os Altos, ela disse. Os Altos. 
Mas ela não podia falar mais. Três dias depois, ele a surpreendeu folhando um livro, na biblioteca. 
- Conhece? Sabe ler?
- Lótus. São lótus - sua voz era fraca. 
- O que é lótus, ele perguntou.
Ela caminhou até a janela e pareceu fraca:
- Os de sua raça pensam que nós não pensamos. 
- Minha "raça"?
Ela olhou tristemente para o livro. 
- Nosso povo usava objetos como esse para preservar suas histórias. Hoje, sabemos que eles conseguiam juntar Votons para expressar o pensamento. Mas só temos, agora, Votons das coisas simples. 
- O que aconteceu com seu povo? 
- Os Altos começaram uma grande perseguição. Acham que temos poucos recursos na Terra. Acham que queremos tirar o que é deles. 


Finalmente, ele conseguiu tirar dela que, na caverna, havia uma espécie de lótus-pergaminho, muito danificado, em uma caixa de metal, que eles não podiam ler, onde sua antepassada contava fragmentos de histórias, borrados pela degradação do material. Ele as interpretou como pode: máscaras de oxigênio, contaminação química. "Grande Divisão". Grupos fascistas mataram todos os líderes de trabalhadores. Guerra, Corporação Branca e Vermelha. Os "Altos" passaram a venerar a Pedra. 


Os Baixos deveriam pagar por sua formação, perdendo acesso aos lótus e, por fim, qualquer forma de linguagem complexa; nova língua Klyn, global, seitas fanáticas e rivalidades locais, robôs e, depois, seres holográficos, "campos de força seletivos" nas cidades, "polícia molecular", teste de "DPCI", coeficiente de evolução. 



Para os Altos, andar em pares ou grupos era considerado deselegante. Robotização orgânica. A maioria dormia muito pouco por causa dos pesadelos. A fome e uma peste levou os Baixos à rebelião. Muitos foram queimados. Depois disso, foram instituídas as "Camas Públicas", onde Baixos eram torturados nas praças para amedrontar seus semelhantes. Até que veio a Grande Perseguição. 



Apesar de muitos cuidados, a menina morreu alguns dias depois. Ele ficou deprimido por muitos dias. O retorno ao mundo vazio o aniquilou. Decidiu partir e retornar à estação. Queria morrer no espaço. Sua  última mensagem foi escrita na capa de um livro: "One". 

domingo, julho 21, 2013

Cosmos

Eu te quero bem
O pacífico possível do mundo
coberto de letras-estradas
e o cabelo centenário da madeira
como signo subaquático das medidas
desmedidas - os pelos gráficos
dos apelos atávicos nossos
as nuvens tão maiores que os prédios
que soltam o olhar onde
o quadrado solto pode te desintegrar
os pulsares do peito sem juízo
o mar impalpável que une
querendo ser visto
a tipografia cornucópia
do dia, forró de matéria em transe
as coisas nunca saem como o esperado
o big-bang de tudo
o que é uma flor
insabível
o susto de pingos vermelhos
movimento intencional do ser
ligações no espaço-tempo poético
de como falam as camadas do corpo-mente
redes, catedrais de pó inteligente
esconderijos do átomo concreto
metafísica do tato
linguística do químico
todo movimento já é mundo
uma espécie que quer ser pessoa
nem fantasma
nem máquina
seria muita prepotência dizer que sei as coisas

Consciência de uma inconsciência universal
mutante
perigo da pedrapensar
(pedra que quando pedra viu o mar)
e fome de outramente
replantar o chão, semente do mundo
dúvida jedi
contra a fábrica de banal
desesperança
não sei me salva

Eu vivo a vida dos insetos
árvore alienígena e banho de araras rebordosas
parte da paisagem sonora germinando
sintética dos seres resendo
os brotos grossos do corpo
e a onda de ânsias do belo todo
útero vertical nos dias oculto
no pisar pálido
o pântano dos ossos esvaziados
sem nonsenses regulados
eu quero a pele do mundo na minha
jazz atravessando a avenida
e a surpresa do absoluto nós


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O trabalho Cosmos de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.









sábado, julho 13, 2013

Corrida

Uma vida tão corrida
malandra, com tanta lambida
tanta esperança achada e
tanta certeza perdida

Uma vida meio construída
na tempestade
achar poesia ou coisa assim
nas ossadas
que caem sobre nossas cabeças
e na beleza fria agora
e não perder o passo
pulando num pé só
dar nosso fruto de querubim sem asa
e subir à tona na madrugada
escura

O menino precisa da raiz
Para sujar a cara e ver longe
Eu cresci e desenho na areia
Não um mapa, mas caminhos
Foi errando, caindo, em frente
Nós queimamos para um dia

Solidão, e a mão amiga
dos poetas mortos
Quem precisa é a vida
Seguir a ginga e polir a estima
Sem rumo, querendo verdade
Quando um dia ameaça e outro elogia

Agarrar-se no vazio e erguer
um pouco de valentia
para o mundo

Uma aventura, esforço brincado
A meta de não morrer
Rever, olhar sem rancor
Quantas coisas nessa  vitória suja
Porque não sei de outro mundo
que não meus olhos que abraçam

Sem nunca fazer o que deve, do jeito
certo, sem nunca se adaptar
E surpreso com o sopro invisível
É preciso retornar à cidade

Subir ao céu, descer ao nada
Não levar nada porque não é essencial
E entre gregos, troianos, no terremoto
acreditar
Ver o universo como objeto
quebrado e incriado
querendo colo
E uma dúvida certa e constante
que guia
Estrada.

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O trabalho Corrida de Afonso Jr. Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quinta-feira, julho 11, 2013

Frio 


As carruagens, barulho no Teatro
Lampiões em névoa densa
Londres está fria
as crianças deitam suas cabeças sujas
depois de horas de trabalho
A mulher da noite dorme sobre um chão frio
Choveu muito ontem
Ela se cobre com panos azuis e verdes
Ela esconde seu rosto com uma
sombrinha chinesa rasgada
Pingos gélidos
E as coisas que sonhamos
e as coisas que sabíamos, somem
E tudo tem uma história
um passado escondido
de um eu cavaleiro solitário
e tudo ao redor torna-se impalpável

cidadã de segunda classe
Escondida na noite silenciosa

sábado, junho 22, 2013

Carnaval democrático - e agora?


Todos estão se perguntando: "o que está acontecendo?" Aos poucos as coisas estão ficando mais claras e tentamos juntar as peças, enquanto continuam os tumultos e turbulências. Todo mundo sabe que um filho que não é ouvido, torna-se violento. (E que podemos, assustados, ferir quem nos ajuda). Temos de pensar sob a urgência, somos do imediato, para o bem e para o mal. Nisso, ajuda a história. 


Ainda temos de fazer a democracia. Não dá vontade de chorar quando a gente descobre que em Copenhagen eles têm piscinas públicas, Paris e Londres tem Câmaras de Vereadores de bairro? Lembra do Orçamento Participativo de Porto Alegre? Quando se pensa que um buffet de sushi na Faria Lima custa R$ 55,00 e um cheque-despejo do Kassab é de R$ 300,00?  Que 16 milhões ainda vivem em miséria extrema - o que quem vive nas bolhas de riqueza nem imagina.

O caso do Movimento pelo cine Belas Artes mostrou como funciona essa nova "exclusão": você é chamado para reuniões e tratado como "criança rebelde"; as audiências públicas atingem pouco quem manda; os órgãos públicos usam uma série de mecanismos da lei para evitar as demandas; a própria mídia já olha toda a manifestação como ignorância, a seita platônica dos sábios pressupõe a ignorância do "povo"... E, por isso, há a suspensão da crença. Na estrutura de nossas relações saber é poder. Vivemos numa sociedade hiper-hierárquica, onde a todo momento desqualificamos o discurso do outro. Estamos tão isolados que podemos, como eu vi ontem, passar o sinal fechado numa avenida, atender o celular em uma palestra, entrar num estacionamento sem diminuir a velocidade quase atropelando o pedestre... 


Democracia é participação e entendimento (acesso à cultura, educação, livros, debate público, assembleias, bibliotecas, etc.). Políticas que criem ambientes de encontro, reflexão e uma consciência coletiva: não é à toa que a democracia grega criou o teatro. Nossa democracia ainda não incorporou de fato o diálogo e a expressão direta e acabar com a desigualdade não foi uma prioridade em todos os níveis, ainda que, para evitar uma injustiça, tenhamos que reconhecer que os últimos dois governos tenham representado uma resistência forte contra a nova aristocracia global e a destruição da democracia, que ontem tinham o nome de Consenso de Washington e de FMI, para quem todo investimento era gasto. 

Tivemos um apagão por falta de investimento, o movimento Arte contra a Barbárie por uma visão meramente privatista da cultura (como se nosso empresário fosse o americano, culturalmente instruído a doar para a comunidade), a educação estacionada e regredindo... Era do "engavetador geral", com mais de 4 mil processos detidos (quem ouviu falar?; e no "mensalão?) Tem algo de "milagrinho", quando despencou a qualidade de vida dos mais pobres e 600 mil crianças viviam abandonadas na Grande São Paulo. É bom lembrar:


Em 1979, apenas 4% da população economicamente ativa do Rio de Janeiro e São Paulo ganha acima de dez salários mínimos. A maioria, 40%, recebe até três salários mínimos. Além disso, o valor real do salário mínimo cai drasticamente. Em 1959, um trabalhador que ganhasse salário mínimo precisava trabalhar 65 horas para comprar os alimentos necessários à sua família. No final da década de 70 o número de horas necessárias passa para 153. No campo, a maior parte dos trabalhadores não recebe sequer o salário mínimo.

Em compasso de espera há quase 30 anos. Onde estão as grandes mudanças? O ProUni colocou os pobres na universidade, mas nossas calçadas ainda são um lixo e nossas Câmaras são elitistas (ok, se salvam dois). Dá medo pensar, por exemplo que os royalties do petróleo podem NÃO ser usados na educação! Não se criou espaços de debate onde circula a crítica e a revisão, as decisões cabem à minorias. É a nano-política, política do detalhe: todo mundo ama a igualdade, mas nos casos específicos protege a concentração de renda e poder. Senão, vejamos:

Um exemplo: a verba destinada à região da subprefeitura de Pinheiros (Pinheiros, Jardim Paulista, Alto de Pinheiros e Itaim Bibi), com 245 mil habitantes divididos por 32 km2, foi quatro vezes maior do que o total destinado à Capela do Socorro (Socorro, Cidade Dutra e Grajaú), que tem 645 mil habitantes em uma área de 134 km2. 
http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/24/ult23u2015.jhtm


Principalmente à nível municipal e estadual, as estruturas da ditadura se mantém: muita aparência e pouco debate e resultado. Milhões foram inseridos no consumo, mas ainda não sentiram que sua voz fosse ouvida. Ainda vale o poder das corporações em direcionar políticas públicas - o caso mais notório, o desfigurar da Copa, que até agora pouco trouxe de melhoria para nossa vida diária (mobilidade, por exemplo). Em todo o mundo, dominado pelas corporações e bancos, cabe aos movimentos levar os partidos eleitos em direção à igualdade.


Existem agora vários protestos: muita gente querendo o que todo mundo quer e sempre quis (saúde, educação, menos corrupção); os brasileiros no estrangeiro protestam porque a vida lá é melhor, mesmo em profissões menos reconhecidas socialmente; existe o protesto alienado, que repete slogans da mídia partidarizada; existe o protesto mais primitivo e radical da violência sem foco e existe o banditismo. Existe o movimento que agora estoura no resto do país, que sofre mais, porque afinal o Brasil não é São Paulo e não tem seu histórico de melhorias - com todo seu drama, a cidade oferece um outro Brasil, com bibliotecas, teatros e opções de educação. (Por falar nisso: ouvi de um secretário tucano que se devia encher as bibliotecas de Harry Potter, pois avaliam por número; e, ainda: não devíamos ter uma boa biblioteca por bairro? Será que com 170 bilhões de orçamento do estado não dá?)


Quem está parando as rodovias acordou: por que motivo não temos ainda um metrô para o ABC? Espero que se pense: foram 5 bilhões para um rodoanel para quê? É o cidadão-lucro, o povo visto como negócio, e os transportes explicitam isso. O mercado de músicas machistas me mostra continuamente que ainda estamos longe de distribuir conhecimento e valores básicos, e os moradores de rua vivendo como animais me mostram que ainda aceitamos um pensamento de casta.

Agora, muita coisa foi revelada.
Num primeiro momento, vimos que a polícia não está preparada para a democracia. Parecia que "toda manifestação" era baderna. O governador viu que não dá para lidar com a classe média assim e, juntando com os números recentes de crescimento da criminalidade... Vale a pena lembrar aqui a esquisita ausência de polícia na Virada Cultural: o Estadão denunciou que, mesmo avisados de que estavam ocorrendo arrastões, os policiais apenas observavam. No metrô Anhangabaú, às 4hs, havia uma multidão e dois policiais a uma quadra. (Essa ausência se repetiu depois, nos saques às lojas, levantando suspeitas de fins políticos). 


A reação contra a desproporção da violência encheu a Faria Lima, para mim, com mais de um milhão de pessoas. Uma festa da democracia, emocionante, impressionante. O grito "que coincidência, sem polícia, sem violência" e "Brasil, vamos acordar, um professor vale mais que o Neymar", gritados por dezenas, é histórico. Mas não nos livramos do passado tão facilmente: a "contrarevolução" nos tirou, claro, a curiosidade, de ler a realidade fora do meu umbigo, família, bairro. Fomos criados para ter medo de gente. Para ver um subversivo em todo o jovem. Para querer "segurança" à qualquer custo. Para ver "sem paixão" dois lados de uma questão, dando valor igual ao justo e ao injusto, até ficarmos inertes. 

Não passamos pelo Iluminismo: todo cidadão tem os meios para refletir, ouse saber! Como revitalizar os mecanismos democráticos dentro e fora de nós? E a reforma política, para acabar com as promoções de deputados e vereadores? Podemos ter uma assembleia com a população mensalmente, em um horário em que se possa ir, na Câmara de Vereadores, para debater as votações do mês? Um telão passando as sessões no MASP e na República? Precisamos ousar. 


Outro lado que fica patente é a "desilusão com a política" e o "antipartidarismo". O que pode trazer conscientização é a educação com valores democráticos, que ao mesmo tempo, respeita a autonomia e desenvolve o senso crítico. É visível que muita gente não sabe nem as causas de seu desespero, nem o que já foi feito e nem como exigir o que quer. Não consegue defender seus próprios interesses, pois não sabe quem é seu amigo. Geléia geral. Descobri devido ao Movimento pelo Cine Belas Artes, o quanto cabe aos estados e municípios uma série de decisões sobre temas locais, o quanto o prefeito tem de querer receber ajuda. (Um exemplo é a descentralização e municipalização da educação). Lembro de um amigo que tentou em vão movimentar estudantes "contra o sistema" quando a prefeitura queria entregar o bairro Santa Ifigênia ao mercado imobiliário: o diabo mora nos detalhes.

“Eis a causa da prevalência do interesse privado sobre o interesse público – doações de campanha e lucro aos empresários sob compromisso de confidencialidade”, diz a ação.


http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/mp-quer-devolucao-de-taxa-de-inspecao-e-kassab-afastado/



Quando qualquer debate sobre a homofobia nas escolas, por exemplo, não avança, fica claro que "os vinte anos de escola" criaram, ao lado de uma elite com agressividade fria baseada em números, uma massa excluída conservadora. Ou seja, democracia formal sem democracia de debate é nada. A única coisa que pode nos salvar do fascismo e do enrijecimento é a crítica do outro, que nos mostra nossos preconceitos, o estudo do diferente, o contato.


É o que eu chamo de bloqueio comunicativo: sem acesso a informação de qualidade e formação intelectual, sem espaços de convivência e debate público, girando em círculos, hiperfocados, sem contraditório, cria-se um sistema de informações distorcidas, banalizadas, aclichezadas, arcaicas, ao lado de um "modernismo de fachada", uma revolta "de costumes"; a sensação de que "não sei nada" e é melhor "não falar do que não sei". (Nessas horas, lembro de Brizola, que fez uma escola em cada ponto do RS). Neste clima o empresário pensa que não faz parte da sociedade e se sente invadido ao pagar impostos, sejam quais forem os ajustes necessários. É duro pensar que as pessoas não sabem nem quem tem atribuição de quê e culpam a Dilma por falta de investimentos na saúde e educação. A classe A não entende por que deveria haver distribuição e está acomodada em reproduzir a desigualdade através do acúmulo de conhecimento: nossa democracia formal foi um "jeitinho", não uma reflexão sobre o passado. 

Sociedade dos especialistas, progresso atômico. Temos muita informação e pouco confronto com o real, ainda mais em São Paulo, cidade dos guetos, sem espaços públicos e consultas, onde a palavra "periferia" passou a ser um conceito que explica o descaso e a omissão. "São Paulo tem gente demais" é a resposta para a falta de eficiência dos prefeitos. E nenhum paulistano pode esquecer o caos do governo Kassab: mudanças no Plano Diretor, terror nas desapropriações e desocupações, zero de participação, venda de terrenos públicos, inspeção veicular absurda...


Também observamos a mídia, que tantas vezes, por velocidade, conservadorismo ou hábito parece deslegitimar as demandas populares, e começou usando velhos conceitos para novas ansiedades. Ela foi obrigada a mudar. Essa foi uma vitória incrível das redes sociais, que rapidamente responderam aos gritos de "vândalos" com imagens de feridos. Aqui tivemos uma atitude real, que faz pensar quem acha que Facebook é só alienação.


Depois, vieram os políticos conservadores, que se apoiam numa classe média "cansei", isolada na montanha, que tentaram falar na volta da inflação para voltar ao poder. O velho "medo", para ajudar quem nunca fez nada. Usando a injustiça de uma polícia repressora, que simbolizou e catalizou outras injustiças, para fins eleitoreiros. É bom lembrar que, na Inglaterra, que fez uma grande revolução após a Guerra, quem votou em Thatcher foram os filhos engravatados da classe trabalhadora, que havia saído de minas insalubres e ganhado casas de dois andares com jardim; e ela destruiu isso tudo, facilitando a crise de 2008.


As pessoas saíram da miséria. Agora querem mais. Como o namorado que ganhou um beijo. E tem a sensação de poder que tomar a rua dá. O prazer legítimo do poder. A sensação de que existe uma sociedade e não apenas meu mundo. Eu vi duas meninas jovens e bonitas enroladas na bandeira do Brasil, um homem grisalho com "cara pintada". Talvez eles peguem o que fura o bloqueio comunicativo ou o que interessa à publicidade noticiosa. Mas é bonito. Faz tempo que as únicas multidões vistas são do carnaval, do Corinthians e alguma gang. 

Será bom se Congresso e governadores acordarem. Qualquer pessoa que tenha tentado mobilizar alguém em São Paulo sabe que as coisas morrem antes de começar: por que vou sair de casa se o outro não vai? Não adianta mesmo. Nada pode ser diferente. Não vou pagar esse mico. O que resulta é viver sozinho em sociedade. Deixar rolar as divisões do orçamento na Câmara. Aceitar que o político é patrocinado como todo o resto. Um apresentador de TV que diz: "se um desses tomar um tiro é bem tomado!"

Há muita coisa indigesta. Nosso país cresceu, mas nossas cidades estão mais democráticas? Por que São Paulo não tem uma política de moradia consistente? Como temos apenas 4 e 1/2 linhas de metrô? Os governos educaram a população - com ausência - a não participar. Quando os poderes locais se isentam da responsabilidade de ouvir e de fomentar participação e até a impedem, criam a apatia e a revolta. É preciso usar essa energia para criar uma democracia de fato, e não apenas de voto.

domingo, maio 12, 2013

Do corpo

O corpo sai do corpo
E algo de noite fica nele
Mulher sábia
que cuida da terra
nas dobras das superfícies
depois de toda a vaidade
depois da guerra
depois do ouro
que luta na selva
pensando o vento e o silêncio
que vira a página, que acha o rumo
distribui o leite, os pingos dos is, revoluciona
mulher que abraça
busca alimento
para a família mundo
e deixa tudo que não é cerne
sorriso
Grande Mãe das pequenas coisas
que abre o portão
sente o cheiro do dia
a colheita possível
sonha raízes na mata
além da raiva, além da pressa
que não era tão importante
pedaço de noite onde tudo se esconde e caminha
a canção que fecha o dia
mulher madura
Reverência

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Do corpo de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, abril 22, 2013

O copista

A erudição faz parte da diversão
o estado perfeito do barro
Do vasto mar passado, com suas redes
crianças colhem imagens de outro real
O que importa é o chão e tudo que o rodeia
O chão, feito de memória
Agora, quando o cérebro é a pessoa
e o átomo é a arte
O Resultado é adorado no Templo
e respondeu as perguntas ancestrais
Agora, quando os números perderam sua carne
No mundo desigual, escravizou-se o belo
que empurra o condenado para que morra na forca
Ouve-se tambores e a violência da verdade
Cada visão cria no espaço seu Cânone
e, com frases mágicas, monstros novos
Acumular é típico dos mortos
O hieróglifo é comunicação
No sangue do erudito vive o trovador
Pic-nic de filosofias olhando o pequeno no berço
A utilidade do Gênio desmorona no calor do dia
quando canta o pássaro e sabemos a unidade
Eu quero os opostos e o labirinto lógico
As ciências secretas da vida 
A delícia do não eu
O saber das plantas, o raciocínio da raiz
Para quem Hegel é uma aventura da eterna noite
O saber não me medalha e monumenta
me atenta, me esgrima, me abre as portas 
do Clube Científico Irrequieto
Angustia o homem das engrenagens, lembra dos feridos
Abre os olhos do herói para sua arma impiedosa
O tirano sempre acusa a vítima
A carne é triste sim, dizem, e eu li os livros todos
O medo leva a razão pela coleira,  a reproduz em argila 
Uma parte é a letra e outra a paixão
Uma parte é um eu, outra o círculo
O dionisíaco é uma estrutura precisa 
Não podemos navegar em reta no oceano de mil quartos
Meus mestres, modelos e manuscritos foram queimados por seu fogo
O saber não é poder, um tumulto herdado e um olhar amigo
Não é servo do vazio, mas do incomensurável


segunda-feira, abril 08, 2013


Os Morgans

Entramos no teatro e somos surpreendidos pelo cenário no qual flutuam objetos antigos. Esses objetos que revelam, que fazem emergir verdades.

Quando pensamos em Arthur Miller, pensamos em sua militância democrática e no seu rigor formal que cria coerência fragmentando o drama realista com toques de narratividade, delírio, cortes temporais, etc. Pensamos também na sua arte que faz com que homens vitimizados, como um caixeiro viajante "bagaço-de-laranja", se tornem complexos, contraditórios, assumindo na pele o fascismo da sociedade, defendendo essa "ordem" e essa "liberdade", que são apenas ausência e opressão sem lei.

E, assim, Miller nos ajuda a pensar nossa própria sociedade na qual aprendemos durante vinte anos a não fazer barulho, a defender o chefe, a achar que tudo que existe é o melhor que poderia acontecer. A moda agora é não ser "polêmico" e saber se comportar, ou seja, esquecer. Ninguém quer parecer "baderneiro" e "idealista", um 68 deslocado. Nós ainda não fizemos o luto e o ritual de reconhecimento necessários. Não debatemos os preconceitos que levaram ao sangue.

Essa não é uma peça de protesto como "As Bruxas" ou "A Morte". O que mais impressiona aqui é o quanto ela nos diz sobre a nossa ambiguidade. Como o personagem principal, que tem duas esposas, queremos tudo, ao mesmo tempo, acabamos acreditando em nossa mente que justifica e encobre nossa deriva ética. (Os miseráveis, por exemplo, não são sempre culpados de algo?)

Como cuidar de nosso monstro interno e viver coletivamente sem ser moralista? Viver intensamente (ostentando) é nossa Lei Maior, salve-se-quem puder. Somos esquerdistas, somos humanistas, somos radicais, mas temos de ser os melhores e ter um resultado perfeito, mate quem atrapalhar. Optamos por não sofrer. De certo modo estamos tão assustados que preferimos comprar nosso carro e lutar para pagar uma escola melhor, do que repensar o individualismo. Conseguiram nos convencer que as utopias acabaram e que isso é ótimo, e se essas conclusões são quase banais é porque chegamos à pulverização do aparelho de pensar. Somos os objetos perdidos. Existem consequências.

A grandeza dramatúrgica aqui está em apresentar seres complexos e boa ficção, sem moralismos simplistas. A esposa é durona, patriota e frágil; a outra mulher é independente, sensível e vitimizada. "O cristianismo acabou, o marxismo acabou". Onde conseguir a alegria da verdade e por que?

Como escafandristas arqueólogos temos de buscar os sinais de outra história, de juntar cacos para ver o que a onda neo-conservadora encobriu. Estranhamente, neste momento em que nossos direitos mais fundamentais são atacados com toda a força (seja por aquela parcela da população que não teve educação suficiente e agora defende um fundamentalismo religioso, seja pelos nossos governantes que, por exemplo, vendem sem dó áreas verdes em troca de alguns trocados), tudo parece bem. A ideia adorniana de que a forma já é política pode ter também um lado sombrio.

Mas então, aquilo que foi escondido retorna, o "menino monstro" do condomínio fechado ganha as ruas, também nossos sentimentos caóticos e incontroláveis, nossa ambição, nossa fome. A sociedade desigual deformou nosso caráter. Provamos nossa superioridade de classe pela cultura, temos nojo do "fracassado". Aceitamos. Somos crianças e saímos de noite da cama para dirigir nosso Porsche na neve.

A montagem soube dar vida a esse mundo em pedaços. O elenco, maduro e apostando nas variações emocionais e no entendimento do texto, nos deixa ver essas figuras de todos os lados; a opção por ressaltar momentos de comédia amplia a situação, assim como a direção ágil que opta por reforçar o realismo onírico,  deixando confuso o confuso, e amenizando o déjà-vu dos "momentos felizes" em flash-back da primeira parte, que podem ser um pouco cansativos depois de Lost. (É certo que, no final, são tantos estados emocionais que um intervalo a mais entre as falas seria ótimo). A virada da segunda parte, onde todos são culpados, é um belo enriquecimento no texto. Talvez não seja a melhor peça de Miller, mas é Miller, o que já diz tudo.

Afonso Lima

quinta-feira, março 28, 2013

Ausência

Hoje eu tenho que fazer uma coisa
Hoje ou nunca
Recriar a tradição
Ouvir os ecos de uma mata, seu orvalho e neblina
Lembrar do ontem e não deixar que se repita
Chamar por Ishtar e passar pelo fogo e pela água
Para abrir meus olhos, purificar-me
E, na minha busca, e na minha fome
Colher como pássaro os hálitos jovens da manhã
para viver as origens
e colorir o tempo do inverno

E tudo depende
de ser o ato presente
Hoje
Propor o amanhã inesperado
ouvir, em silêncio, o tempo do sol poente
e oferecer um rito
ao ciclo infinito
Lembrar das linhas do sangue
da alma-animal comum, a rede
Crer que Eostre chegará num carro de aurora
e Dionísio informulável e seus frutos
E reconhecer em cada pedra de rua e cada criança
Um deus.

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O trabalho Ausência de Afonso Jr Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, março 25, 2013


O simulacro
Um monge escreve um texto baseado no Cântico dos Cânticos. O cavaleiro e a rainha foram levados ao adultério por esse livro de amor. Lendo sua história, uma aristocrata - que fora dada em casamento a um homem detestável por causa de um acordo de paz, tendo se casado por procuração trazida pelo seu jovem irmão, Paulo, o Belo - acaba sendo assassinada pelo marido furioso. A história está ao lado da cama de Maria quando seu marido a asfixia, tendo saído da prisão no feriado, e o bebê de um ano deita-se com a mãe até a polícia chegar.
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O trabalho O simulacro de Afonso Junior Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://afonsojunior.blogspot.com.br/.

segunda-feira, março 11, 2013

Rumor



Quero mais elefantes
pelas ruas
E aranhas claras em folhas verdes
Olhando com mil olhos carros transitórios
Evoco sonhos de floresta
Invoco os gritos do deus novo!
A terra que tudo sustenta e respira
Novas palavras para proteger a
vida
O mundo é novo hoje e, portanto, a lei
Venha o deus Água num abraço de círculo amigo
pela cidade
desfazendo as chamas do concreto
Em diálogo de paz - e os peixes que têm o logos do tempo
Não vamos pressupor saber tudo de um mundo
indomável
Eu evoco os gatos, os dias de preguiça, o corpo vivo
Uma escuridão de silêncios com dama da noite
Chamemos a Vida, quando reina Repetição
Tudo programado, tudo para poucos
Quando o ser acinzenta (o eu se faz em contato)
tudo é sopro seco de fogo
a tristeza cobre com sua poeira fria a treva
o Pensar como espada e corte
(Ele, Irmão do Amor, filho do Ovo da Noite)
homens, mulheres com pele ferida
unhas sujas e famintos
o fracasso de uma civilização
Evoco o tempo criador
Que tudo relativiza, apaga, tempo de todos
Os anjos bárbaros com fontes de água nova
Brotem do Rumor os dedos divinos pela cidade!
Anel de flores por todos os caminhos, pétalas no lago
As ninfas sujas de lama circulam e observam
E as nuvens escuras lembram do primeiro dia
O mundo dos mortos caminha junto, salva a vida
Adormeçam os furiosos jovens, isolados
Os frutos cubram paredes de pedra
com línguas de todos os povos e pele-pensar
Um frêmito de renovação, daquilo que muda sempre
Porque todo o ser é já em si poder e potência
O parar, o amanhecer, o olhar vivo
Igualdade da terra que os acolhe
O Pensar ancestral pré-individual
que pune o insolente
Verte, borbulha, limpa de eus infinitos
Não há maior saber que o fluir na vida
Quero mais elefantes
pelas ruas